Crítica – Norman – Confie em Mim

cinema

patyPatrícia Miguez

Norman é um filme com uma grande quantidade de pontos positivos; mas no topo desta lista figura, absolutamente, seu protagonista: mesmo permanecendo misterioso em muitos aspectos, é construído por Richard Gere de forma extremamente carismática – chega a ser impossível que não nos vejamos ativamente torcendo pelo personagem título mesmo sabendo que algumas de suas táticas não são exatamente ortodoxas. Gere, aliás, acerta em entregar uma performance bastante contida, o que nos deixa ainda mais curiosos acerca de Norman Oppenheimer: além de não termos muitas informações sobre o homem, em poucos momentos podemos realmente entender o que pensa ou sente.




O “empresário”, cuja natureza do negócio é criar uma intrínseca e enorme rede de “troca de favores” incluindo personalidades políticas, magnatas e outros poderosos, usa praticamente sempre as mesmas táticas, a exemplo de apresentar duas pessoas que possam tirar vantagem de tal conexão (sem que necessariamente conheça alguma delas, inclusive – o roteiro deixa isso explícito quando, ao tentar levar Micha Eshel (Lior Ashkenazi) para um jantar na casa de Arthur Taub (Josh Charles) este o manda esperar do lado de fora). Até o fim da projeção, já conhecemos tão bem seus métodos que frases como “minha esposa era babá dele(a)” ou “eu adoraria lhe apresentar para fulano(a)” chegam a se tornar jargões: e não é para menos, já que sempre funcionam.

Mas se é seu modus operandi que o leva ao topo, é também o que o leva à ruína: se o relacionamento com o agora Primeiro Ministro Israelense Eshel é a sua glória, uma outra de suas “vítimas”, Alex (Charlotte Gainsbourg), é quem o leva a seu fim. A mulher, que trabalha no Departamento de Justiça de Israel, parece ser a primeira pessoa a desconfiar daquele aparentemente inofensivo senhor: “em menos de cinco minutos você já quis me apresentar a três pessoas”. Mas se houve desconfiança por parte dela, o mesmo não ocorreu com Micha: o israelense chega a tratar Norman com um certo respeito e até mesmo devoção – e fica bastante claro que o enxerga como um verdadeiro amigo.

É bastante elegante como o roteiro utiliza certos elementos dentro da narrativa de forma orgânica: os sapatos, comprados por Oppenheimer como presente a Eshel, se tornam um símbolo de seu relacionamento; sua alergia a castanhas, que se torna importante no ato final, nos é apresentada já no início da produção e até mesmo a rima narrativa com as placas de agradecimento pelos doadores (já que o filme as utiliza ainda nos créditos iniciais e termina com uma delas em seu plano final) se mostram recursos muito bem empregados. Outra rima temática é, aliás, o fato de que Norman se encontra num beco da primeira vez que Micha o telefona e retorna ao mesmíssimo local quando fala com o Primeiro Ministro pela última vez, sendo avisado sobre o que ocorrerá nos tribunais.

Em contrapartida, é uma pena que hajam certos diálogos exageradamente expositivos como um específico em que Philip (Michael Sheen) explica para Oppenheimer sobre como a justiça israelense trataria um possível crime de suborno. Oras, estando quase sempre presente entre os assuntos políticos do país, a informação não seria óbvia?

A direção de arte estabelece competentemente, por exemplo, uma diferença clara entre o figurino de Norman e daqueles à sua volta – sempre com sua boina e seus fones de ouvido, enxergamos claramente que, apesar de se encontrar ali, Oppenheimer não pertence verdadeiramente àquele mundo. E é fascinante também que Katz (Hanz Azaria), o “aprendiz de Norman” carregue uma bolsa curiosamente similar à sua.

A montagem, embora traga recursos bastante inventivos, acaba por pecar aqui e ali pelo exagero: a elipse que mostra o crescimento da influência de Norman logo após a nomeação de Eshel como Primeiro Ministro funciona para que o espectador entenda a passagem de tempo e os fatos ocorridos; por outro lado, há um recurso de unir os planos entre Norman e seus interlocutores telefônicos que, embora funcione muito bem quando este conversa com Eshel (e podemos ver uma ligação entre a sala do Primeiro Ministro e o famigerado beco – o que faz todo o sentido considerando a conversa calorosa entre dois amigos, mesmo que apenas por telefone), acaba por ser utilizado à exaustão em vários dos momentos em que Oppenheimer fala com outras pessoas a fim de conseguir favores.

E sobre seus “favores”, são os próprios que acabam a levar Norman a seu trágico fim, já que, legalmente falando, seus métodos não eram os mais corretos. E é extremamente competente que o roteiro estabeleça, durante o questionamento feito por Alex, apenas o suficiente para que possamos entender de onde vieram os recursos financeiros de Oppenheimer afinal, como dito pela própria Alex, “todos sabem quem você é, mas ninguém sabe nada sobre você” – no fim das contas, nem mesmo se a tal esposa que havia sido babá de tantas pessoas influentes de fato algum dia existiu.

Mas é inegável que, junto com ele, muitos subiram vários degraus e que possivelmente sintam uma enorme gratidão – o que só nos faz lamentar ainda mais seu trágico fim.