Crítica – Antes Que Eu Vá

cinema

Dirigido pela novaiorquina Ry Russo Young e com roteiro de Maria Maggenti (baseado no livro de Lauren Oliver), Antes Que Eu Vá parece o exato cruzamento entre No Limite do Amanhã (de Doug Liman, com Tom Cruise) e Meninas Malvadas (de Mark Waters, com Lindsay Lohan): a trama, bastante adolescente, gira em torno de Samantha (Zoey Deutch), que vive o mesmo dia sete vezes seguidas após morrer em um acidente de carro – a garota basicamente acorda naquela mesma sexta feira, exatamente como no dia “anterior” e tenta descobrir o que pode fazer de diferente para sair do loop.




Num primeiro momento, Sam tenta salvar a si e suas amigas próximas, que estavam no mesmo carro; depois, ao perceber que naquele dia alguém morreria de qualquer forma, acaba por entender que seria necessário salvar uma colega, Juliet (Elena Kampouris), que, vítima de bullying, tenta cometer suicídio se jogando na frente de um veículo. Neste meio tempo, a estudante também chega à conclusão de que é importante tratar melhor aqueles à sua volta e passar tempo com quem ama – o que, por si só, é uma mensagem maravilhosa, claro.

Mas não é aí que reside o problema. É fato que a temática do bullying vem sendo abordada com uma grande frequência na atualidade e é, também, extremamente problemático que sempre de forma moralista; oras, devemos sim tratar uns aos outros da melhor maneira possível, mas por sabermos que é o certo e não por medo: para permanecer viva e conseguir sair do loop, aparentemente Samantha precisava aprender a respeitar colegas como Juliet e Anna (Liv Hewson), mas por que isso aconteceu exatamente com ela? E como? O longa também falha em estabelecer respostas para estas perguntas.

Isso para não mencionar o excesso de clichês típicos de filmes adolescentes: Ally (Cynthy Wu), Elody (Medalion Rahimi) e Lindsay (Halston Sage), juntamente com a protagonista, são desprezíveis, a ponto de praticar bullying contra Juliet, por exemplo, só por sua aparência (cuja caracterização beira o ridículo já que ela é chamada de “sociopata” e anda descabelada e com roupas largas – a ponto de ser chamada de “Norma Bates” pelas colegas em mais de uma ocasião); o namorado de Samantha, Rob (Kian Lawley) é o típico garoto popular desejado por todas, para que no final das contas ela perceba que seu amor verdadeiro é outro, Kent (Legan Miller), não tão popular assim mas que sente algo genuíno por ela. E se é pra falar em clichês, impossível não exemplificar a questão citando um plano específico em que o quarteto de amigas entra no colégio em câmera lenta e que não pode ser descrito com outra palavra que não seja “risível”.

Esteticamente falando, o filme é bastante agradável, mas não muito criativo em relação à sua fotografia e direção de arte; a montagem até tenta utilizar alguns recursos mais dinâmicos na tentativa de tornar as várias repetições do fatídico dia um pouco mais palatáveis, o que não necessariamente funciona já que acaba por se tornar maçante e cansativo.

Não há nenhuma atuação brilhante, mas o destaque negativo fica para Zoey Deutch: seu overacting em várias cenas chega a incomodar, especialmente ao chorar, já que usa várias muletas como soluçar exageradamente. Sobre incômodo, aliás, se faz necessário pontuar a obsessão da produção com piadas e gags com conotação sexual, já que com menos de 20 minutos de projeção houveram mais de quatro ou cinco sem nenhuma razão narrativa que as justificasse.

A conclusão é que precisamos e muito falar sobre bullying, mas o assunto precisa ser abordado em produções melhores e mais responsáveis – e Antes Que Eu Vá não é, definitivamente, uma delas.

avatardp
Sobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.