Crítica: Churchill – Debate Progressista

Crítica: Churchill

cinema

Reino Unido, 105 min. Direção: Jonathan Teplitzky. Roteiro: Alex Von Tunzelmann. Elenco: Brian Cox, Miranda Richardson, John Slattery, Julian Wadham, Richard Durden, Ella Purnell, Danny Webb, Jonathan Aris, George Anton, Steven Cree, James Purefoy.

Infelizmente, Churchill é um daqueles filmes que desperdiça vários atores extremamente talentosos – em especial Brian Cox, que interpreta o protagonista – e, neste caso, desperdiça também um interessante personagem histórico com um roteiro pedestre e uma direção que simplesmente não parece saber onde pretende chegar.

A narrativa segue a trajetória do então primeiro ministro britânico durante um pequeno período de dias que vai desde o planejamento da famosa Operação Overlord, que culminou no Dia D e tinha como objetivo a derrota dos nazistas em parte da Europa Ocidental, até sua conclusão; traumatizado com as baixas ocorridas em operações anteriores, Winston Churchill (Cox) tenta convencer os militares a alterarem os planos.

É uma pena, porém, que o roteiro de Alex Von Tunzelmann não decide, de seu início até seu fim, qual imagem de Churchill quer passar, o que resulta em um arco pífio e risível: em partes da narrativa, parece tentar enaltecer sua figura; em outras, tenta exaltar sua fragilidade ou até mesmo o fato de que nem os generais do exército pareciam respeitar sua autoridade, o que se torna nítido em situações como aquela em que, quando dois militares discutem entre si, um deles simplesmente diz para o outro deixar Churchill “checar alguns mapas” para que possa “pelo menos se sentir incluído”.




Sim, Churchill muito provavelmente foi as duas coisas: como qualquer ser humano, certamente teve seus altos e baixos, já que um de seus dilemas, inclusive, era o alcoolismo. Mas o problema reside no fato de que a narrativa simplesmente não funciona: em dado momento, por exemplo, este esbraveja contra sua secretária, Helen Garrett (Purnell), simplesmente porque a moça datilografou uma de suas cartas utilizando espaços simples ao invés de duplos; já no terceiro ato, após o homem se tornar magicamente um ser completamente bom e altruísta (anteriormente, se preocupava com os soldados britânicos, sim, mas raramente com aqueles à sua volta), há uma cena simplesmente ridícula na qual, após tomar um texto datilografado da mão de Garrett, o primeiro ministro elogia sua competência – não sem antes disso haverem alguns instantes de mistério durante os quais esperamos que ele repita a atitude anterior. Em uma outra cena, ele afirma que, “embora preferisse whisky”, o conteúdo do copo era “apenas água”, naquela que acaba por ser a vigésima tentativa desesperada e caricata de mostrar sua mudança. A cereja do bolo, porém, está em um diálogo no qual, após saber que o noivo de Helen se encontrava em um dos navios da Operação, Churchill parece se tornar imediatamente tocado pela situação a ponto de se mostrar curioso a respeito de como a mulher com a qual havia sido completamente rude dias antes conheceu seu noivo e de, após receber notícias do rapaz, informar que este “mandou beijos”.

Como se não fosse o suficiente, a decupagem irregular do diretor Jonathan Teplitzky, em conjunto com a fotografia de David Higgs, contribuem para esta instabilidade: há situações, por exemplo, em que mesmo quando Winston Churchill se encontra em alguns de seus piores momentos, esses insistem em fotografá-lo, mesmo que em planos extremamente fechados, de baixo para cima – recurso este comumente utilizado para conferir grandeza a um personagem: a discrepância visual e narrativa, em certos pontos, é tão grande a ponto de que acaba por ser quase impossível deixar de questionar se os envolvidos sequer faziam alguma ideia do que estavam fazendo.

Os poucos méritos do longa, entretanto, ficam por conta de suas atuações, já que seu elenco extremamente talentoso consegue, mesmo em cima de um roteiro pífio, criar personagens suficientemente tridimensionais e interessantes: perceba, por exemplo, como Miranda Richardson consegue estabelecer uma Clemmie Churchill ponderada, calma e afetuosa; James Purefoy, mesmo com pouquíssimo tempo de tela, constrói um Rei George VI completamente eficiente já que, apenas com sua voz, consegue demonstrar não apenas o carinho que sente por seu primeiro ministro mas sua relutância com as palavras: sem jamais soar artificial, o ator fala devagar e pausadamente – um detalhe que poderia passar desapercebido por muitos, mas que faz total sentido quando sabemos que o rei era gago e precisou superar este problema de fala quando assumiu a coroa britânica.

O longa termina afirmando que Churchill ainda é considerado por muitos o “maior britânico de todos os tempos”: sendo assim, é uma pena que sua história tenha servido para produzir uma obra tão rasa e incompetente.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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