Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente

cinema

Murder on the Orient Express, EUA, Malta, 114min. Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green (baseado no romance de Agatha Christie). Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Derek Jacobi, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Judi Dench, Olivia Colman, Leslie Odom Jr., Tom Bateman, Marwan Kenzari, Manuel Garcia-Rulfo, Joseph Long.

Este novo Assassinato no Expresso do Oriente é, com certeza, um projeto arriscado: dirigido e protagonizado pela mesma pessoa, o irlandês Kenneth Branagh, escrito por Michael Green que, só este ano, foi o responsável por dois roteiros sensacionais (Logan e Blade Runner 2049) e adaptado da obra de uma das maiores escritoras de todos os tempos, Agatha Christie; como se isto não bastasse, em seu elenco constam nomes de peso como Judi Dench, Daisy Ridley, Michelle Pfeiffer e Johnny Depp. Tudo isso serve, com certeza, se não para fazer com que as expectativas se elevem, para que, ao menos, a curiosidade se aguce. A boa notícia é que o longa não decepciona.

Sendo um dos mais conhecidos romances policiais de todos os tempos, Assassinato no Expresso do Oriente tem seu desfecho conhecido por boa parte do público (e, não, não há com o que se preocupar: esta crítica não o revelará). Assim, ainda há o desafio de manter o interesse de uma boa parte dos espectadores que, de antemão, já sabe quem é o assassino – e isto jamais se torna um problema durante as quase duas horas de projeção, posto que o roteiro de Michael Green se preocupa em se debruçar suficientemente sobre a mente de Poirot (Branagh) e como esta trabalha na solução de um crime; isto é algo particularmente acertado, e não apenas por manter a narrativa nos trilhos (peço perdão pelo trocadilho infame) mas simplesmente porque a oportunidade de mergulhar na psique de um dos mais interessantes personagens da literatura policial inglesa é algo simplesmente prazeroso demais para que seja desperdiçado.

Em vista disso, a trama nos presenteia com momentos, aqui e ali, em que entendemos de onde vem o talento de Hercule Poirot, como explicado pelo próprio quando diz que “só consegue ver o mundo como deveria ser; o imperfeito lhe incomoda como um nariz no meio de uma face”: seu quase transtorno obsessivo-compulsivo o faz medir dois ovos para que possa ter certeza de que são do mesmo tamanho, pedir para que várias pessoas ajeitem suas gravatas ou até mesmo pisar propositalmente num montinho de fezes com o segundo pé após ter acidentalmente se sujado com o primeiro. Poirot enxerga os mínimos detalhes de tudo porque é esta sua natureza, além da óbvia sagacidade.




Para isto, ainda, contribui a atuação de Kenneth Branagh que, definitivamente, consegue exalar a essência do personagem pelos poros: com um perfeito sotaque belga, o ator encarna o detetive de forma magistral. É impossível deixar de notar, por exemplo, seu olhar de curiosidade em direção ao que lhe chama a atenção ou até mesmo o deleite demonstrado em sua voz quando parece se espantar com sua própria genialidade em situações como aquela em que percebe que o único lugar no qual ainda não procurou por uma pista em específico fora sua própria mala. Somado a isto, momentos como um em que se sente frustrado por não conseguir se lembrar de uma palavra específica em inglês, já que sua língua natal é o francês, só o tornam ainda mais tridimensional e humano.

Branagh, porém, não se contenta em apenas atuar de maneira soberba: sua direção é coesa e coerente, embora econômica. Junto do diretor de fotografia, Haris Zambarloukos, e, obviamente, de Jim Clay, designer de produção, recria a famosa linha férrea que ligava a Turquia a Londres; a este respeito, inclusive, há uma pequena rima visual que faz com que vejamos Hercule Poirot entrar no trem em um plano-sequência cujo ponto de vista se dá de fora deste e que, ao fim, em outro plano-sequência, o detetive saia do veículo mas, desta vez, vejamos isto acontecer pelo lado de dentro – se outrora estávamos prestes a ali embarcar, agora saímos. E isto, claro, depois de vários momentos quase que claustrofóbicos, já que o ambiente exterior é sempre retratado de forma ameaçadora – o que justamente reforça a ideia de que nenhum dos passageiros tem outra opção além de permanecer ali, em reclusão, junto de um assassino. Neste sentido, aliás, há um belíssimo plano no qual, observando a escuridão no entorno do trem, vemos uma única e pequena janela com luz, a qual pertence justamente à cabine de Hercule Poirot e sua mente iluminada. Além disso, o longa ainda encontra soluções extremamente orgânicas e elegantes, como os flashbacks em preto e branco que, apesar do clichê, mantêm a clareza narrativa ou um plongée extremamente bem empregado quando somos apresentados ao cadáver da vítima, já que este ângulo específico faz com que possamos entender a gravidade e extensão dos ferimentos que o levaram à morte sem que sejamos expostos ao grotesco excessivo e desnecessário.

Ainda, em tempos tão conservadores e retrógrados, somam-se à lista de méritos da produção, que é também estadunidense, vários pequenos “cutucões” ao racismo e xenofobia crescentes daquele país: destacam-se cenas como aquela em que Bouc (Bateman) pede a ajuda de Poirot em relação ao crime, afinal, sem uma investigação adequada, muito provavelmente “iriam culpar Marquez (Garcia-Rulfo) por se chamar Marquez, ou o Dr. Arbuthnot (Odom Jr.) pela cor de sua pele” ou um outro no qual Hardman (Dafoe) compara pessoas de etnias diferentes a tipos de vinhos, afirmando que “como branco e tinto, caucasianos e negros não devem se misturar”, ao passo que Mary Debenham (Ridley) simplesmente responde, enquanto mistura as duas variedades da bebida em uma taça, que “adora um bom rosé”.

Tendo tudo isso em mente – e um outro fato: o de que Hercule Poirot é o maior detetive do mundo, como bem lembrado pelo próprio –, é com muita alegria que percebemos o gancho existente logo ao fim do longa, para sua continuação, que deverá ser lançada nos próximos anos: Morte no Nilo.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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