Crítica: Neve Negra

cinema

Criar reviravoltas num roteiro costuma ser algo desafiador porque os resultados normalmente se encontram nos extremos: pode funcionar muito bem ou muito mal. Felizmente, Neve Negra, longa de Martin Hodara (co-escrito pelo próprio juntamente com Leonel D’Agostino), se encontra no primeiro caso.




A obra foca-se em Marcos (Leonardo Sbaraglia), casado com Laura (Laia Costa), que recebe a notícia da morte de seu pai e regressa à Argentina para lidar com as cinzas que precisam ser depositadas numa propriedade da família e também com a própria propriedade que, sendo agora herança dos irmãos, pode ser vendida, já que receberam uma proposta milionária – dinheiro que viria em boa hora, já que Sabrina (Dolores Fonzi), a terceira irmã, se encontra em tratamento numa instituição psiquiátrica. Enquanto Marcos demonstra interesse no dinheiro, Salvador (Ricardo Darín), que vive no local, deixa claro em diversos momentos que não pretende se mudar dali, chegando a questionar “o que farão com Juan”, se referindo ao quarto irmão que havia falecido décadas atrás e cujas cinzas tinham sido depositadas no lugar.

Fazendo uso de flashbacks, o filme nos revela, aos poucos, uma série de fatos pregressos que se tornam importantes não apenas para a construção dos personagens mas também para o seu desfecho: durante todos os anos até ali, sempre acreditou-se que Salvador havia sido responsável pela morte de Juan quando a verdade era outra.

Neste ponto, o roteiro, com auxílio da direção de arte, consegue de forma consistente mostrar as diferenças entre Marcos e Salvador, sejam psicológicas ou até mesmo físicas já que o primeiro vive uma vida moderna (no primeiro ato, por exemplo, este chega, juntamente com Laura, de uma viagem internacional) enquanto o segundo vive como uma espécie de ermitão, com aparência descuidada e dependendo única e exclusivamente da caça para subsistência (em determinado momento, quando Marcos não parece exatamente satisfeito em ter que caçar, o irmão o questiona perguntando “o que vamos comer hoje, então?) – o que serve muito bem para estabelecer Salvador como um homem que, por ter sido sempre deixado de lado e até maltratado pelo pai (e não é por menos, já que este acreditava que ele tinha, de fato, responsabilidade pela morte de Juan), acabou se tornando solitário e até mesmo bruto e violento: não é a toa que no instante que somos apresentados ao personagem, o homem já apareça de forma ameaçadora, com uma espingarda no meio da noite e que em diversos outros momentos esteja sempre armado ou ao lado de algum animal que havia matado.

Sobre o roteiro, um de seus principais méritos é conseguir usar de forma sempre orgânica o recurso de pista e recompensa: todos os elementos que se tornarão importantes narrativamente nos são apresentados anteriormente, sem que nenhum deles seja simplesmente “atirado” minutos antes de quando serão necessários – os desenhos feitos por Sabrina, por exemplo, já haviam sido vistos por Laura muito antes de terem tamanha importância no ato final, assim como a foto de família tirada em frente do chalé que acaba fazendo parte da revelação do principal segredo do filme, escondido durante anos por Marcos.

O diretor se utiliza também de longos planos que mostram o casal indo em direção ao chalé e que servem não só para criar tensão mas também mostrar que o local é, de fato, isolado. E é também prudente destacar que o design de som se mostra sempre inteligente ao utilizar, para exemplificar, sons de um vento uivante com este mesmo propósito ou barulho de moscas quando vemos Salvador perto de uma de suas caças.

Laura acaba por se revelar uma personagem extremamente bem desenvolvida; é impossível não notar que ela, aos poucos, vai mostrando ter um ímpeto violento: em uma sequencia, a própria pega a arma para caçar – algo que aparentemente nunca tinha feito – e chega a afirmar que “a comida é mais saborosa quando nós mesmos caçamos”, em mais uma virtude do roteiro que não a transforma, do nada, em uma assassina quando finalmente decide disparar um tiro contra Salvador. E aqui se faz necessário pontuar que a fotografia de Arnal Valls Colomer, de forma genial, faz com que a mulher pareça saída de uma sombra logo após ter cometido um crime (recurso que já foi usado, por exemplo, por Gordon Willis, o “príncipe da escuridão”, em O Poderoso Chefão).

Após a morte trágica e desnecessária de Salvador, o roteiro usa novamente de forma elegante outra pista e recompensa, já que desta vez Sepia (Frederico Luppi), que anteriormente havia dito que sua falta de uma mão seria culpa do homem, esclarece que este, na realidade, só havia arrancado sua prótese – mas que jamais tinha cometido uma brutalidade.

Tudo para que, ao fim do terceiro ato, consigamos enxergar que as aparências nos enganaram – e muito, já que mesmo em seu isolamento e com modos até grosseiros, Salvador não era quem pensávamos ser. E, sim, também fomos enganados por Laura e Marcos que, no final das contas, não eram tão diferentes entre si.

avatardp
Sobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.