Crítica: Como Nossos Pais

cinema

Brasil, 102min. Direção: Laís Bodanzky. Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi. Elenco: Clarice Abujamra, Jorge Mautner, Annalara Prates, Maria Ribeiro, Felipe Rocha, Sophia Valverde, Paulo Vilhena, Herson Capri.

O ponto forte de Como Nossos Pais, novo longa da diretora Laís Bodanzky é, sem dúvidas, sua protagonista: Rosa, vivida por Maria Ribeiroque, por sinal, entrega uma performance impecável –, é construída com maestria pelo roteiro da dupla BodanzkyBolognesi; sim, a narrativa apresenta uma série de tropeços pontuais mas, não, estes não ofuscam o brilho da obra.

Esta retrata um momento especialmente difícil na vida da personagem que, passando por uma óbvia crise em seu casamento e mãe de duas filhas, ainda enfrenta dificuldades num emprego que odeia e, como se não fosse o suficiente, recebe não uma, mas duas revelações bombásticas vindas de sua mãe, Clarice (Abujamra), que, por sinal, decide atirá-las da pior maneira possível.

O roteiro acerta na maior parte do tempo, especialmente ao construir progressivamente a personalidade de Rosa e estabelecê-la em meio às turbulências que vive – as cenas em que dialoga com a mãe, em particular, são extremamente realistas e humanas, o que confere tridimensionalidade às duas personagens e à narrativa em si.

É uma pena, entretanto, que tropece miseravelmente em momentos como aqueles em que cria um envolvimento extremamente artificial de sua protagonista com Pedro (Rocha), já que, embora os motivos pelos quais a mulher se sinta inclinada a ter um caso com este sejam óbvios – sua própria crise conjugal –, o roteiro nunca se preocupa em construir de maneira minimamente coerente uma aproximação entre os dois. E é impossível deixar de mencionar o relacionamento de Rosa com o pai biológico, Roberto Natham (Capri) que, de tão inorgânico, chega a parecer deslocado do restante da narrativa – e o diálogo protagonizado pelos dois soa até mesmo embaraçoso, não por culpa dos atores mas única e exclusivamente pelo próprio roteiro.




Porém, é na direção que Laís mostra seu brilhantismo com decisões que combinam a própria decupagem do longa com sua fotografia e mise en scène, construindo cenas, sequências e elementos visuais que, em sua totalidade, servem por enriquecê-lo: para exemplificar, há uma cena específica na qual a protagonista discute com a filha Nara (Valverde); nessa, há um corte para um plano que mostra uma leiteira transbordando, claramente servindo de analogia para o estado psicológico de Rosa; logo em seguida, Bodanzky utiliza um pequeno movimento de câmera que finalmente nos revela a mulher sentada na mesa da sala, justamente entre duas pilastras – mais uma analogia visual para sua situação psicológica.

O mesmo tipo de dinâmica na mise en scène é utilizada com consistência em uma variedade de outras situações: é notável, por exemplo, como Rosa aparece quase sempre “presa” por elementos como portas e batentes e que, durante uma discussão com o marido, Dado (Vilhena), que ocorre no banheiro, o rosto dessa permanece coberto pelo vidro do box ou como, muito frequentemente, o enquadramento opte por utilizar a parede entre o quarto do casal e o das crianças para dividir o plano ao meio, especialmente ao mostrar a mulher cuidando das filhas enquanto o marido continua a dormir – uma alegoria clara de como este não faz exatamente parte da vida e dos cuidados familiares. Numa outra situação, é extremamente simbólico que, após ouvir Clarice afirmar que “a transgressão te faz uma pessoa melhor”, a cena seguinte nos mostre Rosa, na companhia de Pedro, bebendo vinho dentro de um supermercado, em plena luz do dia e em taças de plástico – o nível máximo de transgressão da qual ela seria capaz naquele momento.

Mas, neste sentido, Como Nossos Pais alcança seu ápice numa sequência belíssima que retrata com uma dose incrível de sensibilidade a morte: vemos Clarice sentada em seu piano tocando a famosa canção de Belchiorque ficou mais conhecida na bela voz de Elis Regina – quando, mais uma vez, a diretora faz uso de uma bela analogia na qual a mulher termina a canção, levantando-se e afastando-se do instrumento como quem deixa, aos poucos, este mundo – isto enquanto a montagem utiliza cortes que intercalam tal momento com seu próprio velório, ritmando-se pela base dos compassos da melodia.

Mas o elemento mais emblemático de todos é metalinguístico: Rosa, em dado momento, afirma que gostaria de ter seu texto dirigido por uma mulher – e, temos aqui, um filme de excelente qualidade realizado por uma.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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