Crítica: It – A Coisa

cinema

It, EUA, 137min. Direção: Andy Muschietti. Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman (baseado no romance de Stephen King). Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgard, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Jackson Robert Scott.

Neste remake do telefilme original de 1990, de Tommy Lee Wallace, o palhaço Pennywise deixa de ter sua típica roupa colorida para, ao invés disso, trajar uma outra quase sem cores. Isto é algo bastante simbólico, não apenas pelo fato do diretor Andy Muschietti, juntamente com o designer de produção Claude Paré, destruir uma parte da ambiguidade do vilão – cujo colorido das vestes destoa das atitudes macabras, algo que é uma das próprias causas da coulrofobia, ou medo de palhaços -, mas porque serve perfeitamente como analogia para o que a narrativa opta por fazer com boa parte de sua própria complexidade, tornando-a “monocromática”.

Não é papel da crítica cinematográfica tecer grandes comparações entre uma obra original e sua refilmagem, como se a qualidade desta última dependesse única e exclusivamente de se manter fiel à primeira – muito pelo contrário: não há o menor sentido em criar uma nova versão de um filme para reproduzi-lo literalmente, plano por plano, quase como uma cópia feita em carbono. Sendo assim, a boa notícia é que este It – A Coisa traz uma versão repaginada do longa original – embora chegue a recriar na literalidade momentos clássicos, como a icônica sequência do barquinho; a má, por outro lado, é que metade das mudanças feitas acaba por destruir boa parte da complexidade de seus personagens e até mesmo da narrativa em si, enquanto a outra metade serve apenas para fazer com que uma produção realizada mais de duas décadas e meia depois soe ainda mais moralista e retrógrada que a original

É preciso fazer, antes, um pequeno parênteses: o longa de 2017 opta por utilizar uma estrutura narrativa completamente diferente do original; na produção de 1990 conhecemos Bill e seus amigos já adultos e, aos poucos, somos apresentados aos acontecimentos ocorridos em sua infância, quando enfrentaram Pennywise pela primeira vez. Nesta versão, o roteiro opta por narrar os eventos em ordem cronológica deixando, ao final da projeção, o gancho para a continuação que virá. Embora a decisão de dividir a história em dois filmes seja acertada por um lado (já que um dos problemas do original é exatamente ser longo demais – o mesmo foi criado originalmente para a televisão, em dois episódios e, depois, aglutinado em um longa de mais de três horas), esta acaba sendo a causa de uma fração dos problemas narrativos encontrados na refilmagem. E o motivo para isso reside no fato de que o roteiro concebido originalmente utiliza – e muito bem – os saltos temporais não apenas para criar contexto entre acontecimentos passados e atuais, mas também na construção de seus personagens, o que serve como um interessante recurso para lhes imprimir tridimensionalidade e complexidade.




Sendo assim, apesar de um remake, este It – A Coisa recria apenas parte dos eventos narrados no original; seria injusto, portanto, comparar os dois filmes, lado a lado, sem realizar os devidos recortes e sem considerar que sua possível futura continuação terminará o trabalho. Dito isso, quando tais comparações se fizerem necessárias (e serão), acontecerão considerando apenas os trechos equivalentes da obra original.

Somos, portanto, apresentados a Bill (Lieberher), um garoto que, após perder o irmão, Georgie (Scott) sob circunstâncias misteriosas, acaba por se aproximar de outros cinco garotos e uma garota; unidos por algo em comum – o fato de sofrerem bullying na escola – o grupo de sete amigos, conhecido como “Clube dos Perdedores” enfrenta o desafio de solucionar o mistério que ronda a pequena cidade de Derry: a cada 27 anos, crianças desaparecem misteriosamente. O culpado? Pennywise (Skarsgard), o palhaço dançarino.

Sobre o clube que, além de Bill, conta com Beverly (Lillis), Mike (Jacobs), Ben (Taylor), Richie (Wolfhard), Eddie (Grazer) e Stanley (Oleff), é deplorável que o roteiro acabe por “pasteurizar” até mesmo sua amizade, já que aqui o grupo parece manter um relacionamento apenas pela necessidade de se proteger de Henry (Hamilton) e sua “gangue”, além da ameaça do palhaço: os laços de amizade, embora existentes, deixam de ter a mesma dinâmica de outrora, no original, onde as crianças dividem, por exemplo, seus sonhos e aspirações umas com as outras ou compartilham de momentos de descontração.

E, como se não fosse o suficiente, temos que nos deparar com elementos narrativos novos como a atual Beverly que, concebida 27 anos depois da original, sofre bullying pela fama de supostamente já ter saído com vários garotos (o longa de Wallace flerta, sim, com o início da puberdade e o fato da garota se encontrar o tempo todo no meio de outros seis garotos, além do relacionamento problemático que esta tem com o pai, mas jamais da forma moralista que ocorre aqui). E é impossível não reparar que, para se defender da má fama, Beverly afirme que “só beijou uma vez até hoje”, como se a quantidade de garotos beijados fosse o principal indicador de seu valor ou mesmo caráter.




E o que dizer do personagem de Mike que, como único negro, teve sua importância reduzida? Diferentemente do filme produzido na década de 1990, onde é este que explica aos demais sobre os acontecimentos em Derry, aqui tal papel sobra para Ben, que também termina sendo reduzido ao estereótipo do “gordinho nerd”. Além do personagem original ser muito mais multifacetado já que o roteiro lida, por exemplo, com o fato deste ter perdido o pai e de, juntamente com a mãe, morarem de favor.

E além de seus personagens, a profundidade da própria narrativa é diminuída quando uma série de elementos são reduzidos a nada ou a muito pouco: em determinado momento, por exemplo, quando o Clube dos Perdedores decide adentrar a casa abandonada que serve de lar para o vilão, o roteiro cria uma brincadeira com três portas que exibem as palavras “não é assustador“, “assustador” e “totalmente assustador” para, logo em seguida, nem se dar ao trabalho de desenvolver satisfatoriamente a questão. Outro exemplo, neste sentido, é o bullying vivido pelos heróis em decorrência das atitudes de Henry e seus amigos: chega a ser absurdo que, em pleno ano de 2017, quando tais assuntos são amplamente discutidos, o remake pareça se debruçar muito menos sobre o problema do que fez o original.

Como se tudo isso já não fosse o bastante, é triste que o diretor tome uma série de decisões estéticas que, de tão óbvias, beiram o patético, a exemplo da caracterização de Pennywise já citada anteriormente ou de outros elementos, como a “cripta” onde este vive, para a qual o design de produção e a fotografia optam pelo óbvio ao estabelecê-la como simplesmente escura (o longa original, feito quase há três décadas atrás, cria uma paleta de cores muito mais interessante, brincando com a luz e a sombra). E se faz ainda necessário mencionar o design de som que sempre toma as decisões mais óbvias possíveis ao se utilizar de crescendos, sons graves ou progressões sonoras, antecipando e inutilizando praticamente todos as surpresas visuais que a narrativa poderia vir a causar.

No final das contas é uma pena que, aparentemente, Andy Muschietti e os vários roteiristas responsáveis pela idealização do longa tenham passado longe de sequer compreender a natureza do medo que muitos sentem de palhaços – e falo, aqui, como alguém que sofre dele.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

twitter instagram Letterboxd