Crítica: Okja

cinema

A indústria da carne acabou por se tornar uma grande pedra no sapato da sociedade contemporânea: o fato é que é praticamente impossível encontrar alguém que consuma derivados animais e não tenha conhecimento sobre os problemas causados por isto – seja em relação aos maus-tratos animais ou até mesmo sobre os danos ao meio ambiente (pela emissão de gases ou grandes porções de áreas desmatadas para que possam virar pasto); isto para não mencionar questões políticas. Sim, a indústria da carne é cruel – não apenas para os animais, mas para o ecossistema como um todo. Mesmo assim, fechamos nossos olhos e fingimos não estar vendo aquilo que está claro, óbvio e a um palmo de nossos narizes; continuamos consumindo toda sorte de carne e seus derivados – e aqui, sem hipocrisia, me incluo.

Okja, o lançamento da Netflix (produzido pela própria, dirigido por Joon-Ho Bong e com roteiro do próprio juntamente com Jon Ronson) é um questionamento desconcertante sobre todas estas questões. O longa explora a história da “superporca” que dá título à obra: esta foi criada em laboratório pela companhia multimilionária Mirando junto com uma série de outros animais similares (outros 25, para ser exata) que foram entregues a 26 fazendeiros por todo o globo. Assim, cada um deles deveria criar o animal conforme suas tradições locais e, após uma década, seriam levados pela empresa com o intuito de que que pudessem eleger o melhor deles e iniciar uma produção em escala da carne de tais suínos. Mas o que a Mirando não esperava é que Mikha (Seo-Hyun Ahn), neta do fazendeiro responsável por Okja, teria se apegado ao animal de tal forma a ser capaz de praticamente tudo para salvá-la.

É óbvio que a companhia não seria totalmente honesta sobre a origem dos superporcos já que Lucy Mirando (Tilda Swinton) chega a afirmar claramente que os animais foram reproduzidos de maneira completamente natural – o que a mulher, mais tarde, desmente em ambiente privado dizendo que “teve que contar uma mentirinha, já que os consumidores são paranoicos com transgênicos”.




Neste sentido, Jake Gyllenhaal na pele do excêntrico Johnny (cuja personalidade parece mudar completamente ao, por exemplo, trocar de roupa para exercer seu papel de apresentador) e Tilda Swinton no papel das gêmeas Lucy e Nancy Mirando se mostram alguns dos (vários) pontos altos da produção; a atriz se mostra capaz de construir duas personagens diferentes, mudando, entre uma e outra, seu tom de voz e até trejeitos – algo que se faz extremamente necessário já que o roteiro as estabelece com uma diferença óbvia: enquanto a primeira ao menos faz algum esforço para sequer parecer uma boa pessoa, a segunda realmente não se importa com a imagem que passará, já que Lucy, por exemplo, tenta justificar a produção dos superporcos como uma solução para a fome ou tenta utilizar Mikha como chamariz comercial enquanto Nancy realmente não poderia se importar menos com tais questões – a mulher chega a afirmar, diante dos problemas causados à imagem da Mirando, que “se a carne for barata, todos comprarão”.

O design de produção (assinado por Ha-Jun Lee e Kevin Thompson) é extremamente competente ao criar diferenças entre as irmãs: enquanto Lucy permanece numa paleta de cores pastel, nunca saindo do branco ou do rosa claro, Nancy utiliza cores sóbrias e escuras – é curioso que até o cigarro da primeira seja cor-de-rosa. E não apenas isso, mas é eficaz a diferença estabelecida entre as aparições públicas da Mirando – seja no anúncio dos superporcos ou na aparição de Okja realizada nas ruas de Nova York – e sua sede: enquanto nas primeiras sempre há a presença de cores, suas sedes comerciais são praticamente monocromáticas, o que acaba destoando das roupas coloridas de Mikha e mostrando muito claramente a discrepância entre o que a companhia é e o que tenta parecer.

Também é notável como a narrativa se faz capaz de estabelecer de forma acurada a relação entre Mikha e Okja: já no primeiro ato, por exemplo, a porca se manifesta capaz de salvar a garota de um acidente que poderia a levar à morte, o que serve para nos mostrar não apenas a capacidade de empatia do animal, mas um raciocínio rápido – o que desempenha o papel de arma narrativa contra aqueles que defendem a irracionalidade animal.




E ainda sobre a crueldade de uma indústria que com toda a certeza deveria ser questionada, é impossível não mencionar que, em seu desfecho, Okja termina nos presenteando com mais um soco no estômago ao mostrar que Lucy (que acaba por encarnar uma espécie de representação desta indústria) apenas seja capaz de impedir o abate da porca por dinheiro, já que nada mais parece capaz de pará-la.

A este respeito, é curioso o fato de que em praticamente todas as línguas seja utilizada uma palavra tão específica para “abate”, em vez daquela que seria óbvia: “morte”; aparentemente somos realmente incapazes de enxergar o óbvio: sim, estamos matando. E, se por um lado, tratamos o assunto com uma assustadora frieza (a ponto de que, em certo momento, vemos um dos funcionários da Mirando fazendo selfies com o animal que dias depois seria abatido), acabamos por chegar perto de compreender este fato claro e óbvio quando nos é colocado na frente de nossos olhos (como o momento em que uma fotografia de Mikha e Okja quando ambas ainda se encontravam na infância foi capaz de parar o funcionário responsável pelo abate – mesmo que por alguns poucos segundos). Aliás, sobre a morte, é emblemático que, em um plano que faz uso de câmera subjetiva e nos mostra a visão de Okja dentro de um veículo, a primeira coisa que seja avistada pela porca por entre as grades seja… um cemitério.

Não, Okja não é um filme fácil – é dolorido, como todo bom questionamento deve ser.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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