Crítica: Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

cinema

The Meyerowitz Stories (New and Selected), EUA, 112 min. Direção: Noah Baumbach. Roteiro: Noah Baumbach. Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Grace Van Patten, Dustin Hoffman, Elizabeth Marvel, Emma Thompson, Danny Flaherty, Adam David Thompson, Ronald Peet, Hannah Mitchell, Judd Hirsch.

Há um determinado momento em Os Meyerowitz no qual Danny, vivido por Adam Sandler, desabafa para o irmão sobre seu complicado relacionamento com o pai, e diz que “teria sido mais fácil se ele tivesse feito alguma coisa muito terrível, mas a verdade é que foram sempre pequenos atos” – e é sobre relações familiares, normalmente nada simples, que trata o sensível longa de Noah Baumbach. Há, sim, uma série de problemas narrativos; ao mesmo tempo, entretanto, chega a ser surpreendente que um de seus pontos altos seja Adam Sandler e uma atuação impecável – e a verdade é que nunca, em toda a minha existência, pensei que usaria as palavras “Adam Sandler”, “atuação” e “impecável” numa mesma frase.

Os Meyerowitz nos apresenta a Danny, um sujeito que provavelmente se encontra no pior momento de sua vida: recém divorciado, prestes a enviar a filha única, Eliza (Van Patten), para a faculdade, desempregado e fragilizado, o homem se vê obrigado a voltar à casa do pai, Harold (Hoffman), um escultor e professor de arte recém aposentado que, sem saber lidar com o fim de sua carreira artística e acadêmica, se torna ranzinza e ranheta. Simultaneamente, Harold e a esposa, Maureen (Thompson) também recebem os outros dois filhos do artista, Jean (Marvel) e Matthew (Stiller).

E não há outra forma de iniciar uma análise da obra que não seja justamente pela relação entre pais e filhos, tão presente no roteiro, especialmente pela forma competente que Baumbach a estabelece, não apenas na narrativa mas através de sua direção – muitas vezes econômica mas que, aqui e ali, cria elementos visuais ricos: o que torna o longa tão multifacetado é justamente o fato de que, assim como na vida real, relações entre membros de uma mesma família podem oscilar facilmente entre o amor e o ódio. Sendo assim, faz todo o sentido que, embora em um momento os filhos busquem o amor e a aprovação de Harold, no outro possam estar vociferando contra o pai ou se lembrando de todas as vezes que este foi omisso ou que simplesmente tomou decisões ou atitudes erradas em relação à forma com que os criou.




Neste sentido, é excepcional a forma com que Baumbach lida com a necessidade quase pueril que os filhos de Harold sentem por sua aprovação, mesmo que sintam rancor de suas atitudes: Danny demonstra verdadeiro desapontamento quando o pai não parece querer levá-lo à vernissage do amigo, por exemplo e, já no evento, acaba ficando para trás quando o escultor encontra L.J. (Hirsh); ao mesmo tempo, o diálogo mantido por pai e filho no qual o este pede para que permaneçam “mais alguns minutos” no local após ter encontrado uma amiga poderia muito bem ter ocorrido entre um pai e seu filho de doze anos – e momentos como este servem muito bem para ilustrar o fato de que os filhos Meyerowitz, assim como quase todos os filhos da vida real, mesmo depois de adultos continuam dependendo do amor paternal. E isto se torna extremamente curioso se pensarmos que talvez os três continuam na busca por tudo aquilo que não tiveram na infância. Esta aprovação, inclusive, acaba se estendendo a outras pessoas em torno da família; chama a atenção como os irmãos Meyerowitz chegam a buscá-la até mesmo da equipe médica que atende seu pai: em certo momento, para exemplificar, quando vemos a médica responsável por Harold explicando seu quadro, o diretor faz uso de uma pan que acaba por nos revelar os três com bloquinhos anotando tudo o que a profissional diz; em outro, Matthew, precisando deixar o hospital por conta de um compromisso, chega a perguntar à enfermeira, quase que retoricamente e esperando um “não” como resposta, se não estaria abandonando o pai.

Sobre Matthew, aliás, ainda há o fato de que a narrativa lida com a predileção de Harold por este: da senha do computador a uma obra de arte que leva seu nome – e uma memória distorcida na qual o artista trocou um filho pelo outro -, isto fica extremamente claro; e se os motivos para tal não são exatamente explícitos, é simplesmente genial a forma que o figurino nos dá uma boa pista de quais seriam, já que as roupas de Danny e Harold têm algo bastante similar: combinações muito peculiares de cores e peças que conflitam entre si, enquanto aquelas vestidas por Matthew se encontram sempre no extremo oposto, sóbrias e alinhadas – em resumo, talvez o que Harold tanto preze neste filho seja justamente o fato de ser tudo o que ele nunca foi, enquanto Danny talvez seja seu próprio reflexo.

E é impossível fazer qualquer análise de Os Meyerowitz sem abordar o ponto que chama mais atenção em toda a produção: Adam Sandler e sua atuação. Saindo totalmente de sua zona de conforto, que normalmente se resume a comédias de péssimo gosto, o ator aqui desafia a si mesmo criando um personagem multifacetado e construindo sua fragilidade através de pequenos elementos que, aqui e ali, tornam Danny um personagem cativante e tridimensional: da forma que manca à gagueira que apresenta ao falar em público sobre o próprio pai, passando pelo olhar carinhoso que direciona à filha enquanto tocam piano, todos estes pontos servem para criar um personagem rico. Ao mesmo tempo, o veterano Dustin Hoffman, não surpreendentemente, estabelece seu Harold Meyerowitz com maestria como um senhor que, rabugento, muitas vezes simplesmente não consegue se controlar, falando tudo o que lhe vem à mente – provavelmente um dos traços que, inclusive, faz com que seus filhos tenham tanta dificuldade de convivência.

É uma pena, porém, que o roteiro peque de forma piramidal ao basicamente desenvolver apenas seus personagens do gênero masculino e relegar suas mulheres ao papel de simples elementos narrativos e nem dar-lhes o direito de um mínimo desenvolvimento: enquanto Harold, Matthew e Danny se mostram suficientemente tridimensionais, chega a ser ridículo que Maureen se resuma à “louca que não percebeu o fim da década de 1960”, Eliza vire um mero estereótipo de estudante de cinema (algo especialmente triste vindo de um cineasta) e o único arco ao qual Jean tenha direito – um relato de uma experiência traumática pela qual passou –, sirva simplesmente de apoio narrativo para os irmãos Danny e Matthew.

Mas, assim como o relacionamento da família Meyerowitz, nem tudo é perfeito.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é uma produção da Netflix e já se encontra disponível na plataforma.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

twitter instagram Letterboxd