Crítica: Entre Irmãs

cinema

Brasil, 166 min. Direção: Breno Silveira. Roteiro: Patricia Andrade (baseado no romance de Frances de Pontes Peebles). Elenco: Nanda Costa, Marjorie Estiano, Júlio Machado, Romulo Estrela, Letícia Colin, Cyria Coentro, Claudio Jaborandy, Rita Assemany.

Num primeiro momento, o que mais chama a atenção em Entre Irmãs é, definitivamente, o fato de que, ambientada na década de 1930, a obra é assustadoramente – e sintomaticamente, diga-se de passagem – atual; depois, a sensibilidade com que trata de assuntos que, quase nove décadas depois, infelizmente continuam como grandes tabus: e, em tempos tão sombrios, reacionários e retrógrados, observar tal fato enquanto contemplamos nosso passado é uma atividade dolorosa, porém necessária.

O roteiro de Patricia Andrade é uma adaptação do romance A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles (que não li) e segue as irmãs Emília (Estiano) e Luzia (Costa): a primeira, uma sonhadora, realiza sua fantasia de, através do casamento, se mudar da pequena Taguaritinga do Norte, no interior de Pernambuco, para a capital quando conhece e desposa o jovem Degas (Estrela); enquanto isso, Luzia, impetuosa e com os pés bem mais no chão, acaba se apaixonando pelo cangaceiro Carcará (Machado) e, junto com este, desempenhando papel de liderança em seu bando.

Visualmente rico, o longa conta com uma belíssima fotografia, assinada por Leonardo Ferreira, que com maestria retrata a secura e aridez do sertão do interior pernambucano, tão contrastante com a capital e sua arquitetura cheia de ares europeus – algo que a brilhante direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto é extremamente eficiente em recriar, juntamente com os figurinos da época, que vão desde os elegantes trajes usados pela nata da sociedade recifense às roupas dos cangaceiros.

Mas, muito além da riqueza visual, há a narrativa: um dos pontos mais interessantes desta reside no fato de que apesar de terem se transformado na superfície, as sementes do que cada uma das irmãs se tornou já existia em seus íntimos: mesmo vivendo na caatinga árida em meio à humildade, Emília já possuía um senso de estética completamente diferente daqueles à sua volta; ao mesmo tempo, Luzia, em seu íntimo, já compartilhava de muitos dos ideais defendidos pelos cangaceiros que, longe de serem mocinhos altruístas, também não se encontravam totalmente no extremo oposto da maldade: sua intensidade e defesa da liberdade já se faziam presentes. Desta maneira, embora ambas passem, sim, por arcos de transformação, estes definitivamente se contextualizam com suas próprias essências, fato que torna ambas as personagens humanas e tridimensionais – algo, aliás, para o qual contribuem as brilhantes atuações das jovens atrizes, com destaque para Nanda Costa, naquela que é provavelmente sua melhor performance até hoje.




E se seus universos são tão diferentes, o roteiro, amparado pela direção e pela montagem, nos leva a perceber que, mesmo em seus contrastes, continuam existindo semelhanças entre as irmãs quando, por exemplo, vemos que enquanto a sogra de Emília, Dona Dulce (Assemany), a ensina a ordem certa para os copos e talheres segundo a etiqueta, Luzia aprende com Carcará a forma correta para o manuseio de uma arma; por outro lado, enquanto o casal Emília e Degas faz sexo de forma praticamente sintética dentro da mansão da família deste, vemos Luzia e Carcará fazendo o mesmo em meio às árvores retorcidas do sertão mas, diferentemente do primeiro casal, com verdadeiro desejo e paixão.

O longa, porém, é muito mais que isso: em tempos em que o Congresso discute se homossexuais podem ser tratados como doentes e a desigualdade social – bem como a hipocrisia das mais altas camadas da sociedade em relação a esta – ainda é tão presente, Breno Silveira nos presenteia com uma obra que, ambientada praticamente um século atrás, dialoga de forma assustadoramente real com a contemporaneidade: homossexual, o jovem Degas se vê obrigado a arranjar uma esposa a fim de manter as aparências não só para a retrógrada sociedade recifense da época, mas para os próprios pais; enquanto isso, Emília, ao perceber que seu príncipe não era exatamente encantado, lida com a situação de sua própria maneira – e, a partir daqui, precisarei revelar vários spoilers, portanto recomendo a leitura dos próximos parágrafos apenas por aqueles que tenham tido a oportunidade de conferir o filme.

Sendo assim, é mais um mérito que o roteiro não cometa o erro de cair na obviedade ao fazer com que Emília se envolva com Lindalva (Colin) apenas para que possa entender o que é sentir o amor carnal por outra pessoa e compreender o sentimento que pode nascer entre duas pessoas do mesmo sexo – algo que faz com que se torne capaz de entender o marido Degas, transformando a relação de ambos em algo muito mais próximo do fraternal do que se espera de um casal. Isso porque, embora Emília tenha sido capaz de se envolver momentaneamente com Lindalva, em seu íntimo a moça talvez tenha buscado nesta algo similar ao que sentia pela irmã, que há muito não via.

Simultaneamente, a obra trata, ainda, de outra questão: enquanto os cangaceiros eram considerados por muitos como justiceiros sociais e heróis, eram vistos pela elite recifense, representada aqui pelo Dr. Duarte (Jaborandy), como a origem de todos os males da sociedade – por conta disso, inclusive, Emília vive o dilema de precisar esconder da família do marido o fato de que sua própria irmã não é apenas uma cangaceira, mas a líder do bando. Adepto da frenologia, pseudociência que defendia poder se definir o caráter de alguém e seu grau de propensão à criminalidade através do formato do crânio, o homem é incapaz de entender que conceitos de bem e mal não funcionam de forma tão maniqueísta.

Alguns dos poucos problemas do longa se encontram justamente em relação a estes conceitos e ocorrem no terceiro ato, quase ao fim da projeção: quando observamos o sogro medindo o crânio de Emília e dizendo que suas proporções são completamente perfeitas, se torna impossível não associar isso ao fato de que Luzia, sua irmã, compartilha da mesma genética da moça. É uma pena, portanto, que o roteiro tome a decisão de fazer com que Emília externe, literalmente, este fato; não porque o homem não deveria saber que sua “ciência” estava completamente errada, mas simplesmente porque, dentro da narrativa, soa quase como se os realizadores duvidassem da capacidade do público de, por si só, entender a relação; o mesmo vale, aliás, para o ridículo diálogo tido pelas irmãs durante seu reencontro, no qual Luzia afirma que Emília “virou uma princesa”, ao passo que esta lembra que foi a irmã que “encontrou um príncipe”, como se já não tivéssemos entendido, nesta altura do campeonato, que toda a pompa e riqueza da elite não foi capaz de fazer Emília feliz, enquanto Luzia, mesmo em meio à simplicidade, conheceu o amor verdadeiro.

Felizmente, mesmo em meio a seus pontuais problemas, Entre Irmãs encanta – e não apenas por tratar de temas extremamente necessários, mas por dar voz a duas personagens femininas tão incríveis e por ser uma obra genuinamente brasileira em seus contrastes.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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