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Crítica: Blade Runner 2049

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EUA/Reino Unido/Canadá, 164min. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green (baseado no romance de Philip K. Dick). Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Dave Bautista, Robin Wright, Mark Arnold, Vilma Szécsi, Ana de Armas, Wood Harris, David Dastmalchian, Tómas Lémarquis, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Carla Juri.

Aviso: o texto contém spoilers sobre o filme.

Confesso: ao ouvir falar sobre uma continuação para o clássico Blade Runner, de Ridley Scott, senti medo; o risco parecia simplesmente grande demais. Felizmente, o diretor Denis Villeneuve e os roteiristas Hampton Fletcher e Michael Green deram um tiro certeiro, especialmente em dois pontos cruciais: ao respeitar o universo da obra original e ao adicionar elementos que justifiquem a existência da nova.

Três décadas após os acontecimentos de 2019, conhecemos o blade runner K (Gosling), um replicante Nexus 9, novo modelo criado por Niander Wallace (Leto), agora proprietário da Tyrell Corporation após a falência desta (os eventos que levaram a tal fato são devidamente explicados em uma série de três curtas-metragens lançados pelo estúdio, que podem ser assistidos aqui). Como os modelos antigos foram banidos, é sua tarefa dar conta de Sapper Morton (Bautista), um antigo modelo Nexus-8 que acaba por levar o jovem agente a descobrir uma cadeia de fatos que podem alterar toda a dinâmica entre os humanos e replicantes e que acabam por fazê-lo chegar ao agente Rick Deckard (Ford).

E, se por um lado existem pequenas rimas visuais que homenageiam a obra original, como o plano-detalhe de um olho logo no início da projeção, o longa de Denis Villeneuve surpreende ao, já em seus primeiros instantes, utilizar uma fotografia que, diferentemente de seu precursor, nos mostra momentos diurnos da Los Angeles (e, mais tarde, Las Vegas) distópica de 2049 – o primeiro filme não tem absolutamente nenhuma cena que não seja noturna.

Neste sentido, aliás, os neons continuam lá, em toda sua glória; e é genial que o design de produção de Dennis Gassner em conjunto com a fotografia magistral de Roger Deakins decidam por contrastar as luzes de uma cidade tão cosmopolita, a ponto de haverem letreiros não apenas em inglês, mas em idiomas como japonês e coreano – assim como outrora, por sinal –, com outros ambientes tão estéreis, como a casa habitada por Morton.




Esterilidade esta, inclusive, que o roteiro explora muito bem em momentos como aqueles em que nos apresenta ao relacionamento do agente K com a holograma Joi (de Armas): embora envolva um replicante e uma simples inteligência artificial (uma referência óbvia a tecnologias similares e até mesmo aplicativos de celular que “emulam” parceiros amorosos, usados em partes da Ásia), chega a ser emblemático que pareça muito mais real do que qualquer um vivido pelos humanos, seres capazes de criar replicantes para lhes servirem como escravos. E, sim, embora Deckard tenha amado Rachael, sua própria natureza humana jamais fica totalmente clara no longa de Ridley Scott.

Mas, mais que isso, a narrativa explora de forma absolutamente sensível a situação dos replicantes que, fadados a escravos, tentam ser mais do que isso e terem o simples direito à existência. Podem não ser compostos das letras C, A, T, e G (as proteínas citosina, adenina, timina e guanina, que compõem o DNA humano) e sim de sequências de 0s e 1s (que criam as cadeias de códigos binários), como bem lembrado por um dos personagens, mas, devido à sua própria natureza de criação, sentem e desejam a vida – talvez muito mais do que os próprios humanos.

A ponto de desejarem – e conseguirem – ter seus próprios filhos, como Rachael. E, neste ponto, o roteiro se mostra extremamente eficiente ao não apenas fugir do que seria ridiculamente óbvio (K ser o filho perdido de Deckard e Rachael) mas ao encontrar uma solução totalmente elegante para a questão ao explicar que as memórias da garota foram plantadas em vários outros replicantes como forma de utilizar sua esperança como combustível para quererem lutar por sua liberdade. E se acreditamos até quase o final da projeção que o protagonista é, de fato, filho de Rick e Rachael, ao entendermos quem realmente o é percebemos que todos os acontecimentos anteriores se encaixam perfeitamente: quando K encontra a Dra. Ana Stellini (Juri), fica evidente que as memórias vistas pela mulher mexem com seu psicológico; além disso, talvez justamente por ter nascido de uma replicante, seu sistema imunológico é incapaz de funcionar como deveria. E, quando conversa sobre o assunto com K, Deckard usa sempre a palavra “kid” ao se referir à moça – palavra esta que, em inglês, está livre de gênero, mantendo completamente a ambiguidade do diálogo sem jamais soar artificial e fazendo com que a revelação no terceiro ato faça total sentido.

E se Carla Juri nos presenteia com uma performance irrepreensível ao demonstrar sua dor por tudo o que passou – mesmo que sejamos incapazes de compreendê-la completamente naquele momento –, Ryan Gosling confere com habilidade uma tridimensionalidade e humanidade ímpares ao seu agente K, mesmo que este não seja exatamente humano. Somado a isto tudo se encontra o veterano Harrison Ford que, três décadas e meia depois, volta à pele de Rick Deckard reconstruindo um sujeito que, isolado, castigado e alcóolatra, admite que preferiu a ignorância em relação ao paradeiro da própria filha por acreditar ser esta a única forma de mantê-la segura.

No fim das contas, mesmo tratando de criaturas não-humanas, Blade Runner 2049 tem muito a dizer sobre suas naturezas talvez mais humanas do que a própria natureza humana.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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