Crítica: A Torre Negra

cinema

The Dark Tower, EUA, 95min. Direção: Nikolaj Arcel. Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen e Nikolaj Arcev (baseado na obra de Stephen King). Elenco: Matthew McConaughey, Idris Elba, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Ben Gavin, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Franz Kranz, Abbey Lee, Katheryn Winnick.

Macguffin” é um termo que foi popularizado por Alfred Hitchcock, mas cujo uso sempre foi comum, antes mesmo de possuir um nome: representa um dispositivo de enredo, com pouca ou nenhuma explicação narrativa mas que, em geral, é perseguido ou buscado pelo protagonista e/ou outros personagens; constantemente presente em uma diversidade de roteiros e até mesmo tramas em geral: da maleta de Pulp Fiction ao Rosebud de Cidadão Kane, o macguffin é usado organicamente em diversos filmes. Mas, por alguma razão, Nikolaj Arcel, ao adaptar a obra de Stephen King, optou por transformar o elemento central desta em um simples macguffin, pasteurizando assim o enredo e transformando este Torre Negra em um filme genérico de batalha entre mocinho e vilão.

Laurie (Winnick) acredita que seu filho Jake (Taylor) é uma criança perturbada – afinal, o garoto sofre de estranhos e frequentes pesadelos e parece obcecado com uma torre e um tal “homem de preto”. Ao decidir enviar o menino para uma clínica onde pode receber tratamento, uma série de acontecimentos acaba por fazê-la perceber que tudo o que Jake mencionava era muito mais real do que ela poderia imaginar.

Este então vai parar no “mundo médio” quando atravessa um portal e conhece Roland (Elba), um pistoleiro que tem por missão defender a Torre Negra das garras do vilão Walter (McConaughey), o tal “Homem de Preto”: se a torre, que é o centro de todos os universos, for destruída, uma sorte de demônios pode invadí-los – e isto é tudo que o longa oferece sobre a questão, já que nunca somos apresentados a qualquer tipo de explicação acerca de quais seriam as motivações de Walter para desejar que tudo o que existe seja tomado por tais criaturas ou mesmo qual viria ser a natureza destas.




Além disso, a narrativa simplesmente atira uma boa quantidade de elementos sem nunca sequer se preocupar em desenvolvê-los: em um determinado momento, por exemplo, Roland e Jake se deparam com o que parecem ser ruínas de um parque temático abandonado; Roland não faz ideia do que aquilo seja, pois nunca viu nada do tipo por ali, ao passo que Jake explica do que se trata – mas nunca há um mínimo desenvolvimento ou esclarecimento para sua existência ou motivos que levaram a sua destruição. E os tais “peles falsas”, o que seriam? Quantos e quais são os tais “mundos”? Não, ao invés de desenvolver sua narrativa, o longa prefere se focar única e exclusivamente no embate de Roland e Jake contra Walter – que acaba por se tornar frágil justamente por não sermos capazes de compreender suas reais motivações. Isso para não mencionar um momento em que Jake afirma ao pistoleiro que precisa “ir até sua casa para fazer uma pesquisa” e, poucas sequências depois, simplesmente saca um celular com internet do bolso onde poderia justamente ter feito isso.

E se Idris Elba se esforça para construir um Roland minimamente tridimensional – na medida do possível, com um roteiro pedestre -, Matthew McConaughey parece estar se divertindo na pele do patético vilão Walter, utilizando quase sempre um tom de sarcasmo ou deboche e frequentemente observando suas vítimas com um olhar de superioridade. Inclusive, neste sentido, o roteiro o leva a praticar uma série de atos de vilania sem a menor lógica ou explicação e que, aparentemente, têm como única função narrativa mostrar como o Homem de Preto é mal e insensível: o momento em que este queima o rosto de uma de suas “funcionárias” com a mãos ou um outro no qual simplesmente ordena que dois subordinados “matem ou ao outro” chegam a ser risíveis.

Ademais, é uma pena que a fotografia de Rasmus Videbaeck perca a oportunidade de estabelecer uma diferença visual entre os vários universos, à medida que o design de produção da dupla Christopher Glass e Oliver Scholi emprega uma quantidade mínima e decente de criatividade na composição do “mundo médio” ou mesmo da Torre.

No fim das contas, chega a ser triste e deprimente que a obra de Stephen King tenha sido reduzida a algo tão tolo e raso.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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