Crítica: Divórcio

cinema

Brasil, 110 min. Direção: Pedro Amorim. Roteiro: Paulo Cursino, Angélica Lopes, L. G. Tubaldini Jr. Elenco: Camila Morgado, Murilo Benício, Luciana Paes, Thelmo Fernandes, André Mattos, Angela Dip, Cynthia Falabella, Bruna Tornarelli, Antônio Petrin, Lu Grimaldi.  

Uma mistura de comédia fraca com uma coleção de clichês, previsibilidade, personagens mal construídos e sem qualquer tipo de desenvolvimento, o longa de Pedro Amorim, Divórcio, simplesmente não convence.

A narrativa segue a história do casal Júlio (Benício) e Noeli (Morgado): ela, vinda de uma família abastada, é “sequestrada” pelo futuro marido de um casamento arranjado pelos pais da moça, que não chega a acontecer. O que se segue é que a família nunca mais a perdoa – a ponto de se negar a conhecer as netas. E o casal outrora apaixonado, após passar por uma crise, acaba por se divorciar.

E, sim, eles terminam juntos. E, não, isto não pode nem sequer ser considerado um spoiler, já que que qualquer pessoa que assista simplesmente ao trailer do longa conseguirá chegar sozinho à esta conclusão. Se a previsibilidade fosse o único dos problemas, entretanto, o filme ainda teria chances de ser razoável – o que não é, definitivamente, o caso, já que os furos não acabam por aí.

Para começar, as tentativas de piadas feitas pelo roteiro são tão pedestres que muito provavelmente um letreiro em neon vermelho com as palavras “ria agora” seria mais eficiente: é indignante que em pleno 2017 ainda hajam roteiristas que acreditem que piadas com fezes arrancarão gargalhadas do público – mais que isso, duvidar da capacidade intelectual do espectador é ofensivo.




E, inclusive, é isto que o filme faz – o tempo inteiro, diga-se de passagem: chega a ser patético que após toda a luta judicial, o casal decida que se ama e que quer continuar junto simplesmente porque reencontraram uma aliança que havia sido perdida anos antes; aparentemente, tal objeto tinha poderes mágicos. Mas, muito mais que isso, as soluções extremamente preguiçosas encontradas pelo trio de roteiristas chegam a impressionar (e, se não estiver claro o suficiente, jamais de forma positiva): em dado momento, por exemplo, Júlio acaba na cadeia por não pagar pensão a Noeli. Ao invés de fazer o que seria mais óbvio (deixar isto claro no momento em que é levado à cadeia, por exemplo), a narrativa opta por mostrar a tela do celular de Noeli, na qual podemos ver, de forma totalmente expositiva, que ela enviou uma mensagem à uma amiga na qual revela o motivo para tal. Chega a parecer que, após rodarem a sequência e perceberem que o motivo não havia ficado claro, os realizadores decidiram incluir aquele pequeno plano ali, já na ilha de montagem.

Como se não fosse o bastante, a própria narrativa não faz o menor sentido: donos de uma famosa marca de molhos de tomate, o casal briga na justiça por esta e pelos bens da família de forma geral. A empresa foi fundada e cresceu graças a ambos, algo que fica bastante óbvio já que a receita do produto é de Noeli e, inclusive, sua foto consta na embalagem. Sendo assim, soa risível que Noeli passe boa parte da trama sem direito a nada. Como qualquer juiz deixaria a empresa totalmente para o marido? Fica evidente, então, que sem a menor preocupação com a lógica de seu roteiro, o longa simplesmente toma suas decisões baseadas no que renderia mais conflitos ou possibilidades de piadas sem graça.

Mas a cereja do bolo acontece quando Noeli decide procurar a família na esperança de que os pais a ajudem na batalha contra Júlio, numa cena patética na qual seu pai limpa uma espingarda à mesa – e me pergunto, honestamente, o que passou pela cabeça do diretor ao tomar tal decisão e em qual filme western este se inspirou.

Aliás, a partir daí, uma série de outros absurdos acontece em sequência: após pedir dinheiro ao pai para pagar a advogada e tentar recuperar sua parte dos bens, Noeli misteriosamente tem fundos suficientes para comprar 51% das ações da marca de molhos de tomate e, pasmem, Júlio é apenas informado disso por telefone – como se o principal dono de uma empresa não tivesse que, talvez, digamos… assinar algo para que isso pudesse acontecer. O mais absurdo, porém, é que Noeli decide revelar o ingrediente secreto do produto e arruinar, portanto, a empresa da qual ela mesma pretendia voltar a ser dona. Como se esta série de cúmulos do absurdo já não fosse o bastante, chega a ser hilariante que Júlio decida instalar câmeras na residência na tentativa de coletar imagens que possam servir como prova contra a ex-esposa, por uma série de motivos que se tornam questões sem resposta: como ele pretendia utilizá-las em corte? Que juiz aceitaria, como prova, imagens obtidas desta forma? E, ainda, por que diabos, ao saber que tais câmeras estavam lá e se esforçar em parecer uma boa mãe, Noeli decide cobrir uma das câmeras e simular que estava fazendo sexo?

São muitas perguntas sem resposta. E o motivo para isso é claro: o roteiro, totalmente preguiçoso, nem sequer se preocupa em respeitar minimamente seu público.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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