Crítica: Uma Família Feliz

cinema

Happy Family, 96min, Alemanha. Direção: Holger Tappe. Roteiro: David Safier e Catharina Junk (baseado no romance de David Safier).

Uma Família Feliz, animação alemã dirigida por Holger Tappe, é um filme visualmente rico; uma pena, porém, que seu roteiro seja extremamente frágil e até mesmo preguiçoso.

A protagonista, Emma Wishbone (que conta com a voz de Juliana Paes na versão brasileira), vive uma crise familiar em meio ao marido, Frank, que tem trabalhado demais e aos filhos, Max, um pequeno gênio, e Fay, a típica adolescente rebelde. Ao decidir convencer todos a ir a uma festa e acidentalmente ligar para o Conde Drácula ao invés da loja de fantasias, a mulher acaba se envolvendo em uma enorme enrascada e arrastando todos os familiares junto com ela.

Com uma estética impecável, o longa combina sua fotografia e direção de arte não apenas para criar ou recriar uma série de ambientes mas também estabelecer a diferença entre o mundo da família Wishbone e aquele habitado pelo Drácula; em uma cena em especial na qual Emma e este conversam por telefone, o contraste visual se torna especialmente grande, por exemplo. Ainda, locais como a cidade de Nova York e suas típicas ruas e construções ou pontos turísticos de Londres ganham vida através do trabalho de Tino Roeger (designer de produção).

Porém, apesar de esteticamente interessante e de emplacar uma boa quantidade de sequências divertidas, o filme peca em seu roteiro por uma série de questões: em primeiro lugar, chega a ser frustrante que em pleno 2017 ainda existam roteiristas que realmente acreditem que a simples menção a gases intestinais, fezes ou quaisquer outras escatologias farão seu público rir – e não apenas uma vez, já que o filme repete a mesma “piada” à exaustão, como se já não tivesse sido suficientemente vergonhosa da primeira vez; além de subestimar a capacidade intelectual de seu espectador, a película ainda parece insistir no erro como se realmente acreditasse que a simples menção às flatulências de Frank fosse capaz arrancar gargalhadas de alguém.




Como se já não bastasse, a fragilidade do roteiro é ainda exposta em situações como aquela em que, após fazer a ligação que cai por engano na casa do Drácula, Emma diz que “queria muito ter uma festa para ir” sendo que já estava em busca de dentes de vampiro para sua fantasia – por que fez isso se nem tinha uma festa em mente? -, ou ainda o fato de que nunca é totalmente explicado o motivo pelo qual esta, como vampira, poderia se expôr ao sol, o que nos leva, inclusive, a outro ponto bastante importante que discutirei a seguir (e aviso que o próximo parágrafo conterá spoilers, portanto o pule se ainda não assistiu ao filme).

É patético, para dizer o mínimo, que a forma encontrada pela família Wishbone para derrotar o vilão seja o sol; não por sua obviedade, mas justamente pelo fato absurdo de que não é possível que ninguém havia pensado nisto antes – especialmente depois que Max faz uma tentativa de liquidar o vampiro com uma ideia mirabolante que envolve as faixas de Fay (agora uma múmia), supostamente embebidas em água benta para o embalsamento.

Ainda, a trama não faz a menor questão de apresentar ou desenvolver satisfatoriamente boa parte de seus personagens: nunca conseguimos compreender totalmente de onde a velhinha hippie surgiu ou exatamente por qual razão decidiu acompanhar a família. Aliás, esta surge praticamente como um deus ex machina tendo convencido a bruxa Baba Yaga a reverter sua magia exatamente no momento mais conveniente à narrativa – e falando em conveniência, ainda, o longa também não se preocupa nem mesmo a dar uma explicação mínima sobre o fato de que boa parte dos empregados do Drácula decidem ajudar os Wishbone.

Isto para não mencionar uma série de diálogos forçados e artificiais como aquele em que a senhora hippie decide ajudar Baba Yaga simplesmente porque “está do lado do bem” ou como quando o garoto pelo qual Fay está apaixonada simplesmente a convida para participar de um clipe “porque ela é bonita”, segundos após a garota cair em cima dele e praticamente não conseguir falar.

Que é exatamente como eu fiquei depois das piadas com gases. Chega, por favor.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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