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Crítica: Lady Bird: É Hora de Voar

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Lady Bird, EUA, 94min. Direção: Greta Gerwig. Roteiro: Greta Gerwig. Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues. 

Logo no primeiro ato de Lady Bird, há um diálogo entre a personagem vivida por Saoirse Ronan, Christine (que, neste momento, já estaria torcendo o nariz, esperneando e gritando “meu nome é Lady Bird!) e sua mãe, Marion (Metcalf), no qual a garota diz que gostaria de “ter vivido alguma coisa” – algo que resume sua essência: não importa o quanto viva, Christine jamais se dará por satisfeita, culpando tudo e a todos à sua volta por sua miséria emocional. O que se segue são 94 minutos de romantização das divagações e delírios de uma garota norte-americana de classe média que, sem o menor remorso, pisa e humilha a todos à sua volta com o único propósito de “viver alguma coisa“.

A narrativa, ambientada no ano de 2002 na cidade americana de Sacramento (que é, inclusive, a cidade natal da diretora e roteirista Greta Gerwig) segue, de forma simples e despretensiosa, os meses finais de Lady Bird (como a garota, sem explicação nenhuma, gosta de ser chamada e faz birra caso a contrariem) no ensino médio e em direção à faculdade. A contextualização temporal, inclusive, é construída aqui e ali pelo design de produção, que inclui, por exemplo, um cartaz que remete ao 11 de setembro na sala de aula de Christ…, ops, Lady Bird, ou pela escolha da trilha, que inclui canções da época, a exemplo de Hand In My Pocket, da cantora Alanis Morissette, ou Cry Me a River, de Justin Timberlake.

Sobre seu nome, inclusive, acabam por se tornar maçantes e exaustivas as dezenas de vezes em que a protagonista insiste para que os pais, os colegas e até mesmo os funcionários de escola a chamem pela ridícula alcunha ou que a garota chega até mesmo a riscar seu nome de batismo de listas de presença do colégio para substituí-lo pelo apelido. E a verdade é que, depois da quinta ou sexta vez que isto acontece, se torna praticamente impossível controlar a vontade de fantasiar com a possibilidade de quebrar a quarta parede e esmurrar Lady Bird até que aprenda na marra a agir como um ser humano normal.




Mas isto não é o suficiente: Christine Lady Bird parece ser incapaz de absolutamente qualquer tipo de empatia com qualquer outro ser humano que não seja ela mesma ou a imagem que vê no espelho já que, durante toda a duração do longa, chega a roubar – seja um produto de um supermercado pelo simples fato da mãe não ter aceitado comprá-lo ou o registro de notas do professor de matemática, com o único propósito de se beneficiar conseguindo aumentar a própria -, mentir em relação ao lugar onde mora e simplesmente falar tudo aquilo que lhe vem à cabeça sem a menor cerimônia ou sem pensar nem um segundo sobre como pode ferir aqueles à sua volta: ela chega a dizer para uma palestrante da escola que “se sua mãe não tivesse lhe abortado, não teriam que ouvir esta palestra idiota“, para o próprio irmão que “jamais arrumaria emprego com estas coisas na cara“, se referindo a seus piercings, ou que “dará um cheque para a mãe lhe compensando pelos gastos que teve com sua educação” para que “jamais precise falar com ela novamente“.

E, como se não bastasse, Lady Bird, Christine – ou seja lá que nome ela estaria fazendo birra para ser chamada neste momento – ainda parece totalmente incapaz de entender os sentimentos ou necessidades alheios a partir do momento que parece surpresa com o fato de encontrar antidepressivos prescritos a seu pai, quando sua mãe lhe informa que esse já sofre da doença há anos – o mesmo pai para o qual ela, com uma doçura cheia de segundas intenções que obviamente usa apenas quando necessário, fora pedir ajuda com suas aplicações de faculdade – ou no momento que abandona sua amiga Julie (Feldstein) para se aproximar da popular Jenna (Rush) quando isto se torna conveniente na conquista de Kyle (Chalamat).

Neste sentido, aliás, chega a ser deplorável que o roteiro crie um personagem tão ridículo para o jovem e brilhante Timothée Chalamat, que inclusive concorre à categoria de Melhor Ator no Oscar por sua atuação em Me Chame Pelo Seu Nome – o sujeito que vive aqui é um caricato e inexpressivo paranoico que acredita em teorias da conspiração e que pode viver de escambo. E, sobre sua relação com a protagonista, chega a ser patético que esta tenha, mais uma vez, outra crise de imaturidade simplesmente por descobrir que o garoto não era mais virgem.

Ao final dos intermináveis 94 minutos de Lady Bird, Christine consegue seu objetivo maior: o de deixar, de vez, a cidade de Sacramento, da qual sentia tanta vergonha. Após seus pais refinanciarem a casa da família para continuar mimando a insuportável garota e dando-lhe tudo o que quer, a mesma resolve tomar um porre e termina no hospital – e, depois de tudo o que fez, o roteiro termina a “redimindo” e romantizando seu egoísmo, falta de empatia, imaturidade e caráter.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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