Crítica: Ao Cair da Noite

cinema

Em seu segundo longa, Trey Edward Shults constrói um thriller competente que, apesar de pequenos problemas pontuais, se mostra bastante eficiente em criar um clima tenso o suficiente para prender o espectador – é possível dizer que Ao Cair da Noite é tudo o que um filme de Shyamalan poderia vir a ser se o indiano fosse capaz de fazer bons roteiros (coisa que só conseguiu duas vezes, com Sexto Sentido e Corpo Fechado).

Paul (Joel Edgerton) e sua família, composta pela esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho Travis (Kelvin Harrison Jr.), tentam sobreviver, numa casa afastada de tudo e todos, com comida e água limitadas, a uma doença misteriosa – que o longa acertadamente nunca se preocupa em explicar, já que serve apenas de pano de fundo para uma narrativa que, em sua essência, trata sobre a convivência humana em situações extremas -, até que a presença de uma nova família, formada por Will (Christopher Abbott), Kim (Riley Keough) e o pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner), altera não apenas a dinâmica do local, mas coloca em prova até mesmo o psicológico de todos os envolvidos.




A fim de criar o clima de tensão necessário à narrativa, Shults utiliza recursos bastante comuns – e até clichês de filmes do gênero -, mas que não por isso deixam de funcionar, como câmeras subjetivas, diálogos sem cortes (utilizando, para isso, uma grande quantidade de pans), ou cortes rápidos em outras situações, aliados ao design de som, que cria ruídos abruptos aliados à montagem. E o fato do longa já iniciar com a morte de um dos membros da família – o avô, Bud (David Pendleton) – e seu enterro, só serve para que o público já comece a imergir na narrativa em clima de medo e tensão, especialmente devido às máscaras de gás utilizadas por todos.

E é impossível falar sobre a tensão ou a situação psicológica sem pontuar que a escolha do elenco foi a mais acertada possível já que os seis atores que compõe as duas famílias são extremamente competentes: e uma má escalação nesse sentido poderia fazer com que toda a obra desabasse, mas este, definitivamente, não é o caso.




Por outro lado, Ao Cair da Noite peca em situações pontuais ao desenvolver o clima de paranoia entre as duas famílias: se por um lado é natural que a desconfiança inicial se transforme num clima familiar e, mais tarde, devido às circunstâncias volte a algo muito próximo do estado original, por outro a narrativa deixa de desenvolver certos elementos como deveria, a exemplo do incômodo relacionamento entre Travis e Kim ou do fato de Will se contradizer em certo momento a respeito do que havia dito a Paul inicialmente – e se esse fato serve de combustível para as desconfianças do segundo, nunca ficamos de fato sabendo se a família do primeiro era ou não uma ameaça.

Mas o principal mérito da obra é não se deixar levar pela megalomania – motivo da comparação com Shyamalan e suas frequentes tentativas de criar finais absurdamente surpreendentes o tempo todo -, já que seria muito fácil cair no erro de tentar criar plot twists e revelações bombásticas tão comum ao gênero.

E, em seu terceiro ato, há uma analogia narrativa belíssima a respeito de uma porta da casa que deveria permanecer sempre fechada e do destino de um dos personagens que, alegoricamente, a atravessa.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

twitter instagram