Crítica – Rei Arthur – A Lenda da Espada

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Qualquer cinéfilo que se preze já perdeu as contas de quantos filmes e séries sobre o mítico Rei Arthur foram produzidos; a existência de mais um para contar a mesmíssima história poderia parecer um erro. Afinal, o que mais pode se adicionar? Cavaleiros, távola redonda, Merlim, espada na pedra (embora algumas versões sejam ligeiramente diferentes). Felizmente, Guy Ritchie, que dirigiu o longa e co-escreveu o roteiro com Joby Harold e Lionel Wigram, fez uma aposta bastante acertada ao focar em uma parte da lenda que ainda não havia sido explorada – e tomou a liberdade poética de fazer sua própria releitura desta.

Nesta versão, vemos Arthur (Charlie Hunnam), ainda sem fazer ideia que possui sangue real – já que é filho de Uther Pendragon (Eric Bana) -, crescer nas ruas de Londinium como uma espécie de trombadinha durante o reinado daquele que nem imagina ser seu tio, o Rei Vortigern (Jude Law). Este, após matar o próprio irmão, Uther (Eric Bana) juntamente com boa parte da família (falarei mais sobre esta questão adiante), assume a coroa da Inglaterra e passa seus anos até o crescimento do sobrinho sabendo que ele provavelmente está vivo em algum lugar e, segundo uma profecia, pode, a qualquer momento, conseguir tirar a lendária Excalibur da pedra. Vortigern decide, então, testar todos os homens do reino que possam ter a idade certa, fazendo com que tentem remover a espada dali. O motivo? Exterminar a ameaça cortando-lhe a cabeça, claro.




Sem dúvidas, os maiores méritos do filme são visuais: John Mathieson (diretor de fotografia) mostra um talento grandioso em criar planos belíssimos que fazem uso de elementos como fogo ou poeira especialmente durante as sequências de batalha (até porque Vortigern exerce um certo poder sobre o elemento). Nestas, aliás, vale a pena ressaltar que é com maestria que Mathieson mistura planos extremamente abertos e fechados nas horas certas, a exemplo de que em um momento vemos um plano detalhe da Excalibur e no segundo seguinte outro totalmente aberto de uma multidão de milhares de pessoas – o que é não apenas visualmente agradável mas serve à proposta narrativa.

A montagem de James Herbert é, além de dinâmica, bastante inteligente: há várias sequências que mesclam diálogos entre o grupo de Arthur e suas ações futuras que além de funcionarem muito bem à narrativa, servem, várias vezes, como alívio cômico: em um momento, por exemplo, a montagem alterna entre planos nos quais Bedivere (Djimon Hounsou) afirma que Arthur “não pode, de forma alguma, ir às Terras Sombrias” para outros em que o homem anuncia que chegaram ao local.

O design, mixagem de som e trilha sonora do longa também se mostram excelentes: há uma cena, para exemplificar, em que o som parece abafado enquanto o protagonista se encontra desacordado e vai voltando à normalidade ao passo que este recobra a consciência.

Sobre o roteiro e sua releitura do conto arthuriano, é muito positivo que traga elementos novos e crie arcos diferentes para alguns já existentes: se nesta versão não vemos a bruxa Morgana especificamente (que é a irmã de Arthur em muitos dos contos), temos uma maga sem nome específico que poderia claramente ser esta – e o argumento acerta ao não cair no clichê de demomizá-la (afinal, é uma mulher e bruxa), colocando-a ao lado de Arthur como aliada (e num primeiro momento chega a dominá-lo). É no mínimo curioso também que possua justamente um corvo como animal de estimação, ave normalmente ligada à morte e à maldade. Por outro lado, a narrativa peca em vários pontos: alguns diálogos extremamente expositivos, nos quais as sereias envoltas por tentáculos explicam a Vortigern como funciona o “sacrifício” que o levou ao poder, algo que este já deveria estar careca de saber; é triste também que vários personagens sejam sub-aproveitados, como o Merlim, Mordred, Lancelote (que aqui nem sequer existe) ou a Dama do Lago.

A construção de Arthur é bastante competente, já que num primeiro momento este não tem absolutamente nenhuma ambição pelo trono e deseja simplesmente voltar à sua vida prévia. É aos poucos que o futuro rei começa a se ver desta forma e passa a ser, inclusive, chamado de “chefe” por aqueles que o rodeiam. Charlie Hunnam, porém, parece passar toda a duração do longa interpretando uma versão medieval e com sotaque inglês do motoqueiro Jax Teller, da série Sons of Anarchy, a qual protagonizou até 2014 – algo para o qual o roteiro parece inclusive colaborar, já que vários diálogos que o envolvem poderiam muito bem ter sido escritos por Kurt Sutter, criador do programa.

Vortigern, apesar da atuação competente de Jude Law (que se mantém sempre contido, e é justamente por esta razão que soa extremamente ameaçador), acaba por servir como uma espécie de Lord Voldemort por conta da computação gráfica empregada no rosto do ator em alguns momentos e ao sacrificar membros da própria família para aumentar seu poder, quase como suas próprias Horcruxes humanas.

É impossível não notar que o longa é bastante corajoso em ser protagonizado por um Arthur que foge do estereótipo do herói: praticamente um bad boy, o homem deixa claro que não é nenhum mocinho altruísta ao dizer, por exemplo, que o que lhe motivou a lutar por sua coroa foi o fato de ter passado tantos anos crescendo nas ruas e ter até acreditado por muito tempo ser o filho bastardo de uma prostituta – quase que como uma vingança contra o tio.

Por essa e outras razões, Rei Arthur – A Lenda da Espada, apesar de seus deslizes, se mostra um filme competente ao mostrar uma releitura da versão original e, especialmente, em ser extremamente divertido.

avatardp
Sobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.