Crítica: O Estranho Que Nós Amamos

cinema

The Beguiled, Estados Unidos, 93min. Direção: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola (baseado no romance de Thomas Cullinan). Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Oona Laurence, Angourie Rice, Addison Riecke, Emma Howard, Wayne Pére, Matt Story.  

Durante o festival de Cannes, onde o longa estreou, a diretora Sofia Coppola afirmou que “cabe ao público decidir se ele é feminista ou não” – e a verdade é que não consigo pensar em algo mais feminista do que mulheres, de diversas idades, com diferentes papéis, se ajudando mutuamente; O Estranho que Nós Amamos, refilmagem do original de 1971 dirigido por Don Siegel, se trata exatamente disto.

Ao sul dos Estados Unidos, na Virginia dos anos 1860, ao fim da Guerra Civil norte-americana, conhecemos um internato feminino dirigido por Martha Farnsworth (Kidman). Lá, entre alunas e funcionárias, moram sete mulheres que, sem ajuda masculina de nenhum tipo, desempenham todas as funções necessárias à escola e à manutenção da enorme mansão em que esta funciona – ao menos até que o Cabo John McBurney (Farrell) apareça na floresta próxima ao local. O grande problema é que o homem é um soldado ianque, das tropas do norte e, consequentemente, um inimigo.

Sobre McBurney, aliás, a decupagem de Coppola opta por nos apresentar ao homem logo nos primeiros instantes da projeção, posteriormente a uma sequência na qual a pequena Amy (Laurence) passeia pelo bosque em sua atividade habitual de coleta de cogumelos (que, aliás, se torna especialmente importante em determinado ponto da narrativa). Neste ponto, inclusive, é interessante observar que o susto sentido pelo espectador é quase o mesmo que o diegético, já que praticamente experimentamos a sensação vivida pela garotinha ao repentinamente encontrar o homem – e se mostra intrigante a dualidade causada por seu misto de inocência e maturidade já que enquanto ajuda o inimigo – literalmente –, avisa de antemão que “não pode garantir que ele será exatamente bem-vindo, mas que mesmo assim será melhor do que permanecer na floresta”.




Sobre a inocência de Amy, ainda, o roteiro de Sofia Coppola acerta ao estabelecer tipos diferentes de relação entre o Cabo e cada uma das habitantes do local: com a caçula sua conexão é inocente (em um dado momento, por exemplo, o soldado pede para que a menina não conte a nenhuma das outras, mas confidencia que ela é “sua melhor amiga ali”); com Martha, além dos conflitos óbvios, é mais madura; com Edwina (Dunst), beira o romântico e, finalmente, com Alicia (Fanning), é carnal – simplesmente porque, aparentemente, na tentativa de garantir sua própria sobrevivência, McBurney oferecia à cada uma exatamente o tipo de atenção que lhe faltava num ambiente totalmente feminino.

Sofia Coppola acerta em, ao contrário do original de Siegel, deixar aspectos como a sugestão de pedofilia de lado e especialmente ao propositalmente depositar lacunas suficientes para a ambiguidade já que nunca conseguimos entender completamente as motivações de John com suas atitudes: embora fique óbvio que seus sentimentos em relação a pelo menos boa parte das mulheres não fosse exatamente genuíno, nunca entendemos suas intenções iniciais ao tentar convencê-las a deixá-lo permanecer no local – e é justamente por não compreendermos completamente sua mente que passamos a, juntamente com as moças, querer entender mais sobre quem é aquele homem. Assim, quando ao fim do segundo ato o ianque acaba por ter rompantes de raiva devido a uma série de conflitos que acabam por ocorrer, somos apresentados a um lado mais sombrio de sua personalidade que até então não havíamos conhecido – e, considerando que o que de fato sabíamos era muito pouco justamente por sua dissimulação, o arco jamais soa artificial.

Ainda sobre o roteiro, Coppola acerta novamente ao criar uma bela rima narrativa quando, assim como no início do primeiro ato em que todas as mulheres carregam John McBurney juntas, elas o façam novamente em seu desfecho – mesmo que agora em circunstâncias totalmente diferentes. Esta escolha é especialmente simbólica por mostrar sua essência: sororidade, ajuda mútua entre mulheres que precisam umas das outras – justamente um dos pilares do feminismo. Ainda sobre esta questão, é nítido que sua mise en scéne foi cuidadosamente pensada, especialmente ao se notar que uma emblemática tigela seja passada de mão em mão antes de alcançar seu fatídico destino.

Portanto, se cabe ao público decidir, minha resposta para Sofia seria a de que, sim, seu filme é feminista. Extremamente feminista.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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