Crítica: Polícia Federal: A Lei é Para Todos

cinema

Brasil, 107min. Direção: Marcelo Antunez. Roteiro: Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein. Elenco: Antonio Calloni, Marcelo Serrado, Ary Fontoura, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky, João Baldasserini, Rainer Cadete, Roberto Berindelli, Leonardo Franco, Adélio Lima, Leonardo Medeiros.

O Cinema é e sempre foi – como todas as outras formas de arte – extremamente capaz de propagar ou defender ideais e, portanto, a utilização deste de forma política não é nenhuma novidade; até mesmo Lênin defendia que a sétima arte era a mais importante entre todas, por seu potencial educativo das massas. Do American Way of Life estabelecido pelos filmes da Era de Ouro de Hollywood a Leni Riefenstahl e seu Triunfo da Vontadeobra criada para enaltecer o regime nazista alemão –, o Cinema sempre cumpriu um papel de ferramenta política.

Neste sentido, portanto, Polícia Federal: A Lei É Para Todos, de Marcelo Antunez (embora, neste caso específico, seja praticamente irresponsável atribuir a obra a seu diretor já que seu próprio financiamento é um mistério – algo curioso, para se dizer o mínimo), se encontra totalmente em seu direito de expor sua opinião e seu lado – porque, sim, o longa tem, claramente, um lado. O problema, porém, está no fato de que, constantemente, a obra se veja praticamente na obrigação de interromper sua narrativa na tentativa de convencer o espectador de que ele está assistindo a algo totalmente apartidário e imparcial – o que, por si, causa dois efeitos: o primeiro deles é criar diálogos patéticos de tão expositivos; o segundo é transformar sua própria existência numa piada.

Sobre tais diálogos, em dado momento um dos policiais solta aquele que é provavelmente um dos piores de toda a obra – em ambos os sentidos, ideológico e técnico: “sabe aquele tempo entre o pedido para desligar a escuta e as operadoras efetivamente pararem de gravar?”, o que nos leva ao fato de que o longa utiliza, diegeticamente, o áudio original da escuta que foi vazada ilegalmente por Sérgio Moro para o Jornal Nacional, da conversa entre Lula e Dilma – enquanto esta ainda se encontrava na Presidência da República. Este fato é sintomático, não apenas por sua óbvia tentativa desesperada de incutir imparcialidade à própria produção, mas por sua natureza expositiva (algo que tenta fortemente ser evitado por qualquer roteirista competente).

Esta lógica se segue não apenas nesta situação em específico, mas em diversas outras como aquelas em que Moro (Serrado) solta absurdos como “não queremos constranger o ex-presidente” ou “estamos preocupados com a segurança dele”, em referência à condução coercitiva de Lula e tantos outros diálogos como aqueles em que a própria equipe da Lava Jato gasta uma quantia considerável de tempo tentando convencer uns aos outros de que “agiriam da mesma forma com qualquer partido”. A cereja do bolo, porém, ocorre quando Ivan (Calloni), numa certa sequência, logo após ser questionado por uma repórter sobre a parcialidade da operação, resolve afirmar que, devido ao período eleitoral iminente, “se atrasarem as investigações, serão acusados de criar vantagem para o PT; se adiarem, ao PSDB”, naquela que é provavelmente a vigésima ou trigésima tentativa de criar ares de imparcialidade.




O principal problema com o longa, inclusive, é este: a necessidade do roteiro de cumprir seu papel panfletário é tamanha que chega a ser posta até mesmo na frente da qualidade técnica, já que esta é, em diversos momentos, severamente comprometida em função de diálogos ou arcos que existem pura e simplesmente para induzir o espectador a acreditar em uma série de fatos.

Outro exemplo disto, também, é o esforço feito pelo filme no sentido de tentar estabelecer seus principais personagens como até mais do que humanos, mas heróis – se normalmente elementos narrativos que tenham por função tridimensionalizar e multifacetar personagens são algo positivo, aqui as tentativas soam forçadas e artificiais, além de não adicionarem absolutamente nada à trama. Exemplos não faltam, como o patético diálogo no qual Moro diz ao filho que deve pedir autorização à mãe para sair, afinal ele é “apenas primeira instância, enquanto a mãe é corte superior”. Além disso, o arco envolvendo Julio (Gomlevsky) e seus pais doentes parece tentar torcer o espectador na esperança de arrancar-lhe alguma lágrima – e é óbvio que a direção opta por adicionar uma trilha melancólica em tom menor enquanto o policial descobre que seu pai se encontra no hospital, além da mãe já doente de câncer.

Acerca da direção, as decisões de Antunez neste sentido oscilam apenas entre o minimamente razoável e o totalmente amador; nos raros momentos em que acerta, Antunez apela a todos os clichês possíveis de filmes policiais: câmera trêmula, muitos cortes, trilha ritmada, planos aéreos de perseguição e tantos outros que demonstram pouco espaço para originalidade – o que é totalmente compreensível, já que todas as vezes em que o diretor tenta criar algo que fuja do óbvio, demonstra não ter a menor ideia de onde quer chegar com sua decupagem, especialmente levando em consideração uma grande quantidade de planos ou decisões estéticas completamente sem sentido: em dado momento, por exemplo, Marcelo opta por utilizar um plano detalhe dos pés da equipe de Ivan para, logo após, empregar um tilt que nos leva aos rostos dos policiais – algo que, além de esteticamente feio, não faz sentido; em outro, no meio de um diálogo entre estes, utiliza uma série de zooms que vão de um a outro sem que isso sequer possua alguma lógica; ainda, no meio de outra conversa, decide utilizar um plano-detalhe trêmulo que mostra apenas uma das mãos de Ivan sem a menor razão ou explicação; como se não fosse o bastante, durante o momento em que a PF adentra a residência de Marcelo Odebrecht (Medeiros), há um outro tilt que nos leva do andar superior vazio até o dono da casa – algo que poderia até fazer sentido caso já não tivéssemos visto o homem anteriormente e o movimento de câmera tivesse a intenção de revelá-lo, o que definitivamente não é o caso.

Como se não bastasse, dentro do balaio de problemas ainda se encontram as atuações maniqueístas: o Moro de Marcelo Serrado se mostra sempre centrado e responsável, por exemplo; com sutilezas como a forma que olha para baixo ou encara a esposa, este demonstra seu nervosismo e medo pela segurança de Lula quando está prestes a ser conduzido coercitivamente (algo que nem mesmo os defensores do juíz acreditariam como sendo do feitio do Moro real); ao mesmo tempo, Ary Fontoura se esforça em criar um Lula violento, ignorante e explosivo. O curioso é que, mesmo sob o esforço do ator e da direção neste sentido, Lula acaba por ser o personagem mais interessante de toda a obra – e seu tempo de tela é de menos de vinte minutos.

Misturando péssima qualidade técnica, panfletagem tucana e antipetista disfarçada de imparcial com propósitos políticos escusos, é evidente que Polícia Federal: A Lei É Para todos é, ainda, um caça-níquel que se aproveita do calor do momento – o que, assim como sua intenção ideológica, nem se esforça em disfarçar, já que uma cena extra ao fim da projeção anuncia sua continuação.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

twitter instagram Letterboxd