Crítica: Atômica

cinema

Atomic Blonde, Alemanha, Suécia, EUA, 115 min. Direção: David Leitch. Roteiro: Kurt Johnstad (baseado na graphic novel “The Coldest City”, de Antony Johnston e Sam Hart). Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Rolland Moller, Sofia Boutella, Bill Skarsgard, Sam Hargrave.

Num mundo onde – felizmente – as mulheres têm cada vez mais espaço, o que até poucas décadas atrás seria impensado vem acontecendo: temos, sim, filmes de ação com protagonistas femininas fortes. É o caso deste Atômica que, mesmo com deslizes pontuais, se consolida como uma obra de ação de boa qualidade técnica – além de divertido e cheio de energia.

Tendo como pano de fundo o período final da Guerra Fria, poucos dias antes da queda do muro de Berlim, a agente Lorraine Broughton (Theron) é enviada pelo MI6 britânico à Alemanha, onde tem como missão investigar não apenas a morte de um colega, mas uma suposta lista que conteria os nomes de todos os agentes duplos e que poderia afetar completamente o curso dos acontecimentos.

Sobre a protagonista, é louvável que o roteiro a estabeleça como uma personagem forte – física e psicologicamente –, figurando em uma variedade de cenas de ação memoráveis e uma série de momentos de perspicácia, já que Lorraine não é apenas boa de briga, mas também inteligente e sagaz. É uma pena, contudo, que aparentemente seja impossível para boa parte da indústria criar uma heroína do sexo feminino sem atribuir-lhe a necessidade de expressar o tempo todo sua preocupação estética, o que soa machista especialmente quando nos damos conta de que jamais ouviríamos diálogos como “se eu soubesse que ele iria chamar a polícia teria escolhido uma roupa diferente” vindos de, digamos, Daniel Craig ou Sean Connery na pele de James Bond.




De volta às sequências de ação, há uma série destas que se mostram notáveis; mas o melhor exemplo, impossível de não ser mencionado, é um fantástico plano-sequência (seus cortes muito provavelmente foram escondidos na montagem e com uso de efeitos especiais, mas o mesmo funciona na prática como tal) no qual Lorraine dá conta de mais de três ou quatro homens extremamente maiores que ela no corpo-a-corpo: este plano, executado com a câmera trêmula, na mão, serve para aumentar ainda mais a tensão, especialmente em combinação com os efeitos de maquiagem que vão deixando o rosto de Charlize Theron ainda mais inchado e ferido – algo com o qual a atriz já tem experiência, considerando sua genial performance em Monster, diga-se de passagem.

Ambientada no final da década de 1980, a obra utiliza, sabiamente, canções da época, como Cat People, de David Bowie, que surge já no início da produção. Visualmente, porém, apesar da fotografia colorida que é uma óbvia referencia ao período histórico, o design de produção falha ao criar uma caracterização que poderia ter saído da última semana de moda – o que, muito provavelmente, se deve ao receio de que o público não aceitaria referências literais de moda e beleza vindas das décadas de 1980 e 1990; os ambientes, por outro lado, são criados com maestria – em um dado momento, por exemplo, vemos um oficial jogando Tetris: uma pequena referência bastante nostálgica a qualquer um que viveu tal época. Além disso, o longa se utiliza de um recurso que consiste em recriar noticiários, que aparecem frequentemente em televisores localizados no hotel em que Lorraine se encontra hospedada ou em quaisquer outros ambientes, e que servem para contextualização histórica dos acontecimentos.

Ao mesmo tempo, o longa conta com pequenos alívios cômicos que, acertadamente, são sempre sutis, como um momento no qual a agente usa o gelo da própria banheira para seu copo de vodka ou quando o chefe C (Faulkner) a questiona se fez contato com a agente francesa logo após presenciarmos uma cena de sexo entre Lorraine e Delphine (Boutella).

O que, aliás, também é algo emblemático em relação à representatividade feminina: a única pessoa capaz de fazer a dura agente Lorraine baixar a guarda é justamente outra mulher.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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