Crítica: Feito Na América

cinema

American Made, 115 min, EUA. Direção: Doug Liman. Roteiro: Gary Spinelli. Elenco: Tom Cruise, Domhnall Gleeson, Sarah Wright, Jesse Piemons, Caleb Landry Jones, Lola Kirke, Jayma Mays, Alejandro Edda, Benito Martinez, E. Roger Mitchell, Mauricio Mejía.

Em 2014, o roteiro concebido por Gary Spinelli, baseado em fatos reais ocorridos na década de 1980, foi considerado um dos melhores daquele ano na categoria “não utilizados”; isto não é por menos: Spinelli se mostra capaz de tecer sua narrativa com uma competência ímpar que estabelece este Feito na América como um longa bem amarrado e, acima de tudo, divertido. O resultado final, porém, acaba por ser comprometido por uma série de deslizes de linguagem resultantes de uma decupagem irregular que, apesar de acertar em vários momentos, também tropeça em muitos outros.

A narrativa segue o piloto Barry Seal (Cruise), cujo portfólio de trabalhos realizados incluía uma série curiosa de clientes que ia de Pablo Escobar (Mejía) e o cartel de Medellín à Casa Branca durante o governo de Ronald Reagan, na década de 1980.

Neste sentido, inclusive, a direção de Doug Liman acerta imensamente ao utilizar imagens de arquivo que incluem, por exemplo, o famoso discurso antidrogas feito pelo presidente norte-americano ao lado da então primeira-dama Nancy – recurso este amplamente utilizado por obras baseadas em fatos reais ou com pano de fundo histórico pelo simples motivo de que, em sua simplicidade, funciona.




É uma pena, porém, que Liman perca totalmente o controle de sua direção utilizando-se de uma linguagem que se descarrilha completamente em boa parte da projeção e, muito mais do que isso, demonstra não compreender totalmente nem mesmo onde pretende chegar: o longa adota uma mistura de estilo documental – com zooms, planos trêmulos e instáveis e ângulos não-habituais – com elementos que parecem ter saído de algum episódio da série Narcos – como a narração em off e imagens congeladas –, algo extremamente curioso considerando a temática comum entre as duas produções e uma figura bastante conhecida que ambas compartilham: Pablo Escobar. A verdade é que a decupagem de Liman nem se preocupa em disfarçar as referências tiradas do estilo próprio e peculiar de José Padilha.

As decisões estéticas do diretor também incluem o uso da razão de aspecto de 1.85:1 comum à época em que se passa a trama; uma decisão metalinguística bastante interessante ao recriar, juntamente com o design de produção, a estética da época (curiosamente, a utilização de uma razão de aspecto diferente da 2.35:1 mais comum aos dias atuais chegou a confundir o projetista responsável pela sessão na qual assisti o filme). Em diversos outros momentos, entretanto, quando o protagonista registra em gravações amadoras o seu dia-a-dia conversando diretamente com a câmera, a proporção passa ao 4:3 comum às câmeras VHS da década de 1980.

Os problemas se encontram justamente no que tange as tais gravações e o estilo documental adotado por Doug Liman juntamente com o diretor de fotografia César Charlone: o uso exagerado de zooms, movimentos bruscos e trêmulos muitas vezes em planos fechados e até mesmo a quebra de eixo da câmera durante diálogos acaba por tornar a experiência do longa até mesmo… vertiginosa – se tais elementos poderiam funcionar muito bem durante, por exemplo, sequências de ação ou tensão, a verdade é que são utilizados literalmente do início ao fim do filme, sem que sequer haja uma justificativa narrativa para isto. Sim, no decorrer da obra vemos uma série de letterings que nos informam a data e o local dos acontecimentos – recurso que, mais tarde, acaba por fazer referência às etiquetas afixadas por Seal nas fitas que gravava, o que faz total sentido se pensarmos nas filmagens feitas pelo próprio: mas é só isto; o estilo documental utilizado no restante do longa continua não fazendo nenhum sentido narrativo e ainda resultando em algo cansativo e irritante.

O principal mérito de Feito Na América, porém, é seu protagonista suficientemente multifacetado e carismático, vivido com maestria pelo experiente Tom Cruise que, se utilizando muitas vezes de simples sutilezas, estabelece um Barry Seal suficientemente interessante para sustentar toda uma narrativa: momentos como aquele no qual, ao ser questionado pela esposa Lucy (Wright) sobre a legalidade do dinheiro levado para casa, este responde que “está trabalhando para a CIA” num tom de cochicho de quem percebe o quão absurdas soam as próprias palavras quando ditas em voz alta servem como peças primordiais na construção não apenas do protagonista, mas da própria narrativa.

Narrativa esta que, apesar de seus tropeços, continua muito mais firme do que foi a carreira de pilotagem de seu protagonista.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

twitter instagram Letterboxd