Crítica: Dunkirk

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Não considero fácil a tarefa de assistir e escrever sobre o novo trabalho do meu diretor favorito, que ainda por cima conta com trilha produzida pelo meu compositor favorito. A razão para tal é muito simples: caso seja ruim, serei obrigada não apenas a admitir isso, mas a escrever uma crítica negativa. Assim, foi com extrema alegria que saí da sala de cinema após os créditos finais deste Dunkirk, novo longa escrito e dirigido por Christopher Nolan e com trilha sonora composta principalmente por Hans Zimmer.

Dunkirk nos apresenta à Operação Dínamo, que ocorreu em maio de 1940 e que tinha por objetivo resgatar mais de trezentos e quarenta mil soldados (entre eles ingleses, franceses e belgas) que se encontravam encurralados graças à invasão alemã comandada pelo regime nazista; presas na cidade francesa que dá nome à obra, o único caminho para que as tropas pudessem retornar à Inglaterra seria o mar e, considerando que as águas eram rasas demais para que navios de guerra pudessem ali trafegar, a única solução encontrada foi que parte da população inglesa atravessasse o Canal da Mancha em pequenos barcos particulares para que assim os homens pudessem retornar à cidade inglesa de Dover.

Com seu roteiro, Christopher Nolan impressiona ao conseguir se reinventar sem perder sua identidade: após os excelentes A Origem (2010) e Interestelar (2014) (além de outros longas, como Amnésia e a série Batman), é inegável que o cineasta ficou conhecido por seus roteiros intricados e complexos, além de seu constante flerte com temas ligados à mente humana e ficção científica. Portanto, se por um lado o inglês surpreende ao lançar uma obra com tema histórico e bastante realista, por outro mantém seu DNA ao utilizar o recurso de calcar seu roteiro em três linhas narrativas que ocorrem simultaneamente e que, em determinado ponto, se encontram – recurso este que não apenas serve para conferir dinâmica e andamento à narrativa, mas para criar a tensão necessária e estabelecer o cenário da Operação em sua totalidade.




A este respeito, é preciso pontuar que um de seus grandes méritos é tratar dos horrores da guerra sempre de forma acertada, já que apesar de contar com uma grande quantidade de explosões, bombardeios e até mesmo ataques aéreos, o longa jamais cai no erro de se utilizar de imagens grotescas ou literais para que entendamos o sofrimento dos que ali estão; não, em vez disso, Nolan acertadamente consegue compreender o conceito de que o que não vemos pode causar ainda mais impacto do que o que efetivamente vemos, a exemplo de um plano em especial em que observamos, ao fundo, um soldado sendo atirado ao ar pela força de uma explosão – e imaginar o estado em que seu corpo se encontraria acaba causando muito mais embrulho no estômago do que qualquer imagem explícita seria capaz de provocar.

E, ainda sobre o roteiro, Dunkirk estabelece, em seus diálogos, a frieza e o pragmatismo excessivo que há de se ter durante uma guerra: se momentos como aquele em que um oficial da marinha inglesa afirma que “onde cabe uma maca caberiam vários homens de pé” ou um outro em que observa o sentido da maré afirmando que “os corpos estão vindo” chocam, a verdade é que tais situações são, no fim das contas, apenas o cotidiano de quem se encontra num combate.

Além de elegante em suas sutilezas dramáticas, o roteiro se mostra organicamente competente em suas soluções, a exemplo de uma determinada sequência em que o fato de haver óleo na água do mar acaba por se tornar extremamente relevante momentos depois, sem que a manobra narrativa se torne artificial.

Visualmente falando, o design de produção de Nathan Crowley traz uma riqueza de detalhes admirável ao recriar dos uniformes da marinha aos caças da Segunda Guerra Mundial e em sutilezas como a cor da blusa vermelho-vivo de um dos poucos civis ali presentes, que contrasta às cores sóbrias dos uniformes dos soldados. Tudo isso fotografado em cores dessaturadas e frias por Hoyte Van Hoytema que acabam por trazer muito mais destaque ao quente do fogo sempre tão presente em um ambiente de guerra. E é impossível falar da direção de fotografia sem mencionar uma variedade de belíssimos grandes planos gerais que seguem os caças de guerra brincando com o eixo da câmera.

E aqui se faz presente, mais uma vez, a parceria Nolan-Zimmer, já que o brilhante compositor alemão nos presenteia com uma trilha que se encaixa adequadamente aos propósitos narrativos ao criar tensão utilizando-se, por exemplo, do andamento de várias das canções, que se torna mais rápido à medida que a inquietude aumenta ou de efeitos sonoros que remetem aos motores dos caças. E, como se não bastasse, a mixagem de som é impecável a ponto de que, em vários momentos, a trilha chega a se entrelaçar sonoramente aos próprios sons diegéticos.

Assim, Dunkirk se estabelece como um filme complexo e ao mesmo tempo simples, fazendo com que Christopher Nolan não perca sua identidade – mesmo sabendo se reinventar.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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