Crítica: Planeta dos Macacos: A Guerra

cinema

Estados Unidos, 140min. Direção: Matt Reeves. Roteiro: Mark Bomback e Matt Reeves. Elenco: Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Amiah Miller, Terry Notary, Ty Olsson, Michael Adamthwaite, Toby Kebell, Gabriel Chavarria.

O ser humano é desprezível: com nossa mania de superioridade, tratamos como inferiores toda e qualquer outra espécie; como espécie, aliás, falhamos no momento em que passamos a usar nossa suposta “inteligência superior” para matar e aniquilar. Estas são algumas das reflexões trazidas por este novo longa da franquia Planeta dos Macacos.

Após os acontecimentos de Planeta dos Macacos: O Confronto (o segundo filme do reboot que teve início em 2011), César (Serkis) e seu grupo precisam lutar contra um impiedoso Coronel (Harrelson), cujo nome nunca sabemos. O macaco acaba por ter que lidar com uma série de dilemas morais que remetem ao antigo líder, Koba (Kebell), e sua sede de sangue.




O roteiro de Bomback e Reeves consegue, com êxito, construir personagens extremamente tridimensionais: se por um lado César se mostra um líder nato completamente capaz de entender a obrigação que tem perante ao seu bando ao tentar protegê-los a todo custo, por outro o macaco acaba por ser incrivelmente benevolente com a raça humana – mesmo esta praticamente jamais demonstre qualquer sentimento similar em relação aos primatas.

Chega a ser intrigante que a narrativa se esforce em criar pequenas sutilezas que parecem nos apontar neste sentido, já que em diversas situações os humanos fiquem praticamente embasbacados com a capacidade cognitiva dos macacos e que, mesmo percebendo sua inteligência, o Coronel arrogantemente afirme que César provavelmente “não é muito de ler” ou que, num outro momento, diga que este possui olhos “quase humanos”; e se a palavra “humano” for usada como sinônimo de compassivo – aliás, o simples fato de a utilizarmos neste sentido apenas prova nossa presunção, mas divago -, é prudente pontuar que não são exatamente os homo sapiens que devem figurar nesta categoria. Isso para não mencionar um momento em que, ao atirar lama na nuca de um dos soldados, os macacos sejam chamados de “selvagens” – isso vindo daqueles que foram capazes de enjaulá-los e forçá-los à escravidão.

Neste sentido, ainda é inteligentíssimo que o roteiro faça uma pequena mas pungente crítica ao governo norte-americano quando, logo após descobrirmos que o exército de humanos pretende construir um muro, vejamos a bandeira dos Estados Unidos e ouvimos seu hino.




É uma pena, entretanto, que o roteiro desaponte momentaneamente em seu terceiro ato, quando uma série de acontecimentos beiram ao deus ex machina, já que praticamente tudo o que é conveniente ocorre – em partes, justamente para evitar que os macacos precisem tomar atitudes mais drásticas ou violentas -, ou ainda que, durante seu ápice, alguns elementos narrativos sejam simplesmente “atirados” apenas com o propósito de criar ainda mais tensão e que não sejam sequer desenvolvidos, resultando em algumas inconsistências pontuais.

Esteticamente, a fotografia de Michael Seresin cria uma atmosfera por vezes sombria e com uma palheta de cores fria apropriada e orgânica ao tom da narrativa – que, adequadamente, se torna mais quente ao fim do terceiro ato – e, com a direção de Reeves, se mescle a uma mise en scène e decupagem primorosas, especialmente em suas sutilezas, a exemplo de um plano em específico no qual, desacostumado a conviver com humanos realmente humanos, César apareça em segundo plano completamente surpreso ao ver a reação da pequena Nova (Miller) diante da morte de um de seus iguais. E ainda é necessário apontar a perfeição dos efeitos de computação gráfica ao criar criaturas com uma riqueza absurda de detalhes, em especial em relação à cor e à textura de seus pêlos.

Profundo em suas reflexões e sutil ao fazê-las, Planeta dos Macacos: A Origem se mostra uma obra competente e divertida – ao menos muito mais que a espécie humana.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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