Crítica: Central – O poder das facções no maior presídio do país

cinema

Brasil, 75min. Direção: Tatiana Sager e Renato Dornelles. Roteiro: Tatiana Sager, Renato Dornelles e Luca Alverdi.

Se tivesse que escolher uma única palavra para descrever o documentário dirigido por Tatiana Sager e co-dirigido por Renato Dornelles, com certeza escolheria “corajoso” – é preciso uma boa dose de coragem para tratar da situação carcerária brasileira na era do “bandido bom é bandido morto”.

Mas, mais que isso, a produção acerta totalmente ao expor, sim, as situações completamente desumanas nas quais vivem os encarcerados do presídio Central, em Porto Alegre, tratando-os de forma minimamente humana, mas sem jamais cometer o erro de vitimizá-los excessivamente: nos referimos a criminosos, afinal de contas. E se estes têm direitos mínimos – que obviamente não são cumpridos em qualquer parte do sistema carcerário brasileiro –, não pode se deixar de lado o fato de que devem, obviamente, cumprir as penas às quais foram sentenciados.

Neste sentido, aliás, a estrutura utilizada pelo longa funciona perfeitamente para apresentar o problema e suas consequências: em seu primeiro ato, Central estabelece a falta de condições básicas de higiene, saúde e alimentação no local – embora estas situações sejam continuamente expostas até o fim da projeção; em um segundo momento, a obra apresenta as sequelas causadas à própria comunidade carcerária; por fim, termina apontando o efeito causado pelas falhas e datadas políticas de encarceramento à sociedade como um todo.

E Central já inicia chocando: os primeiros minutos de projeção expõem sem muito freio, através de uma série de depoimentos, situações extremas causadas pela falta de condições sanitárias adequadas que acabam por causar doenças aos encarcerados; doenças estas que, devido também à falta de equipes de saúde suficientes, levam os homens que ali vivem ao desespero e a condições sub-humanas.




É evidente que existem aqueles que acreditam que criminosos de qualquer espécie não merecem viver sob condições básicas de humanidade – mesmo que o próprio documentário retrate que a realidade não seja nem um pouco maniqueísta e que as próprias condições da sociedade levam muitos à criminalidade: segundo dados do filme, a população negra dentro do Central é de 33%, contra apenas 16% na cidade de Porto Alegre; além disso, menos de 10% dos apenados foram condenados por homicídio –, sendo assim, do segundo ato em diante, Central se debruça sobre as consequências de um sistema arcaico de aprisionamento (“o mesmo utilizado desde o século XIX”, de acordo com uma das autoridades entrevistadas) para a sociedade de forma geral.

As primeiras vítimas do modelo atual são as famílias dos criminosos, já que a falta de recursos dentro dos presídios faz com que os internos se organizem em facções, tendo estas regras próprias, estatuto e chegando a cobrar mensalidades de seus membros: o dinheiro arrecadado é utilizado para armamento, contratação de advogados, drogas, alimentos e outros recursos que venham a se tornar necessários. O grande problema, aqui, é que as facções estão longe de controlar apenas os acontecimentos da cadeia: algumas chegam a monopolizar o tráfico de drogas da capital gaúcha e até mesmo a aliciar mulheres à prostituição – muitas delas mães, esposas ou irmãs de presidiários que são forçadas pelas circunstâncias a isto, sendo a única forma de manter vivos seus familiares dentro da penitenciária – o primeiro “degrau” de inocentes acometidos pela criminalidade gerada pelo sistema penal.

Além disso, uma boa parte das autoridades entrevistadas parece concordar que a Central acaba por servir como uma espécie de “universidade do crime”: uma destas afirma categoricamente que “já viu muito guri chorão virar monstro”; e não é por menos: segundo outro membro da Brigada Militar (que administra o local desde um motim ocorrido no passado), não apenas os criminosos conseguem cometer exatamente os mesmos crimes que cometiam antes do ingresso na prisão como esta ainda serve quase que como uma base de operações do crime organizado.

E, no final das contas, a única solução para o problema é justamente aquela que os defensores do “bandido bom é bandido morto” tanto repudiam: fornecer condições minimamente dignas para a sobrevivência destas pessoas é a única forma de romper o ciclo vicioso, já que é justamente a falta destas que as leva à formação de facções.

A verdade é que transformamos nossas prisões não em centros punitivos, mas de vingança, como também lembra sabiamente um dos entrevistados.

Central, portanto, nos convida à uma discussão muito mais do que válida: necessária. Sem a pretensão de fornecer as respostas, o filme acerta completamente ao plantar a semente desta reflexão.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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