Início Cinema Crítica: Extraordinário

Crítica: Extraordinário

cinema

Wonder, EUA, Hong Kong, 113min. Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne (baseado no romance de R.J. Palacio). Elenco: Jacob Tremblay, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Julia Roberts, Mark Dozlaw, Rukiya Bernard, Jennifer March, Mandy Patinkin, Noah Jupe, Bryce Gheisarm, Danielle Rose Russell.  

Em 1817, o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge cunhou o termo “suspensão da descrença”: o conceito significa, basicamente, que enquanto consome uma obra de ficção – seja ela literária, teatral ou, neste caso, cinematográfica –, o espectador suspende, voluntária e temporariamente, suas faculdades críticas em torno do que pode ser considerado realidade; assim, durante um período de tempo, aceitamos heróis com superpoderes, artefatos mágicos ou até mesmo que todos os personagens vistos ali, naquela tela, são reais: nos conectamos com seus arcos, rimos e até choramos. É quando sobem os créditos e as luzes da sala aos poucos se acendem que, devagar, vamos voltando às nossas próprias vidas: é assim que se faz a magia do cinema – e, sim, ela pode ser explicada racionalmente, o que não a torna menos mágica ou especial.

Por outro lado, alguns filmes em especial podem fazer aflorar emoções por outras razões: identificação pessoal, cicatrizes, sentimentos esquecidos lá no fundo de nossos íntimos. Este Extraordinário, comandado por Stephen Chbosky e com roteiro co-escrito por este ao lado de Steve Conrad e Jack Thorne – e que foi adaptado do romance best-seller homônimo de R.J. Palacio – acaba por evocar um misto dos dois tipos de sentimentos. O longa, enquanto, infelizmente, apresenta uma sucessão de problemas técnicos pontuais que comprometem sua qualidade de forma geral, traz uma sensibilidade e riqueza de detalhes, especialmente visuais e ligados à performance de seu elenco, que encantam. Sendo assim, chega a ser impossível chegar ao fim de sua projeção sem ficar ao menos com os olhos marejados, por qualquer uma das duas razões.

Somos, aqui, apresentados a Auggie Pullman (Tremblay), um garoto de cerca de dez anos de idade, portador da Síndrome de Treacher Collins (embora o longa não exatamente se preocupe em explicar a patologia – uma decisão acertada considerando que o foco de sua essência não é este) e que, até então, nunca havia pisado em uma escola (o homeschooling, ou prática de ensinar os filhos em casa, é legalmente possível e relativamente comum na América do Norte). Os pais, Nate (Wilson) e Isabel (Roberts), decidem ser a hora de Auggie passar pela experiência. A partir daqui, a narrativa segue os dramas do garoto em relação à aceitação no ambiente social, mas também abre espaço para que possamos conhecer melhor outros personagens, especialmente sua irmã, a jovem Via (Vidovic), já que a estrutura narrativa episódica construída pelo roteiro com contribuição da competente montagem de Mark Livolsi contribuem para que possamos enxergar algumas mesmas situações de uma série de diferentes ângulos.

Sobre Auggie, um dos grandes acertos da obra, inclusive, é justamente focar mais em sua personalidade do que em sua síndrome – algo que funciona extremamente bem considerando-se a própria mensagem defendida pela narrativa. Sendo assim, somos expostos, sim, a breves explicações, como quando tomamos conhecimento das quase trinta cirurgias pelas quais o pequeno teve que se submeter – algumas, sim, estéticas, mas outras simplesmente para que pudesse respirar de forma autônoma – ou compartilhamos de suas pequenas alegrias relacionadas a seu gosto pela ciência, pelo espaço sideral ou até mesmo pela franquia Star Wars. E, se em alguns momentos Auggie exibe uma maturidade quase irreal para uma criança de sua idade, o garoto em tantos outros se dá ao direito de simplesmente chorar ou gritar como faz qualquer garoto de dez anos.




E, aqui, se faz impossível não mencionar o brilhante design de produção de Kalina Ivanov que, com uma tocante doçura constrói o universo lúdico tão encantador de Auggie: a decoração de seu quarto inclui, sim, as pulseiras de hospital de cada uma de suas cirurgias quase que como troféus ou pequenas lembranças de cada uma de suas vitórias, mas também outros tantos elementos, incluindo seu capacete, que nos fazem entender seu fascínio pelo cosmos quase que como uma fuga análoga, simbólica e emblemática do próprio universo e seus problemas. Alguns detalhes, aliás, tornam Extraordinário ainda mais rico visualmente: observe que a pequena rima temática que faz com que vejamos, já em um de seus primeiros planos, o garoto com uma fantasia de astronauta em frente a um desenho que representa uma galáxia é substituído, ao fim da projeção e em outro plano semelhante, por uma imagem bem mais realista, quase que como se nos dissesse que seus sonhos se encontravam agora mais próximos da realidade.

Mas, mais que isso, Extraordinário cria espaço suficiente para que seus outros personagens possam se desenvolver e terem seus próprios arcos, em especial sua irmã Via que, já adolescente, parece não conseguir lidar completamente com a deficiência do irmão e o fato de que sua doença claramente fez com que tivesse muito menos atenção dos pais, mas sem jamais culpá-lo ou deixar de amá-lo por isso – um conflito perfeitamente aceitável e normal. Por outro lado, entendemos o dilema da mãe, Isabel, vivida com uma humanidade e tridimensionalidade absurdas pela veterana Julia Roberts, que protagoniza um pequeno instante de tanta genialidade dramatúrgica que, por si só, poderia valer o filme todo: sua expressão de profunda alegria ao finalmente ver o filho saindo da escola acompanhado de um amigo poderia ser considerado um dos pontos altos do ano em termos de atuação, mesmo durando poucos segundos.

É uma pena que o roteiro de Chbosky falhe grandemente em alguns pontos específicos, como um momento envolvendo a cachorrinha da família, Daisy, que parece ter sido incluído na trama apenas como mais uma tentativa de arrancar lágrimas do público. Ao mesmo tempo, o uso desnecessário de flashbacks em faz com que o realizador pareça duvidar da capacidade do espectador de compreender os fatos por si só.

Entretanto, um dos grandes méritos do diretor parece ser criar obras reflexivas que nos levam à auto-análises e reflexões quase que terapêuticas. Tendo roteirizado e dirigido anteriormente o brilhante As Vantagens de Ser Invisível, o diretor aqui nos leva a, muitas vezes, nos enxergar nas vidas daqueles personagens. Assim, embora o problema de Auggie esteja estampado em seu rosto, a verdade é que nenhum de nós se aceita completamente. E se tem algo que a narrativa consegue fazer com uma doçura e leveza absurdas é defender sua mensagem de que nunca poderemos ser capazes de entender completamente pelo que passam outras pessoas. A nível pessoal, o arco envolvendo Via e Miranda (Russell) me trouxe um sentimento familiar de já ter me distanciado – e brigado muito feio, diga-se de passagem – com uma daquelas amigas que, assim como a dupla do filme, considero uma irmã de alma. E, se no calor do momento normalmente é mais fácil ter sentimentos negativos, a verdade é que nunca conseguimos saber completamente o que acontece do outro lado – e, às vezes, compreender tais acontecimentos ou razões para um distanciamento é um exercício de empatia que deve ser vivido pelos dois lados em dada situação.

Felizmente, assim como Via e Miranda, continuamos sendo irmãs – o que só mostra que a amizade ou o amor verdadeiros podem até se estremecer, mas resistem.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

twitter instagram Letterboxd


Leia também

Crítica: Projeto Flórida

The Florida Project, EUA, 111min. Direção: Sean Baker. Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch…