Crítica: Os Meninos que Enganavam Nazistas

cinema

Un sac de billes, França/Canadá, 110 min. Direção: Christian Duguay. Roteiro: Jonathan Allouche, Christian Duguay, Alexandra Geismar e Benoît Guichard, baseado na obra de Joseph Joffo. Elenco: Dorien Le Clech, Batyste Fleurial, Patrick Bruel, Elsa Zylberstein, Bernard Campan, Kev Adams, Christian Clavier, César Domboy, Ilian Bergala.

Falar sobre os acontecimentos do regime nazista nunca é fácil; mas, apesar de duro, se faz extremamente necessário – devemos isto às vítimas de uma barbárie que matou milhões (entre judeus, negros, homossexuais e até mesmo pessoas com deficiência). Assim, obras como o livro Os Meninos que Enganavam Nazistas e o longa-metragem sobre o qual escrevo, baseado no primeiro, se estabelecem como as vozes daqueles que por muito permaneceram caladas.

Por estas e outras razões, o filme acabou por me tocar profundamente, a ponto de que saí de sua cabine de imprensa fisicamente mal; ao fim da projeção, fiquei com um nó na garganta praticamente impossível de se desfazer e, talvez justamente por esta razão, protelei para a publicação deste texto já que sabia de antemão que escrevê-lo acabaria por me fazer experimentar novamente tais sensações – a verdade é que o Cinema é, por tantas vezes, um grande exercício de empatia: quando mergulhamos no universo diegético de uma obra, nos entregamos momentaneamente a seu mundo narrativo e vivemos, por alguns momentos, a vida de outro ou outros.

E quando as vidas em questão são de pessoas que realmente existem em outro mundo – o de cá, o real -, tudo se torna ainda mais doloroso, especialmente porque se torna impossível não lembrarmos que os irmãos Joffo, Joseph (Dorien Le Clech) e Maurice (Batyste Fleurial), realmente passaram por tais experiências – e a narrativa segue suas jornadas enquanto os dois, que viviam em Paris à época da invasão nazista que ocorreu até 1944, tentam fugir dos alemães.

Dilacerante em sua essência, a obra constrói o universo de duas crianças que tiveram muito mais do que sua infância ou inocência roubadas, se dando ao direito de, com uma sensibilidade ímpar, recriar pequenos momentos em que os irmãos, mesmo em sua dura luta diária pela sobrevivência, têm tempo para serem crianças e brincarem entre si – o que serve não apenas para dar ao espectador o fôlego necessário para encarar o horror que pode vir a qualquer momento como para estabelecer a profundidade necessária ao protagonista e seu irmão.




E não apenas estes, mas seu roteiro cria com grande tridimensionalidade todos seus personagens, a exemplo dos pais, Roman (Patrick Bruel) e Anna Joffo (Elsa Zylberstein): ambos os conseguem mostrar até mesmo através de seus olhares o medo que sentem e o esforço que fazem dentro de suas (poucas) possibilidades para salvar sua família, mesmo que o custo disso seja separá-la. E não é nem sequer possível mencionar o patriarca sem lembrar de uma cena em especial em que homem esbofeteia um dos filhos simulando uma interrogação nazista, pois garantir que o garoto saberia agir corretamente numa situação de grande pressão psicológica seria basicamente a única forma de garantir suas próprias sobrevivências.

Além disso, a narrativa cria com maestria o arco da invasão nazista do qual faz parte outro arco – o de seus personagens -, fazendo com que sejamos apresentados pouco a pouco ao horror crescente da situação de guerra: se num primeiro momento Roman tem coragem de peitar alguns clientes de sua barbearia que ofendem suas origens (“saiba que todos aqui são judeus”) sem medo e com orgulho, a situação vai progressivamente mudando para pior.

Com uma mise en scène exemplar combinada a uma direção de arte simplesmente fantástica e uma fotografia soberba, somos expostos a momentos em que cada enquadramento é detalhadamente pensado: em diversos destes podemos observar as bandeiras nazistas em segundo ou terceiro plano, que se mostram sempre tão presentes a partir de um determinado ponto do segundo ato, por exemplo; e não apenas isso, mas sua paleta de cores cria uma lógica visual coesa e coerente: perceba ao assistir ao filme, por exemplo, não apenas como a cor azul remete à família e à tranquilidade propiciadas por esta (numa cena em que finalmente se reúnem numa praia, todos os Joffo aparecem trajando a cor; ao descobrir que Paris estava finalmente livre dos nazistas, Joseph não apenas usa roupas azuis como se encontra pintando a fachada da banca de jornais com tinta desta cor), mas como em momentos de tristeza e dor sua paleta se torna tão dessaturada a ponto de que as bandeiras nazistas com seu vermelho intenso se tornem basicamente as únicas referências de cor em quadro. Ainda, é emblemático que as bolinhas de gude sirvam também a este propósito representando o passado seguro da família (o título original do filme, Un sac de billes, significa literalmente “Uma bolsa de bolas de gude”) e sejam justamente azuis.

E é necessário pontuar uma cena que ocorre durante o terceiro ato, na qual o pequeno Joseph se mostra incrivelmente mais benevolente do que alguém que poderia obviamente ter sido seu algoz se fizesse ideia de sua origem judaica; é tocante que a mise en scéne coloque o pequeno garoto, simbólica e emblematicamente, extremamente mais alto que aquele que tinha sido até então seu patrão.

Infelizmente, preciso discordar fortemente da máxima de Roman Joffo, porém: não, não devemos evitar olhar para trás com medo de cair; precisamos fazer o exato oposto e olharmos cuidadosamente para nossa história.

“Lembrar e recordar – jamais esquecer”.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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