Crítica: Bingo: O Rei das Manhãs

cinema

Brasil, 113min. Direção: Daniel Rezende. Roteiro: Luiz Bolognesi. Elenco: Tainá Müller, Leandra Leal, Vladimir Brichta, Solen Hellerup, Emanuelle Araújo, Fernando Sampaio, Pedro Bial, Ana Lúcia Torre, Augusto Madeira, Cauã Martins.

Provavelmente se esperaria que um filme inspirado na história do palhaço Bozoque teve aqui seu nome alterado para Bingo por questões de direitos autorais – fosse uma comédia. Surpreendentemente, Bingo: O Rei das Manhãs, longa de estreia de Daniel Rezende na direção (o paulista tem um extenso currículo como montador em produções nacionais e internacionais) e roteirizado por Luiz Bolognesi, se estabelece como muito mais do que um drama, mas um excelente estudo de personagem.

A narrativa segue a jornada de Augusto Mendes (Brichta) – cujo nome real é Arlindo Barreto -, desde seus dias como ator de pornochanchadas até seu “estrelato anônimo” (seu contrato não permitia que sua identidade fosse revelada ao público) como o palhaço Bingo nas manhãs da TVP (que claramente representa o SBT). Não sem que antes tivesse tentado a sorte na Mundial (vulgo Rede Globo). Em meio às gravações, Augusto ainda enfrentava problemas com drogas e álcool, além de ter uma conduta inadequadamente libertina, especialmente em seu ambiente de trabalho.

A este respeito, o roteiro nem mesmo tenta esconder que seu protagonista não era exatamente exemplo moral ou dono de um grande caráter: ao longo da narrativa somos expostos a vários episódios nos quais fica clara sua índole por muitas vezes duvidosa, a exemplo de mais de um deles em que Augusto, em local de trabalho, chega a fazer sexo com várias mulheres ou cheirar cocaína momentos antes de entrar no ar – há, inclusive, uma cena em especial que, utilizando-se de planos mais fechados e slow motion, consegue retratar com destreza o sentimento de choque da equipe ali presente diante de seu nariz sangrando por efeito do pó, especialmente considerando que todos conheciam muito bem as razões para tal.




Não bastando seu comportamento inadequado, fica também evidente que Augusto, ou Arlindo, não tinha respeito algum pelas mulheres – com exceção, talvez, de sua mãe, Marta (Torre) -, já que suas atitudes em relação a todas beiravam o desumano. Em vários momentos, Augusto falta com respeito à diretora Lúcia (Leal), insistindo impertinentemente para que a mulher solte o cabelo, como se tivesse algum tipo de poder de propriedade sobre ela – e em uma certa ocasião chega a dizer que Lúcia “não é uma mulher, mas um general sem alma e sem vagina”. Acerca destas questões, é uma pena que, especialmente em seu terceiro ato, o longa pareça fazer um esforço colossal para, mesmo diante de tantas falhas de caráter, conceber a figura de seu protagonista como um grande ídolo.

O roteiro, sob outro aspecto, em mais de uma ocasião faz duras críticas à Rede Globo (disfarçada de “Mundial”) e suas conhecidas políticas não apenas presunçosas e megalomaníacas (“não existe vida fora da Mundial”, diz Armando, o produtor vivido por Pedro Bial) mas de manter vários nomes da dramaturgia na chamada “geladeira”, como acontece com Marta (Márcia de Windsor na vida real).

Do ponto de vista estético, a direção de arte de Cassio Amarante quase recria o vestuário e os cenários utilizados nos programas do Bozo da década de 1980; “quase” porque os direitos autorais do personagem criado por Alan Livingston não permitiriam sua reprodução literal: sendo assim, o icônico cabelo vermelho do palhaço passa a ser azul e ter uma forma ligeiramente diferente, por exemplo. Ao mesmo tempo, a fotografia de Lula Carvalho estabelece com competência a clara diferença entre o mundo de Bingo e Augusto: durante as cenas em que acompanhamos o programa, as cores são sempre vivas e alegres, ao passo que o mundo do homem por trás da maquiagem e do nariz ganha uma paleta muito mais escura e sombria, que por vezes remete à vida noturna, já que até mesmo sua casa parece estar sempre mergulhada em uma iluminação que poderia ser encontrada em uma boate.

O que é minimamente curioso, já que foi exatamente este lado de sua vida que o levou à ruína.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

twitter instagram Letterboxd