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Crítica: The Post – A Guerra Secreta

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The Post, Reino Unido/EUA, 116min. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer. Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Rob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon.

Há um certo momento em The Post – A Guerra Secreta no qual Tony (Paulson), esposa de Ben Bradley (Hanks), conversa com o marido sobre a protagonista, Katherine Graham (Streep). Suas palavras são as seguintes: “quando dizem para uma mulher por muito tempo que ela não é boa o suficiente, ela passa a acreditar”. Sendo assim, embora o longa de Steven Spielberg trate da publicação, por parte do Washington Post, de uma série de documentos que expunham as mentiras contadas por três administrações da Casa Branca ao longo de mais de três décadas a respeito das verdadeiras razões para a guerra do Vietnã e a batalha travada entre a mídia norte-americana e a Suprema Corte, este se estabelece como algo além disso: um retrato do arco real de transformação vivido por uma mulher que, diante de suas fraquezas, se viu obrigada a se levantar e enfrentar o mundo.

Herdeira do Post, Katherine – ou Kay, como chamada na intimidade –, passa a administrá-lo apenas após a morte de seu marido em decorrência de um suicídio: algo que todos à sua volta parecem sentir a necessidade de constantemente lembrá-la, já que frases como “o pai dela deu o jornal ao marido, ela só está aqui pois ele morreu” são frequentemente proferidas pelos membros da diretoria – seus subalternos, por sinal – sem que se preocupem sequer com sua presença.

E o contraste entre Kay e um mundo majoritariamente masculino é frequentemente destacado pelo roteiro da dupla Hannah-Singer em situações como aquela em que, após um jantar, ocorre uma divisão clara entre homens e mulheres, em dois cômodos diferentes da casa de Graham e, enquanto bebem chá, uma das presentes pergunta para a mulher como consegue “dar conta de tudo trabalhando fora” com uma ênfase de tristeza no “trabalhando fora”; mas este contraste é também estabelecido visualmente, em especial pela magistral decupagem de Spielberg que, aqui, se alia à direção de fotografia composta por Janusz Kaminski que frequentemente brinca com o eixo da câmera, como em uma situação específica em que não apenas Katherine é a única mulher presente no recinto como o movimento de câmera escolhido pelo diretor nos revela primeiro seu ponto de vista da situação para apenas depois incluí-la no contexto.




E, embora tecer elogios sobre a atuação de Meryl Streep seja uma redundância, isto se faz necessário: o arco dramático da personagem vivida por esta cria o ambiente perfeito para que a atriz desenvolva sua Katherine Graham de forma brilhante – é notável como Streep se utiliza de pequenas sutilezas para criar a fragilidade necessária à protagonista; e um ótimo exemplo disto é uma das primeiras cenas do filme, na qual a mulher, ao entrar em um restaurante, derruba a cadeira de uma das mesas vizinhas de forma totalmente desajeitada, o que acaba por fragilizá-la ainda mais diante de seus colegas de trabalho, todos homens. Mas o ápice de sua atuação em The Post é, com certeza, um plano específico no qual, sem cortes, a vemos titubear e finalmente decidir pela publicação dos tais documentos: neste momento, seus olhos se enchem vagarosamente de lágrimas – não de tristeza, mas de nervosismo ­– para, finalmente, sem nenhuma firmeza na voz, proferir as palavras “vamos publicar”. E é justamente ao se ver capaz de tomar uma decisão grande o suficiente para afetar o futuro de seu país, de seu jornal e de sua própria família que Kay finalmente consegue se enxergar como a mulher poderosa que é: a cabeça por trás de um dos maiores jornais norte-americanos. E é exatamente neste momento que ela consegue enfrentar a situação ao olhar diretamente nos olhos de todos os homens à sua volta e informá-los de que “esta não é mais a empresa de seu pai ou de seu marido: é sua”. E que todos que não concordem com isto não deveriam estar em sua diretoria.

Além disso, obviamente, a narrativa ainda trata da óbvia problemática relacionada não apenas à liberdade de imprensa, mas sua responsabilidade com a sociedade – neste sentido, há um momento no qual Ben faz uma revelação a Kay e lhe diz que esteve com Jackie Kennedy, ainda em seu tailleur rosa, momentos após a morte do marido, o ex-presidente americano John Kennedy. Nesta ocasião, a então primeira-dama havia lhe feito confissões e desabafos para, logo em seguida, ordenar que “nada daquilo seria publicado em seu jornal”. É aí que Ben faz uma pequena reflexão sobre a diferença entre sua relação pessoal com a Sra. Kennedy e sua posição como jornalista.

O que nos leva, evidentemente, a um questionamento acerca da responsabilidade da imprensa em geral – embora não haja, obviamente, uma resposta óbvia para a questão “publicar ou não?” ­­– e de qual é, exatamente, seu papel dentro da sociedade. E, neste sentido, Spielberg cria mais alguns planos e diálogos emblemáticos como aquele no qual a edição do The Washington Post que conteria as páginas do documento é distribuída em frente ao Capitólio, na capital norte-americana, ou no qual vemos, em destaque, as palavras “livre para publicar” saindo de uma prensa, após todos os jornais serem inocentados pela Suprema Corte americana.

Mas mais emblemático que isso é o fato de que os jornalistas, todos juntos, comemoram não apenas suas próprias vitórias – justamente por compreenderem que sua liberdade é a liberdade alheia – mas também aquelas dos colegas do veículos concorrentes. E como bem dito em certo ponto da narrativa: “a única forma de garantir o direito de publicar é publicando”.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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