Crítica: O Assassino: O Primeiro Alvo – Debate Progressista

Crítica: O Assassino: O Primeiro Alvo

cinema

American Assassin, EUA, 111 min. Direção: Michael Cuesta. Roteiro: Sthephen Schiff, Michael Finch, Edward Zwick, Marshall Herskovitz (baseado no romance de Vince Flynn). Elenco: Dylan O’Brien, Michael Keaton, Taylor Kitsch, Scott Adkins, Sanaa Lathan, Shiva Negar, David Suchet, Mohammad Bakri, Trevor White, Vladimir Friedman.

Num primeiro momento, acreditei que a analogia perfeita para descrever este O Assassino: O Primeiro Alvo seria a de uma montanha russa que sobe, sobe e, finalmente, acaba por vertiginosamente levar seus passageiros de volta ao chão; me dei conta, porém, que para tanto seria necessária a subida – o que definitivamente não ocorre neste caso. Sendo assim, prefiro uma outra analogia: um penhasco, quase como aqueles que vemos em desenhos animados clássicos, em que algum personagem percebe que não há mais chão sob seus pés e acaba por despencar; esta, portanto, é a melhor forma de descrever o desastre realizado por Michael Cuesta.

Seu protagonista, Mitch Rapp (O’Brien), decide se infiltrar numa organização islâmica radical na tentativa de fazer justiça com as próprias mãos contra o terrorista responsável pelo assassinato de sua noiva; Rapp, então, decide se tornar uma espécie de autodidata das artes marciais e aprender árabe, tudo isso em apenas um ano e meio e, pouco a pouco, vai se aproximando das células mais importantes do tal grupo. Por fim, o homem acaba sendo abordado pela CIA, na figura da agente Irene Kennedy (Lathan), já que a agência, diferentemente dele, ainda não havia conseguido se aproximar dos líderes.

O que acaba por configurar o primeiro problema absurdo de roteiro da obra já que chega a soar ridículo que um homem sem nenhum tipo de treinamento prévio (a vida pregressa de Mitch nunca nos é apresentada, ao menos) possa ter conseguido mais progresso que a Agência de Inteligência norte-americana em apenas dezoito meses, mas divago.




Sendo assim, Rapp acaba sendo levado por Kennedy para que seja treinado por Stan Hurley (Keaton), também da CIA, e mais tarde para uma missão envolvendo a agente Annika (Negar), líderes diplomáticos de vários países e uma bomba atômica.

A partir daí, o que já não passava muito além do medíocre acaba por descambar à uma coleção de disparates sucessivos, que vão do fato de Mitch desconfiar que Annika é na verdade uma agente dupla e tentar afogá-la numa banheira para, horas depois, sem a menor explicação, se juntar novamente a ela, passando pelo momento em que os agentes decidem prender o físico responsável pelo artefato seminu num porta-malas (e o roteiro nunca mais volta à esta questão, o que me leva a concluir que, dentro do universo diegético do longa, este ainda se encontra lá) e terminando em uma bomba atômica pequena o suficiente a ponto do protagonista correr com ela dentro de uma mochila. E estou só citando alguns exemplos, pois a lista iria muito além.

Isso para não mencionar o arco ridículo vivido por Stan, no qual este é estabelecido como um sujeito desprezível que chega a insinuar que não voltaria para resgatar qualquer membro de sua equipe que tenha sido capturado e que, portanto, caso qualquer deles passe por esta situação, deva se matar para, ao fim, acabar agindo de forma quase paternal em relação a Mitch – o que resulta numa transformação clichê e caricata.

Caricata inclusive, como a totalidade da obra, cujo roteiro não se debruça minimamente em desenvolver seus personagens que soam bidimensionais, monocromáticos e risíveis como a narrativa em si.

E como se isso já não fosse o suficiente, o filme termina com um gancho pronto para uma continuação que eu espero do fundo do meu coração que nunca, absolutamente nunca saia da gaveta – lugar onde o roteiro que deu origem a este longa, inclusive, deveria ter permanecido.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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