Crítica: O Castelo de Vidro – Debate Progressista

Crítica: O Castelo de Vidro

cinema

The Glass Castle, 127min, EUA. Direção: Destin Daniel Cretton. Roteiro: Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham (baseado na obra de Jeannette Walls). Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Ella Anderson, Chandler Head, Max Greenfield, Josh Caras, Charlie Shotwell, Iain Armitage, Sarah Snook.

Relações entre pais e filhos já são normalmente tumultuadas, mas podem se tornar ainda mais complexas em situações extremas. O Castelo de Vidro, longa baseado na história real de Jeannette Walls (aqui vivida por Brie Larson, Ella Anderson e Chandler Head, em diferentes fases de sua vida), nos guia através da história desta, que teve uma infância e adolescência curiosas, para dizer o mínimo; juntamente com seus outros três irmãos, filhos de um casal sem-teto – Rex (Harrelson) e Rose Mary (Watts) -, a família dependia de invadir imóveis abandonados para sobreviver.

O filme se utiliza de um formato episódico e faz uso de flashbacks entre o presente – onde Jeannette está prestes a se casar com seu namorado, David (Greenfield) – e várias fases de sua infância e adolescência, o que, apesar de acabar se tornando um pouco cansativo, funciona principalmente para estabelecer o contraste, narrativa e esteticamente, entre sua vida atual e seu passado.

Visualmente, a mise en scéne criada por Cretton trabalha juntamente com o design de produção assinado por Sharon Seymour: é impossível não notar, por exemplo, como a estética da casa atual de Jeannette chega a ser diametralmente oposta àquela dos lares onde passou sua infância, com uma paleta de cores que beira o monocromático; e até mesmo os enquadramentos buscam uma simetria sisuda com quadros fixos a fim de retratar o mundo atualmente habitado por ela, destoando da bagunça visual e por muitas vezes a câmera na mão utilizadas nas sequências que mostram seu passado. Assim, em um determinado momento, salta aos olhos a figura de seu pai, Rex, tão rústico, sentado sobre uma poltrona em especial de sua sala que acaba por representar o extremo oposto de tudo aquilo que o homem é e acredita.




Mas mesmo havendo um grande contraste, a obra faz questão de nos lembrar por diversas vezes que apesar de ter, sim, se transformado, a Jeannette adulta ainda preserva sua essência: em vários momentos a montagem e a direção optam pelo uso de pequenos raccords, a exemplo daquele que liga uma cena de seu passado com uma no presente em que a jornalista se encontra exatamente na mesma posição dentro de um carro.

O roteiro se mostra eficaz em estabelecer personagens tridimensionais e multifacetados já que Rex, por exemplo, apesar de por muitas vezes um pai relapso e inconsequente – para não entrar no óbvio mérito do alcoolismo -, inegavelmente nutria afeto e amor por sua família, a ponto de usar muito mais do que sua criatividade na tentativa de contornar a falta de condições financeiras, a exemplo do próprio castelo de vidro que dá nome ao filme: algo que sabia muito bem que jamais poderia realizar, mas cujos planos de construção faziam com que tivesse momentos memoráveis ao lado da filha.

Neste sentido, a narrativa jamais se preocupa em assumir uma postura de julgamento: se por um lado em muitas situações os irmãos Walls chegaram a passar fome – e a perceber que jamais sairiam dali se não por conta própria -, é fato que o patriarca também, ao menos pontualmente, se importava com o futuro de Jeannette e seus irmãos, mesmo que de sua forma imperfeita e errática. Assim como normalmente são os seres humanos, Rex e Rose Mary tinham seus altos e baixos em relação às suas atitudes.

Atitudes estas que foram perdoadas por Jeannette, especialmente diante da dor causada pela iminência da perda: esta costuma justamente fazer com que deixemos de lado as feridas do passado.

(Há uma série de pequenos vídeos do acervo da família Walls real ao fim dos créditos.)

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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