Crítica: Amor.com

cinema

Amor.com, filme de estreia de Anita Barbosa como diretora (que já havia participado de outras produções como assistente de direção e diretora de segunda unidade), é um filme que, apesar de seus clichês, tem como qualidade, paradoxalmente, o fato de fugir de muitos outros.

Sua protagonista, a jovem Katrina (Isis Valverde), é uma youtuber (o longa usa o termo “vlogger”, muito provavelmente por questões de direito autoral) de moda e maquiagem que, por ironia do destino, se apaixona por seu extremo oposto: Fernando (Gil Coelho), um nerd amante de tecnologia, quadrinhos e ficção científica.

Apesar de possuir um roteiro (escrito por Saulo Aride, Bruno Garotti e Leandro Matos) sem muita criatividade e até bastante previsível – lá pelo segundo ato é impossível não perceber o que irá acontecer; não há absolutamente nenhuma surpresa na narrativa -, o filme se mostra bastante divertido e capaz de abordar com sensibilidade vários assuntos contemporâneos como cyberbullying, exposição na internet, machismo e vazamento de fotos íntimas.




Voltando aos clichês, seria muito fácil cair em erros como estereotipar a personagem de Katrina como uma garota totalmente fútil que não se importa com nada além de sua própria imagem e aparência (mesmo que Fernando em alguns momentos a acuse exatamente disso) – coisa que não ocorre, já que ela se mostra, desde o princípio, aberta a novas experiências e capaz de sentir algo mais profundo por alguém tão diferente de si -, ou estabelecer algo parecido com o personagem de Fernando, transformando-o, como tantas outras produções, num ser totalmente sem traquejo social e incapaz de sequer manter uma conversa com alguém do sexo oposto. Mas, não, Amor.com, ao invés disso, opta por criar uma protagonista minimamente interessante e dinâmica e fazer o mesmo com o garoto, já que é totalmente possível entender os motivos pelos quais Katrina se interessou por este.

É óbvio que a produção tem propósito bastante comercial e isso fica claro, por exemplo, não só por ter a internet como pano de fundo (fato que, por si só, atrairá com certeza muitos jovens para o cinema: o filme certamente “fala a linguagem” deste público) mas por trazer diversas personalidades da web como chamarizes: Thaynara OG, Thássia Naves e Lala Rudge são algumas. Porém, desde quando “ser comercial” é um defeito? Um filme pode ser um sucesso de bilheteria e ainda ser bom do ponto de vista técnico; e, mais: ainda pode discutir assuntos relevantes de forma leve, o que, considerando seu público-alvo jovem, é algo extremamente louvável.

Logo no primeiro ato, Katrina tem fotos íntimas vazadas e é inclusive por conta disso que se aproxima de Fernando, já que este sabe como invadir o celular do criminoso (porque, sim, vazar fotos íntimas é crime); envergonhada, ela tenta fazer com que ele não as veja, ao passo que este rebate dizendo que “inevitavelmente irá ver algumas fotos”, mas que a blogueira precisa “confiar nele” e não a julga por isso – muito pelo contrário: se espanta com “até onde esse babaca foi capaz de ir”. Além disso, Amor.com ainda tem como mérito tratar de outras questões como o hábito contemporâneo de vivermos excessivamente em torno de nossa própria imagem – ou, como diz Katrina, “deixar o ego abafar o coração” – e até mesmo sobre comentários odiosos deixados em redes sociais já que, por mais famoso que alguém seja, sempre há um ser humano por trás daquela tela: alguém que ri, chora e que, principalmente, tem sentimentos.

Adicionalmente, nos mostra um pouco mais sobre um universo que gera curiosidade em muitos: por se tratar de uma profissão muito nova, é compreensível que uma maioria de pessoas ainda não entenda muito bem como funciona o mundo dos blogueiros, youtubers e influenciadores digitais – e apesar de abordar universos tão diferentes como o da moda e dos games, a narrativa acerta minimamente dos dois lados, retratando com bastante realidade o universo dela (e chega a ser bastante interessante que haja publicidade de uma marca de produtos para cabelo justamente dentro de um vídeo tutorial em que Katrina ensina como fazer um penteado, exatamente como acontece com as blogueiras reais) e, ao mesmo tempo, faz referências muito acertadas ao universo dos quadrinhos, cinema e games – há um diálogo divertidíssimo no qual Panda (João Côrtes) pergunta para Fernando “o que seria da Aliança Rebelde se Luke Skywalker não tivesse tomado atitude?”, só para exemplificar.

Sobre isso, é impossível não mencionar a direção de arte de Walkiria Barbosa, que se mostra eficiente ao criar os dois “mundos”: de um lado, um figurino que causaria inveja até nas maiores blogueiras da vida real e, do outro, cosplays, action figures e inúmeras referências de qualidade ao universo nerd.

A produção também usa recursos de direção e montagem que servem bem ao propósito da narrativa, mesmo que não sejam muito originais: por ter a internet como ambiente, vemos constantemente telas de diversas redes sociais como Facebook, InstagramTwitter e YouTube, o que cria uma dinâmica bastante eficaz.

Há cinco anos, um filme sobre youtubers seria algo completamente impensável mas, em pleno 2017, não é de se surpreender que esta tenha sido a roupagem utilizada para uma mesma história que, sim, já foi contada em dezenas ou talvez centenas de outras comédias românticas – e isto não é, definitivamente, um demérito.

avatardp
Sobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.