Crítica: Boneco de Neve

cinema

The Snowman, Reino Unido/EUA/Suécia, 119 min. Direção: Tomas Alfredson. Roteiro: Peter Straughan, Hossein Amini e Søren Sveistrup (baseado no romance de Jo Nesbø). Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainbsbourg, Jonas Karlsson, Michael Yates, Ronan Vibert, J.K. Simmons, Val Kilmer, David Dencik, Toby Jones.

Se o objetivo de Boneco de Neve era o mistério, este foi cumprido; são muitas perguntas sem resposta: como um roteiro tão ruim passou pelas mãos de tantas pessoas e ainda assim viu a luz do dia? Como Martin Scorsese aceitou ser produtor executivo de um filme tão pavoroso? Como trouxe Thelma Schoonmaker, uma exímia montadora, com um currículo invejável, para embarcar num navio cujo casco já se encontrava esburacado antes mesmo de desatracar? Como tantos atores de peso aceitaram passar por este vexame? Todas estas perguntas mostram como o longa funciona extremamente bem como mistério – embora provavelmente não da forma que seus realizadores esperavam.

O roteiro, escrito a seis mãos e baseado no livro homônimo de Jo Nesbø (que não li), conta a história do detetive Harry Hole (Fassbender), responsável pela investigação de um caso bastante curioso: o do serial killer que, após matar suas vítimas, sempre do sexo feminino e com requintes de crueldade, deixa um boneco de neve na cena do crime.

O que num primeiro momento pode parecer uma ótima história policial com um desfecho provavelmente surpreendente acaba por se desenvolver em uma narrativa monótona, com personagens completamente desnecessários (abordarei melhor esta questão adiante) e desinteressantes e um final que surpreende, sim; mas jamais por sua originalidade ou coerência, e justamente pela falta de ambas. E, não, não se preocupe: não o revelarei – embora, muito provavelmente, estaria prestando um favor de grande utilidade pública se o fizesse.




Durante suas longas duas horas, presenciamos um misto de personagens que claramente não servem para nada, a exemplo da detetive Katrine Bratt (Ferguson) – cujo propósito da existência é basicamente se tornar uma espécie de isca narrativa para o assassino –, com alguns outros, como o magnata Arve Stop (Simmons) que são simplesmente atirados no roteiro em tentativas patéticas e risíveis de, literalmente, encher linguiça por quase cento e vinte minutos, quase que como se a própria obra apontasse em direção a qualquer um deles dizendo “olha este aqui, tudo indica que é o culpado!” para, minutos depois, mostrar que aquele ou este não poderia ter cometido os assassinatos. E este recurso, completamente preguiçoso, acaba por ser utilizado repetidas vezes, quase à exaustão, tornando Boneco de Neve, além de descerebrado, completamente insuportável.

Isto para não entrar no mérito de que, quando o assassino é finalmente revelado, faltam respostas. Qual seria, por exemplo, a razão para a escolha de um boneco de neve nas cenas de crimes?

Assim como os primeiros questionamentos, já que sigo sem compreender o que diabos pode estar acontecendo com Martin Scorsese.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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