Crítica: Real – O Plano Por Trás da História

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O longa de Rodrigo Bittencourt, com roteiro de Mikael de Albuquerque baseado na obra “3000 Dias no Bunker”, de Guilherme Fiuza, é sem dúvidas – e deixo bastante claro já no primeiro parágrafo – pura propaganda partidária tucana: isso a produção nem tenta disfarçar. Mas, infelizmente, é propaganda partidária com qualidade técnica que beira o miserável. Digo “infelizmente” porque, já que seremos expostos a mais de uma hora e meia de panfletagem do PSDB, esta poderia ao menos ser competente do ponto de vista técnico e este não é, definitivamente, o caso.




Tendo como protagonista o economista Gustavo Franco, vivido no longa por Emílio Orciollo Netto, o longa tenta estabelecer, do ponto de vista do partido de FHC, a história da criação do Plano Real. Numa época em que a inflação beirava o absurdo e remarcadores de preço eram algo corriqueiro, uma equipe de economistas liderada por Gustavo e pelo então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, cria a nova moeda para tentar sanar o problema.

Um dos (poucos) méritos do filme é utilizar uma entrevista dada pelo economista para justificar que este explique seus pontos de vista sobre uma série de situações vividas por ele durante o período de criação do plano e os anos subsequentes a seu lançamento. Entrevista esta, inclusive, que ajuda a estabelecer Gustavo como um personagem simplesmente insuportável que tenta, a todo custo, parecer uma espécie de herói – a este respeito, inclusive, vale ressaltar que a única utilidade narrativa da personagem de Paolla Oliveira, Renata, sua esposa, seja justamente esta: mostrar que o homem não se importava com mais nada além de “sua” moeda (que um dos personagens faz questão de lembrá-lo ser “do povo brasileiro” e não dele). Instável, imaturo e birrento, Gustavo passa ao menos um terço da projeção berrando com alguém ou soltando frases de efeito cafonas como “não irei desvalorizar minha moeda!” ou “não irei me rebaixar!” e chega, em um dos vários momentos ridículos do longa, a comparar a si mesmo com Napoleão Bonaparte.

O roteiro tenta tão desesperadamente demonizar a esquerda e até mesmo um partido específico – o PT – que algumas sequências e diálogos chegam a ser patéticos: já no primeiro ato há uma discussão entre o protagonista e um amigo, em que Gustavo o ridiculariza por ser eleitor de Lula; Gonçalves (Juliano Cazarré), que acaba por ser o personagem que representa, na narrativa, o Partido dos Trabalhadores, fala de maneira propositalmente afetada – no último ato este fica sem argumentos durante uma discussão com Gustavo durante a CPI do Banestado e pede para que a fala do economista não seja incluída nos registros da audiência, por exemplo; os militantes de esquerda em uma certa cena são retratados como criaturas burras incapazes de entender a genialidade tucana; mas a cereja do bolo vai para o fato de que, em sua sequência final, o roteiro dá um jeito de incluir Sérgio Moro num diálogo no qual Gustavo diz que o juiz federal “está fazendo um ótimo trabalho em Curitiba” e que não possui absolutamente nenhuma função a não ser criar a deixa perfeita para que o público se levante de suas poltronas e aplauda em êxtase o magistrado. A obsessão em atacar a esquerda é, inclusive, tão grande que a palavra “comunista” é provavelmente a mais utilizada durante o filme e é curioso, também, que este tente destacar todos os erros cometidos pelo PT à época e dar a entender que o partido se opôs ao Plano Real apenas porque alguns de seus criadores deixaram de dar apoio a Lula e decidiram se unir a FHC na corrida eleitoral de 1994.

A tentativa de retratar a equipe de economistas tucana como uma espécie de equipe de super-heróis é tão desesperada, também, que se torna risível: em dado momento frases como “sua tela de trabalho é o Brasil” são proferidas, e é impossível não se perguntar como qualquer ator pode tê-las dito com seriedade. Há, também, um plano em especial no qual a equipe caminha pelas ruas de Brasília em câmera lenta, e que parece ter sido copiado de algum filme da Marvel ou DC.

Ainda sobre o roteiro, é importante pontuar a quantidade de diálogos expositivos em que os economistas explicam uns aos outros conceitos básicos ou soltam frases como “precisamos de um plano!” e “o país está quebrado” (não me diga!).

A direção de arte acerta ao recriar, por exemplo, a sala da presidência dentro do Palácio do Planalto, já que o resultado foi extremamente realista e ao utilizar as belas paisagens da capital em diversos planos (sem, é claro, esquecer de lembrar que a cidade foi criada por “um comunista”, se referindo a Niemeyer, naquela que é provavelmente a trigésima sexta vez em que a palavra “comunista” é dita), mas se mostra covarde ao nem sequer tentar recriar um figurino fidedigno à época já que as roupas utilizadas por boa parte dos personagens poderia ter saído de uma revista atual: aparentemente o medo de não agradar o público, já que a moda na década de 1990 era bastante diferente da atual, foi maior do que qualquer possibilidade de recriar o estilo daquele período e, portanto, a única tentativa nesse sentido foi ao utilizar telefones com fio e monitores CRT. Já a montagem se mostra bastante elegante ao, por exemplo, utilizar um belo raccord entre um plano aéreo da cidade de Brasília e um plongée de uma mesa de reunião.

Outro ponto que merece ser citado são as atuações de Norival Rizzo como FHC, Bemvindo Siqueira como Itamar Franco e Arthur Kohl, como José Serra: de tão caricatas, algumas cenas poderiam passar por esquetes do Casseta & Planeta dos anos 1990, nas quais Hubert fazia imitações de Fernando Henrique, Reinaldo Figueiredo de Itamar Franco e Cláudio Manoel interpretava Serra – o que, no mínimo, provoca uma grande nostalgia em qualquer um que tenha vivido à época.

E, por falar em nostalgia, o longa tenta evocá-la ao utilizar, por exemplo, narrações de Galvão Bueno da época da Copa de 1994 e, após mostrar como a equipe de economistas-heróis tucanos conseguiu conter a crise e a inflação, já em seu ato final possui um diálogo no qual Gustavo diz que “um dia terão que voltar”, se referindo a seu partidofechando, assim, com chave de ouro, sua tentativa de lavagem cerebral peéssedebista.

avatardp
Sobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.


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