Crítica: Meus 15 Anos

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Acredito fortemente na máxima de que filmes devem ser analisados de acordo com aquilo que se propõe: sendo assim, é óbvio que Meus 15 Anos, longa dirigido por Caroline Fioratti (e escrito pela própria juntamente com Mirna Nogueira, Clara Deák, Marcelo Andrade e Bia Crespo – baseado no livro de Luiza Trigo) com Larissa Manoela no papel principal, é dirigido ao público-alvo infanto-juvenil – e, sendo assim, “conversa” com esta faixa etária e portanto não foge da maior parte dos clichês comuns aos filmes voltados a este público.




Com influências óbvias de diversos filmes e séries teen (como O Diário da Princesa, Meninas Malvadas ou a série Gossip Girl), Meus 15 anos conta a história de Beatriz, uma garota aparentemente comum (a própria diz tentar ser “invisível”) que enfrenta problemas na escola por não se enquadrar no padrão esperado pelos colegas. Tendo apenas dois amigos, Jéssica (Clara Caldas), com quem tem uma relação complicada já que esta, apesar de ajudá-la em alguns momentos, parece ser um tanto quanto interesseira, e Bruno, garoto que gosta verdadeiramente dela, Beatriz acaba por se ver vencedora de uma promoção cujo prêmio seria uma festa de quinze anos: algo que ela nunca desejou. Tendo sempre sido uma espécie de pária dentro do ambiente escolar, ela acaba por se tornar uma semi-celebridade ali, já que aparentemente todos os colegas estão dispostos a fazer qualquer coisa – até mesmo fingir gostar dela – em troca de um convite para aquela que tem tudo para ser a festa do ano.

O roteiro funciona maior parte do tempo, apesar dos clichês: acerta ao estabelecer elementos narrativos que terão importância futura já no princípio do longa (a exemplo da frase “dizer que não preciso de algo não significa que não quero”, que acaba se tornando importante em mais de um momento) ou ao utilizar o fato de que Beatriz toca ukelele como âncora narrativa para diversos arcos – por exemplo, é com o cupom fiscal de um afinador para o instrumento que ela acaba ganhando o sorteio; e é também muito interessante que o “ukelele invisível” acabe a representando tão bem, já que aquilo que parecia sem graça acaba por ter luz própria e se mostrar único.

E é também louvável que fuja de um dos grandes clichês de filmes do tipo ao defender fortemente que uma garota pode – e deve – ser independente ao, por exemplo, fazer com que sua protagonista termine sozinha. Há um diálogo, inclusive, no qual, ao ser questionada por Kátia (Polly Marinho) sobre quem seria seu “príncipe”, Beatriz rebata com um enfático é simbólico “precisa de príncipe? Não pode ser só eu?”.

Por outro lado, é uma pena que o roteiro de Meus 15 Anos erre fortemente ao se dobrar à participação de famosos que não adicionam absolutamente nada à história exceto suas presenças e o apelo comercial que possuem: e, sim, estou falando de Anitta e do youtuber Pyong Lee. Sobre a primeira, fica muito claro que sua aparição na festa de debutante já estava programada desde antes do roteiro ser escrito e que este precisou encaixá-la de alguma forma: há, por exemplo, uma cena vergonhosa na qual Beatriz e algumas colegas visitam o camarim da cantora e, sem motivo algum, cantam juntas. Para não mencionar o momento em que a aniversariante decide subir ao palco e tocar ukelele e, ao passar por Anitta, esta diga “quem vai subir no palco agora é você!” sem que a menina tenha, em nenhum momento, dado a entender que pretendia fazer isto.

E, sim, o roteiro é previsível o bastante para que a série de atos que envolve o triângulo Beatriz/Bruno/Thiago (este último vivido por Bruno Peixoto) fique clara desde o começo do segundo ato, não sobrando muito espaço para surpresas já que, no momento em que a garota chama Bruno para ser seu príncipe, só para exemplificar, é impossível não imaginar quando acontecerá um problema que abalará a amizade da dupla.

Mas, falando sobre os méritos do longa, é impossível deixar de citar que este possui uma série de gags que funcionam de forma bastante competente – e considerando que com certeza uma grande quantidade de pais irá acompanhar os filhos pré-adolescentes às salas de cinema, é possível que estes se divertirão com boa parte destes, que em sua maioria fogem bastante do bobo ou pueril, em alguns momentos como aquele em que, ao servir um garoto que pede por álcool e diz querer ficar “bem doido”, o garçom lhe pergunte se por acaso seria “bem doido no estilo Leonardo DiCaprio ganhando o Oscar” ou ainda como quando Kátia afirma que um certo vestido faz com que Beatriz pareça uma “celebridade que saiu da rehab e foi direto para o Grammy”.

Os personagens de Kátia e Joseph, aliás, são responsáveis por boa parte do alívio cômico da obra, funcionando como uma espécie de fadas-madrinhas responsáveis pela transformação de Beatriz e pela criação da festa – mesmo que a primeira, em muitos momentos, não acredite que Beatriz deva ser ela mesma e gaste tempo e energia tentando transformar a garota em algo que não é e com o qual ela claramente não parece confortável.

E é impossível falar de Meus 15 Anos sem mencionar Larissa Manoela: a garota é um fenômeno que atrai multidões de crianças e jovens; e não é por menos, já que ela realmente tem carisma e talento, sendo capaz de passar por cenas dramáticas ou cômicas com bastante competência. Mas seu ápice dramático se encontra com certeza nas cenas que exploram a dinâmica entre Beatriz e seu pai (Rafael Infante), que passam também, muitas vezes, da comédia ao drama.

Meus 15 Anos, no final das contas, é, sim, um filme clichê. Mas isto não o impede de trazer uma mensagem positiva e de ter um roteiro que, apesar disso, funciona razoavelmente bem.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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