Crítica: O Círculo

cinema

Longa dirigido por James Ponsoldt (com roteiro co-escrito por este juntamente com Dave Eggers, autor do livro no qual o filme foi baseado), O Círculo tem como principal mérito seu casting de atores extremamente talentosos – sejam os jovens Emma Watson e John Boyega ou um veterano como Tom Hanks. É uma pena que seu roteiro seja tão pedestre que até mesmo a palavra “medíocre” seria um enorme elogio se utilizada para defini-lo.

Sua protagonista, Mae (Watson), consegue uma vaga de emprego numa grande companhia de tecnologia chamada O Círculo, que dá nome ao longa; a partir daí uma série de acontecimentos envolvendo produtos e serviços da empresa, seu crescimento profissional dentro dela e uma discussão sobre privacidade digital tomam conta da narrativa – e o roteiro não parece ter absolutamente ideia nenhuma de onde pretende chegar já que, embora seu argumento seja bastante interessante, a quantidade de problemas narrativos é tão grande que transforma qualquer discussão em algo tão raso que faz com que todo o filme acabe por desmoronar.

Se por um lado o design de produção de Gerard Sullivan se mostra competente ao criar o universo da companhia e diferenciá-lo do mundo de Mae, especialmente antes de sua contratação, e a atuação de Tom Hanks termina por completar a composição (e a inspiração em Steve Jobs e nas famosas keynotes da Apple é bastante óbvia), os poucos méritos de O Círculo terminam por aí – somados com a apenas regular atuação de Emma Watson, o que nem pode ser considerado culpa da jovem, já que o próprio roteiro não permite que faça mais do que isso.




Chega a ser vergonhoso que Ty Lafitte, personagem de John Boyega, tenha sido criado para basicamente ter dois ou três diálogos com a protagonista e que a dupla de roteiristas, portanto, aparentemente tenha achado válido criar uma figura tão bidimensional e rasa quanto uma folha de papel – uma certa conversa na qual o homem revela ser o tão famoso criador de um dos grandes produtos da empresa e afirma que se sentia confortável para contar a Holland uma série de segredos porque “sentiu que podia confiar nela” é ridícula e sem sentido já que os dois haviam conversado anteriormente basicamente sobre uma garrafa de bebida durante uma das festas do Círculo – e é patético que o filme menospreze a inteligência do espectador ao achar que não perceberá a falta de coerência ali presente.

Isso para não mencionar uma série de acontecimentos que não fazem absolutamente o menor sentido, como a repentina rebeldia de Annie (Karen Gillan) contra a companhia já que a garota passa a simplesmente se opor aos projetos apresentados por Mae e pelos outros funcionários ao passo que aparece completamente desarrumada e abatida – algo que o roteiro nunca nem mesmo tenta explicar.

Mas, como se tudo isso já não fosse o suficiente, o pior dos problemas se encontra com a própria Mae: é impossível determinar por que a garota é completamente incapaz de entender o que acontece à sua volta, já que não apenas fica bastante óbvio que toda a tecnologia produzida ali é bastante problemática como todos à sua volta fazem inúmeras tentativas de alertá-la sobre o potencial perigo – até mesmo seu próprio criador -, e que seja necessário um desastre de proporções colossais para que ela finalmente compreenda o cerne do problema – e, não, o roteiro provavelmente não pretendia criar uma protagonista com sérios problemas cognitivos; a questão aqui é pura e simplesmente a conveniência narrativa de sua total falta de senso crítico.




Sim, na contemporaneidade a discussão acerca de questões que envolvem privacidade e exposição online são muito mais que válidas – e não apenas isso, mas o uso de tais tecnologias, já que um último mérito do longa é discutir justamente sobre como são usadas: um certo produto que permitiria encontrar qualquer fugitivo da justiça em menos de 20 minutos pode ser útil por um lado, mas por outro não apenas pode terminar em uma fatalidade como servir como ferramenta para aqueles que apreciam a ideia da “justiça com as próprias mãos”, o que, logicamente, nunca termina bem.

Como se não fosse o suficiente, O Círculo tem um sério problema de andamento já que seu primeiro e boa parte do segundo ato praticamente se arrastam, fazendo com que seu desfecho acabe por soar absurdamente abruto e até preguiçoso – a exemplo da afirmação de Lafitte sobre “haver muitas coisas erradas” nos e-mails particulares dos chefes da empresa o que, mais uma vez, o roteiro nem sequer tenta explicar: que coisas seriam essas? Para completar, sua conclusão não faz absolutamente o menor sentido, de forma que chega até ser impossível determinar se este é mais um dos inúmeros problemas narrativos ou uma tentativa desesperada de criar um gancho para uma possível continuação.

O que espero, de verdade, que não ocorra.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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