Crítica: Homem-Aranha – De Volta Ao Lar

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Em seu segundo reboot, a série Homem-Aranha (agora parte da franquia Vingadores) traz uma ideia arriscada mas certeira com este Homem Aranha – De Volta Ao Lar (título que, por sinal, faz muito mais sentido no original, em inglês, Homecoming, nome dado ao baile típico das escolas norte-americanas que, no longa, serve de pano de fundo para uma série de acontecimentos). O filme foi dirigido por Jon Watts, que também escreveu o roteiro juntamente com Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Christopher Ford, Chris McKenna e Erik Sommers.

O novo Peter Parker (Tom Holland), aos 14 anos de idade ainda se encontra em processo de aprender a lidar não apenas com sua identidade secreta como Homem-Aranha, mas com os problemas que qualquer colegial de sua idade tem: e isso inclui o fato de que boa parte de seus colegas sabe que o garoto realiza um estágio nas Indústrias Stark, embora desconheçam completamente a real natureza deste.

Sobre Holland, inclusive, é preciso pontuar que sua atuação é bastante competente e que o ator se mostra capaz de sustentar o longa todo. Mesmo assim, o jovem de 21 anos definitivamente não convence no papel de um adolescente de apenas 14, especialmente em relação às formas de seu corpo, muito mais adultas do que um garoto no início da puberdade teria – embora seja totalmente compreensível que o estúdio tenha tomado tal decisão baseada no fato óbvio e ululante de que os fãs teriam problemas em aceitar um Homem-Aranha que de fato tivesse o corpo e a aparência física de alguém na idade correta.




Sendo agora parte dos Vingadores (embora ainda não oficialmente, já que Peter obviamente luta para ser completamente aceito dentro da organização), o herói ainda novato passa a responder diretamente a Tony Stark (Robert Downey Jr.), que cumpre um papel de mentor do garoto – e é louvável que o roteiro consiga introduzi-lo de maneira orgânica à narrativa, sem que em qualquer momento sua presença soe artificial ou apenas como um mero caça-níqueis.

Homem Aranha – De Volta Ao Lar consegue estabelecer com enorme competência o arco de transformação do jovem herói: seja enquanto lida com o bullying sofrido no colégio e o fato de que revelar sua identidade o transformaria em uma espécie de ídolo, seja com a garota que gosta e o que pode fazer para conquistá-la ou até mesmo enquanto tenta resolver problemas muito mais sérios como tentar ganhar o respeito do Homem de Ferro. E isto tudo com uma grande dose de bom humor, especialmente em cenas como aquela em que envia uma série de mensagens para Happy Hogan (Jon Favreau) praticamente implorando por uma nova tarefa para cumprir ou como quando é salvo por Stark – ou melhor, por seu uniforme sendo controlado pelo bilionário a milhares de quilômetros dali num local paradisíaco.

O roteiro, embora competente de forma geral, possui um ou outro furo que não chega a comprometer assustadoramente sua qualidade: ao decidir lutar sozinho contra um oponente (entrarei melhor neste mérito logo adiante), Peter decide desligar o GPS atrelado a seu uniforme com ajuda de Ned (Jacob Batalon), seu melhor amigo; a dupla acaba por descobrir que o traje, criado por Tony Stark, se encontra num tal “protocolo bicicleta com rodinhas” e que boa parte de suas funções  estava ainda travada; e ao destravá-las sem autorização de Stark, o uniforme apresenta uma série de novos recursos, incluindo uma assistente capaz de ensiná-lo a utilizar alguns deles ou até mesmo de dar-lhe informações úteis, como o tipo de material de uma janela e a força necessária para rompê-la ou sobre não ter reativado seu paraquedas. Oras, ajuda não seria extremamente necessária especialmente para um novato?




Sobre o tal vilão, a solução encontrada pelo roteiro para sua identidade (não irei revelá-la por razões óbvias de spoiler) e a relação que Peter já possuía com tal personagem também acaba por soar ligeiramente preguiçosa – o que não é um enorme problema já que, mesmo assim, rende um interessante plot twist.

Ainda sobre o uniforme, é preciso destacar uma pequena ironia claramente proposital: chega a ser cômico que justamente o Homem de Ferro diga ao garoto que “se ele não é nada sem seu uniforme, não deveria possuí-lo” – até super-heróis bilionários podem ser um pouco hipócritas.

Para terminar, a direção de arte e a fotografia nos presenteiam com pequenos detalhes e sutilezas que tornam o filme ainda mais rico em momentos como aquele em que, enquanto um grupo de assaltantes tenta levar todo o dinheiro de um banco usando máscaras dos Vingadores, um cartaz de uma seguradora com a frase “Roubo de identidade? Nós resolvemos” apareça em segundo plano ou ainda um outro em que, ao olhar para uma poça d’água, Peter enxergue metade de seu rosto refletido na água e a máscara do Homem-Aranha na outra metade.

Num momento em que boa parte dos fãs de super-heróis reclamam da mesmice, um filme como Homem Aranha – De Volta ao Lar, traz novidades narrativas com grande qualidade e competência técnicas.

E há duas pequenas cenas após os créditos; não deixe de esperar para assisti-las.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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