Crítica: Amityville: O Despertar – Debate Progressista

Crítica: Amityville: O Despertar

cinema

Amityville: The Awakening, EUA, 85 min. Direção: Franck Khalfoun. Roteiro: Franck Khalfoun. Elenco: Jennifer Jason Leigh, Cameron Monaghan, Bella Thorne, Jennifer Morrison, McKenna Grace, Thomas Mann, Kurtwood Smith, Taylor Spreitler, Ava Knighten Santana, Hunter Goligoski.

O terror é um dos gêneros cinematográficos mais recheados de clichês: sustos visuais e/ou sonoros, sombras calculadamente planejadas pela fotografia, sótãos e corredores assustadores, trovões e relâmpagos e tantos outros elementos que já foram e continuam sendo usados à exaustão em produções do gênero. E a verdade é que quando algo acaba por se tornar um clichê, a razão para tal normalmente é muito simples: costuma funcionar; sendo assim, não é necessariamente um demérito se utilizar de alguns deles. O problema, porém, é quando uma obra não consegue trazer absolutamente nada de novo e, ainda por cima, consegue empregar quase todos os clichês possíveis e imagináveis da pior maneira possível, como é o caso de Amityville: O Despertar.

Assim como uma série de outros filmes e livros lançados anteriormente, o longa se baseia em acontecimentos reais de 1974: naquele ano, o jovem Ronald DeFeo Jr., que morava na famigerada casa, assassinou todos os seus familiares alegando que vozes presentes no local o levaram a isso; logo após este fato, outra família se mudou para a residência e, após apenas 28 dias, fugiu constatando a existência de entidades malignas. O longa, aliás, se inicia com imagens de arquivo reais da época, algo que serve muito bem ao propósito de contextualizar seus acontecimentos futuros para novos espectadores da série Amityville.

Esta contextualização, aliás, e a maneira com que é conduzida, é um dos poucos méritos do longa – é bastante inteligente a forma utilizada pelo roteiro para explicar a série de filmes iniciada com o original de 1979: os dois amigos de Belle (Thorne), Terrence (Mann) e Marissa (Spreitler) resolvem se juntar a ela para assistirem aos filmes dentro da própria casa quando, de forma até mesmo metalinguística, o garoto explica a ordem destes mostrando seus respectivos DVDs.

Mas, somando isso ao esforço do longa em imprimir em Belle um contraste em relação aos outros membros de sua família direta – seja em relação ao seu figurino sempre mais escuro do que o dos demais, seja em relação ao simples fato dos nomes da mãe e dos outros dois irmãos se iniciarem com a mesma letra, J, diferentemente do seu (algo bastante interessante que serve para demonstrar seu sentimento de não pertencimento naquela família) -, os méritos acabam aí.




O motivo para tal é que toda a obra se estabelece como uma mistura de clichês mal-utilizados com um roteiro problemático, que parece se preocupar muito mais em dar sustos frequentes em seu espectador do que em construir uma narrativa sólida, já que muitos destes acabam por simplesmente destruir qualquer possibilidade de surpresa futura ou até mesmo criar furos injustificáveis: oras, o fato da produção optar por nos mostrar reflexos de James (Monaghan) pelos espelhos em mais de uma situação, por exemplo, ou ainda de Belle vê-lo armado em seus pesadelos faz apenas com que absolutamente ninguém se surpreenda quando o garoto é, de fato, possuído pela entidade – e falar abertamente sobre isto nem pode ser considerado spoiler já que o próprio longa decide estragar suas próprias surpresas.

Como se não fosse o suficiente, uma série de seus elementos narrativos não fazem o menor sentido, resultando em algo completamente inconsistente; Joan (Leigh), por exemplo, é estabelecida de maneira completamente incoerente: em dado momento a mulher confessa à filha ter decidido pela mudança para a tal casa pois sabia de sua fama e acreditava que o local pudesse fazer o filho James se recuperar de seu coma, alegando que “sempre acreditou em Deus, mas desistiu de acreditar” para, minutos depois apontar um crucifixo para o filho, agora possuído, mandando este “se danar no inferno”, num arco que é possivelmente o caso de excomunhão e reconversão mais rápidas da história do Cinema – como se já não fosse esdrúxula o suficiente a ideia de acreditar que uma casa provavelmente possuída pelo próprio Demônio pudesse fazer algo de positivo pelo garoto.

E o que falar de outro arco, aquele que envolve o Dr. Milton (Smith), médico de James? Há uma sequência na qual, enquanto o examina, o garoto aparece coberto em insetos (que aparecem em menor quantidade em outros momentos, inclusive, ainda sem lógica ou explicação), o que faz com que o homem decida sair correndo da casa, com medo. Se sabia que algo de ordem sobrenatural estava acontecendo ali, por que, mesmo assim, decidiu afirmar mais tarde em seu depoimento para a polícia que James não poderia ter sido o responsável pelas mortes?

A verdade é que o roteiro de Khalfoun parece nem sequer se preocupar com tais questões, chegando a um ponto que considero uma das piores falhas possíveis em uma narrativa: a de subestimar a inteligência de seu espectador.

Algo que Amityville: O Despertar faz com maestria ímpar.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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