Crítica: Mulher Maravilha

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O fenômeno dos memes de internet – imagens ou frases que se multiplicam, passando a serem utilizadas por diversos usuários – é algo cada vez mais comum e até estudado por universidades mundo afora. A verdade é que, ao assistir ao novo Mulher Maravilha de Patty Jenkins com roteiro de Allan Heinberg, foi justamente um deles que passou pela minha cabeça; e aqui peço desculpas antecipadamente pelo meu linguajar, mas irei replicá-lo: que mulherão da porra.





Mulherão da porra, no jargão das redes sociais, é uma mulher forte, decidida, independente e simplesmente… incrível. E é um mulherão da porra que o novo filme da DC tem como protagonista, justamente numa época em que o empoderamento e representatividade femininos são tão discutidos – entrarei mais a fundo nesta questão nos próximos parágrafos.

Mas não é só isso: Mulher Maravilha consegue, ao longo de suas pouco mais de duas horas de duração, discutir de forma humana diversos outros assuntos – e isso sem nunca perder seu tom de aventura ou deixar de ser o que se propõe a ser, primeiramente: um filme extremamente divertido.

Sendo provavelmente uma das personagens mais conhecidas do mundo, o longa se foca nas origens de Diana Prince (Gal Gadot) como a Mulher Maravilha: nascida na ilha grega de Temiscira e vivendo numa comunidade não apenas matriarcal, mas onde só existem mulheres e tendo sido criada somente pela mãe, Hipólita (Connie Nielsen), e pela tia, Antíope (Robin Wright), a então menina acredita ter sido moldada no barro, desconhecendo sua real origem – e o roteiro deixa isso claro já que Hipólita pede especificamente que Antíope não revele o tal segredo à sobrinha de forma alguma no momento em que concorda que esta seja treinada como amazona. O problema começa quando Steven (Chris Pine), um espião americano infiltrado no exército alemão da Primeira Guerra Mundial, acaba indo parar na ilha ao passar por uma espécie de buraco no espaço-tempo. Por acreditar na lenda de que Ares, o deus da guerra, seria responsável pelos conflitos da humanidade, Diana passa a crer que a guerra descrita pelo homem está, de alguma forma, relacionada com a lenda que havia sido contada por sua tia.

O principal alívio cômico da narrativa, aliás, é o fato de que, vinda não apenas de um local mas de uma época completamente diferente, ela fique totalmente confusa na Inglaterra do início do século XX: ao ver a Torre de Londres, por exemplo, ela afirma sem a menor cerimônia achar aquilo “horrível”, para não mencionar uma série de sequências em que a amazona se vê chocada ou desorientada com uma variedade de situações completamente corriqueiras, das roupas da época a um simples relógio. E há um momento especialmente engraçado em que, usando um casaco longo e chapéu típicos da época, ela tenta sem muito sucesso passar por uma porta giratória com seu escudo e espada.




A este respeito, um dos assuntos tratados pela produção é justamente a natureza do ser humano: dizia Jean-Jacques Rousseau que o homem nasce puro e que é a convivência em sociedade que o corrompe. E é justamente o que pode ser observado na moça – sua inocência em relação ao novo mundo que vê à sua volta não é apenas engraçada, mas mostra que uma série de acontecimentos que consideramos “normais” não deveriam jamais ser vistos desta forma e, assim, Diana questiona, por exemplo, o fato de um dos oficiais supostamente possuir um talento nato para atirar de grandes distâncias sem nem sequer se importar com quem pode acabar atingindo no processo ou ainda que animais estejam sendo maltratados e que haja uma mãe com uma criança passando fome no meio das trincheiras.

E é impossível falar de Mulher Maravilha sem entrar em um de seus principais pontos: a representatividade feminina. Segundo uma pesquisa rápida feita na internet, as mulheres respondem por cerca de 30% da “população” de super-heróis, apenas; o último filme do gênero com uma protagonista feminina tem 12 anos: foi Elektra, em 2005. A verdade é que, na maioria das produções não apenas de super-heróis mas também de ação de forma mais ampla, o papel feminino fica sempre em segundo plano ou servindo apenas como objeto decorativo, sempre com uma boa dose de apelo sexual. Crianças do sexo feminino acabam não se sentindo representadas neste universo e, assim, um filme como este acaba desempenhando um papel fortíssimo para elas – fazendo com que entendam que não precisam apenas querer ser a Barbie, mas que também podem e devem ser fortes, corajosas, decididas e valentes.

E o papel é tão forte que, quase com certeza absoluta, fará qualquer machista conservador sair espumando da sala de cinema, o que é sempre algo positivo já que reflexões mais profundas são sempre incômodas. Neste sentido, a obra faz uma série de questionamentos e usa a falta de familiaridade de Diana como mais um mecanismo para tal; é impossível não refletir sobre o papel da mulher na sociedade em certos momentos, como aquele em que a heroína aponta para um espartilho e pergunta se é o tipo de armadura que as mulheres dali usam ou, ao provar um vestido da época, se questiona como faziam para lutar com aquele traje. E, dito isso, há ainda mais, como uma sequência emblemática na qual, após simplesmente desistir do “disfarce” que Steven lhe arranjou, a heroína caminha pelo meio das trincheiras, se defenda sozinha de tiros de metralhadoras disparados por dezenas de soldados e que, levante, sozinha, um tanque de guerra – e chega a ser no mínimo divertido que, segundos depois, sejam necessários três homens para levantar uma placa de ferro infinitamente menor e mais leve.

Mas mesmo sendo uma personagem forte – física e psicologicamente, diga-se de passagem -, Diana se mostra sensível e capaz de amar não apenas de uma, mas das três formas definidas pela filosofia grega: eros, ágape e filo. Ela e Steven se envolvem, sim, de forma amorosa; mas isso não ocorre de maneira alguma com o intuito de simplesmente criar um chamariz romântico já que sua capacidade de conseguir amar um humano acaba servindo ao propósito de fazê-la entender que a natureza destes é justamente a de que temos tanto o bem quanto o mal dentro de nós, cabendo a cada um fazer escolhas: se Steven se mostrou um homem bom, do outro lado temos, por exemplo, a perversa Dra. Maru (Elena Anaya).

Além de discutir uma série de assuntos relevantes, Mulher Maravilha ainda nos faz viajar por uma série de locais e épocas diferentes: num primeiro momento vemos a protagonista dentro do Museu do Louvre (e é no mínimo fascinante que um dos primeiros planos do filme seja um plongée em direção à famosa pirâmide do museu, que foi construída com o intuito de ligar, simbolicamente, o antigo ao novo), e que, vendo uma fotografia que foi resgatada para ela por Bruce Wayne (identidade secreta de Batman), possamos mergulhar em sua história e, assim, vermos a Grécia antiga, a Inglaterra do século XX e sermos, finalmente, trazidos de volta à contemporaneidade.




E, a este respeito, o design de produção de Aline Bonetto cria, de forma imaginativa e competente, todos esses cenários que, fotografados com maestria por Matthew Jensen, estabelecem sempre a paleta de cores perfeita à cada situação: é possível notar que, por exemplo, a feliz e segura Ilha de Temiscira possui sempre cores mais quentes e que a Inglaterra dos anos 1910, em meio a guerra, tenha uma fotografia mais fria e dessaturada.

E até mesmo em suas sutilezas o longa acerta, sendo bons exemplos os fatos de que, ao fim da guerra, a roupa utilizada por Diana tenha, emblematicamente, as mesmas cores de sua armadura ou que Steven utilize um sotaque diferente quando tenta passar desapercebido em meio ao exército alemão.

Para finalizar, é impossível não elogiar a atuação de Gal Gadot, que consegue passar por momentos cômicos, de drama e tantos outros com tamanha naturalidade – o que contribui para a construção de uma personagem tão incrível e, se me permitem o trocadilho, maravilhosa. O que faz com que seja impossível não chamá-la de “mulherão da porra”.

avatardp
Sobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.