Crítica – Além das Palavras

cinema

patyPatrícia Miguez

Baseado em fatos históricos e narrando a história da poetisa norte-americana Emily Dickinson (aqui interpretada por duas atrizes: Emma Bell em sua versão mais jovem, durante o primeiro ato e a partir daí por Cynthia Nixon), o longa escrito e dirigido por Terence Davies se mostra muito mais do que uma biografia, mas um filme humano sobre uma mulher que, apesar de todos os seus problemas, estava, com certeza, muitos séculos a frente de seu tempo.

Nascida na Amherst (Massachussetts) do século XIX e rodeada por todos os lados de uma sociedade muitíssimo mais retrógrada do que podia suportar, Emily sempre demonstrou um talento muito grande (além do literário, obviamente) para a rebeldia: seja contra a diretora do internato onde estudava (e ao ser buscada pelo pai na instituição, a jovem alega que o problema com a escola era um “caso agudo de evangelização”, por exemplo), seja contra membros da própria família ou a sociedade em si.




A religião é, aliás, um dos maiores alvos de seu descontentamento: não é que Emily fosse ateísta (ela beirava o agnosticismo, o que já seria heresia suficiente, ouso dizer), mas simplesmente tinha uma relação bastante pessoal e introspectiva com a figura de Deus: em certo momento, ao ter sua fé questionada, Dickinson simplesmente responde que “Deus conhece sua alma” e, em outro, chega a demonstrar que têm dúvidas quanto à existência divina ao dizer que “se Deus não existir, será eternamente livre”. Mas sua revolta é muito mais contra a instituição da Igreja do que contra a fé em si.

Mas, muito além disso, a poetisa demonstra uma mentalidade extremamente progressista ao afirmar que “a escravidão nunca deveria ter existido na América, para começo de conversa” (ela viveu durante a Guerra da Secessão e a abolição da escravatura nos EUA, que ocorreu em 1863, afinal de contas) e, num ato de bravata, chega a alfinetar o próprio irmão, Austin (Duncan Duff) ao dizer para este “viver por uma semana na pele de uma mulher”.

Numa época em que os homens afirmavam que “mulheres não possuíam o talento para a fina literatura” ou que “talento não era desculpa para uma mulher se expor”, a escritora também demonstrava seu descontentamento contra aqueles que não a respeitavam: em certa situação, seu pai afirma que um prato da mesa estava sujo e, atirando a louça no chão sem a menor cerimônia, a moça simplesmente replica que “não está mais”; numa segunda, questiona o editor do jornal que a publicava por alterar a pontuação de seus poemas (e sofre as consequências disto, já que o homem publica um artigo bastante cruel indiretamente sobre ela, como vingança). É curioso que sua versão mais jovem tenha pedido permissão ao pai (Keith Carradine; nunca somos apresentados a seu primeiro nome) para escrever seus poemas durante a madrugada, por ser um período mais calmo e silencioso – hábito que ela manteve até o fim de sua vida -, por exemplo, mas que, com o passar dos anos, tenha se tornado ainda mais revoltada contra aquilo que não concordava e, ao mesmo tempo, ainda mais reclusa e solitária.

Emily nunca se casa ou tem filhos, o que seria o esperado para uma mulher da época; em parte simplesmente pela recusa em viver o papel de esposa e mãe da forma exigida em pleno século XIX, mas também por simples medo de deixar outros entrarem em sua vida (como no momento em que se recusa a descer as escadas da mansão para receber o jovem que estava interessado nela), o que se explica pelo fato de que perdeu, em muitas ocasiões e de formas diferentes, aqueles que lhe eram caros: seja pela morte dos pais, pela partida do reverendo Wadsworth, (vivido por Eric Loren), por quem ela se interessava – mesmo sendo casado – ou pelo casamento e então partida da amiga Mrs. Buffam (Catherine Bailey). Mesmo que sua vida tenha tomado este rumo por sua escolha própria, é perceptível que Emily não se sentia totalmente feliz em sua própria pele, já que claramente tinha problemas em relação a si própria – seja com a aparência ou com fato de que seu talento nunca foi reconhecido ainda em vida.

A personagem de Bailey é, inclusive, um dos pontos altos do filme: também descontente com muito do que presencia, ela se mostra carismática e serve, em diversos momentos, como alívio cômico. Em certa sequência, para exemplificar, ela afirma que “ir à igreja é como ir a Boston: a melhor parte é a hora de voltar para casa”. É bastante simbólico, aliás, que Buffam conduza sua própria charrete, especialmente por ser algo incomum para uma mulher daquele período.

E, se o teste de Bedchel questiona se uma obra possui ao menos duas personagens femininas que conversem entre si sobre qualquer assunto que não seja um homem, Além das Palavras está genuinamente aprovado já que alguns dos melhores diálogos deste se encontram justamente entre as personagens femininas: seja entre Emily e Buffam; seja entre a primeira e sua irmã Vinnie (Jennifer Ehle) ou até mesmo com Susan (Jodhi May), sua cunhada.

A união feminina é um dos pontos principais do filme, por sinal: mesmo que briguem, as irmãs Dickinson estão sempre uma ao lado da outra nos momentos de necessidade; a amizade entre a poetisa e Mrs. Buffam é genuína; e são justamente as filhas – Emily e Vinnie – que ficam ao lado de sua mãe (Joanna Bacon) em seu leito de morte.

Sem sombra de dúvidas, é possível afirmar que Cynthia Nixon nos presenteia com uma performance espetacular – seja em seus momentos de dor física ou emocional, a atriz consegue entregar as emoções de maneira completamente orgânica e genuína e construir o arco de transformação da personagem, que se torna, infelizmente, cada vez mais triste, isolada e amargurada e termina, por fim, doente e acamada.



Apesar de não ser extremamente original, o recurso de montagem e decupagem de utilizar poemas reais da própria Emily Dickinson como narração em off serve não apenas como elemento dramático mas também como ponte contextual entre sua vida e obra.

É corajoso – e muito competente – que Terence Davies saiba muito bem quando e onde utilizar planos longos: seja no momento em que Vinnie serve água quente para o reverendo e sua esposa (que é abstêmia até mesmo de chá) e, sem nenhum corte, podemos sentir parte do desconforto sentido pelas irmãs; seja durante uma das convulsões de Emily, já doente, em que os planos longos nos causam uma sensação enorme de angústia claramente intencional criada pelo cineasta.

A produção também usa uma grande quantidade de elipses elegantes e muito bem localizadas: fazendo uso da fotografia e da própria direção de arte, Davies, juntamente com Florian Hoffmeister (diretor de fotografia) e Merijn Sep (designer de produção) utiliza elementos como a luz do sol batendo numa porta ou no rosto da protagonista como recursos para demonstrar a passagem do tempo. Isso para não mencionar a mais memorável de todas: o momento em que, ao vermos seu icônico retrato sendo feito, podemos observar o envelhecimento de Emily e a troca de atrizes entre Bell e Nixon.

A direção de arte, também, constrói com muita competência a transformação psicológica da poetisa ao remover gradualmente as cores de suas vestes e ao recriar a Massachussetts do século XIX; e não só isso mas, combinada com a fotografia, também se utiliza de boa parte de seus elementos (como os lampiões comuns à época) para criar planos extremamente belos.

Além das Palavras acaba por terminar em extrema melancolia – a vida de sua protagonista foi melancólica, afinal de contas. Como bem disse Vinnie, “sua raiva acabou por se tornar sua defesa”. E é ainda mais triste que, no fim de sua vida, Dickinson se questione “por que o mundo se tornou um lugar tão feio?”.