Crítica: Uma Família de Dois

cinema

Dirigido por Hugo Gélin e roteirizado pelo próprio juntamente com mais seis (sim, seis – isto quase nunca é um bom sinal) pessoas, Uma Família de Dois trata com leveza excessiva assuntos controversos ou até mesmo pesados; o longa tem, sim, seus méritos, mas a verdade é que uma série de problemas narrativos faz com que não se sustente e acabe deslizando ladeira abaixo.

Seu protagonista, Samuel (Omar Sy) é um boêmio que descobre ter uma filha da pior maneira possível: Kristin (Clémence Poésy), com quem teve um affair, aparece na marina francesa em que o homem trabalha, abandona a pequena Gloria (Gloria Colston) e acaba indo embora em um táxi. Samuel, desesperado, decide procurar a mulher em Londres, onde esta mora, até que uma série de eventos fazem com que acabe por assumir a responsabilidade pela garota – não sem que neste processo ele acabe conhecendo Bernie (Antoine Bertrand), que acaba se tornando muito mais do que um amigo, mas uma espécie de “segundo pai” da menina.

Um dos grandes problemas com o filme reside em algo cujo questionamento é inevitável: existiria uma película similar cujos papéis fossem invertidos? E se Samuel tivesse abandonado Gloria e Kristin? Por que um pai solo é enxergado com tanta devoção enquanto uma mãe na mesma situação é vítima de julgamentos e raramente o homem que a abandonou é visto pela sociedade de forma tão ruim?




Mas não é só isso – os problemas de ordem moral se misturam a um roteiro fraco que não se sustenta e que, ao menor sopro, desaba como um castelo de cartas: o filme não se preocupa em nenhum momento, por exemplo, em explicar as razões pelas quais Kristin desapareceu por tanto tempo ou ainda os motivos que a levaram a voltar; a mulher resolve, finalmente, ler oito anos de mensagens acumuladas em seu perfil do Facebook no momento em que isso se torna conveniente à narrativa. E o que falar de um pai que construiu todo o seu relacionamento com a filha baseado em mentiras? Seja a história absurda sobre a mãe ser agente secreta, os e-mails que enviava se passando por esta (a ponto de ser capaz de instalar um alarme para alertar Gloria a respeito de novas mensagens) ou o fato de esconder da própria garota que era doente – algo desumano, para dizer o mínimo. Isso para não mencionar o momento do terceiro ato em que Bernie avisa Kristin que Samuel passou “os últimos anos sem saber se seria o último dia que veria sua filha sorrir”; então o pai seria capaz de arriscar a saúde da própria filha ao permitir que a garota morasse com a mãe sem que esta soubesse da doença apenas por birra?

A verdade é que todos esses problemas existem pura e simplesmente porque são convenientes ao roteiro e às reviravoltas que tenta criar, sem que haja qualquer preocupação com sua consistência; e isto nem as boas atuações de Omar Sy e Gloria Colston conseguem resolver: sim, os dois atores criam personagens tridimensionais da melhor forma que podem, tendo como base um roteiro pedestre.




Sobre o mundo de mentiras criado por Samuel, é até genial que o design de produção estabeleça a casa deste como um ambiente que, de tão lúdico, beira o fantasioso já que, no fim das contas, resume muito bem sua relação com a filha: uma fantasia tão grande em que praticamente nada era realidade, já que quase tudo se calcava em mentiras e invenções.

E seu terceiro ato acaba por terminar de levar Uma Família de Dois ladeira abaixo já que seu desfecho possui ainda mais furos (e aviso que este parágrafo irá conter spoilers), a exemplo do fato de Samuel descobrir não ser o pai biológico de Gloria simplesmente porque isso é conveniente à narrativa – e nunca haver uma explicação lógica ou decente para este fato – ou de que a própria doença da garota só é explorada quando conveniente.

Sendo assim, acaba por ser muito apropriado que Samuel diga que queria que “cada segundo desta queda fosse uma festa”, já que, mesmo tentando acertar, sua capacidade como pai não foi muito além disso.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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