Crítica: Além da Morte

cinema

Flatliners, EUA, 110 min. Direção: Niels Arden Oplev. Roteiro: Ben Ripley (baseado no original, de Peter Filardi). Elenco: Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton, Kiersey Clemons, Kiefer Sutherland, Madison Brydges, Jacob Soley, Anna Arden, Miguel Anthony.

Linha Mortal, de 1990, dirigido por Joel Schumacher, está longe de ser uma obra-prima: o longa é apenas passável; agora, em 2017, o dinamarquês Niels Arden Oplev lança sua releitura da obra (o novo não é exatamente um remake) e, juntamente com o roteirista, Ben Ripley, consegue transformar uma narrativa já problemática em algo tão desastroso e horrendo que até mesmo um ornitorrinco sob efeito de drogas seria capaz de produzir um roteiro melhor.

O filme é protagonizado pela estudante de medicina Courtney (Page), que tem uma bizarra obsessão pelo pós-morte (o longa, inclusive, se inicia com relatos de pessoas que supostamente passaram por experiências de quase-morte) e, com a intenção de saciá-la, decide convocar dois colegas, Sophia (Clemons) e Jamie (Norton) para sua empreitada, que consiste em fazer seu coração parar por mais de um minuto antes de ser ressuscitada.

E a coleção de absurdos começa por aí, já que chega a ser curioso que Courtney decida arriscar a própria vida tendo como única esperança de ressuscitá-la justamente a garota que encontrou dias antes chorando devido à dificuldade com os conteúdos da faculdade e um sujeito que, em diversas ocasiões anteriores, já havia agido feito um completo boçal. Como se não fosse o suficiente, o que se segue é um novo acervo de disparates, já que a dupla se mostra incapaz de trazê-la de volta à vida cometendo erros simplesmente ridículos como utilizar o desfibrilador num momento em que Courtney simplesmente não tem pulsação (um erro tão absurdo que salta aos olhos até mesmo de pessoas completamente leigas na área médica); em seguida, Sophia e Jamie decidem enviar uma mensagem para Ray – este, por sinal, parece ser ligeiramente menos desmiolado que o resto do grupo – que, chegando à sala, é também o único dos estudantes a ter comparecido à aula na qual foram ensinados que aplicar epinefrina é o protocolo nesta situação. Mas, não, isto não é o suficiente: quando convoca os dois colegas para ajudá-la, Courtney os leva a um dos subsolos do prédio da faculdade onde existe… um hospital completamente funcional. Sim, no subsolo. – algo que passa do absurdo e do risível. Mas, não, para Ben Ripley isto não basta: ao levantar da maca de onde acabou de sofrer uma parada cardíaca, a estudante decide correr 20km, derrubar paredes, assar pão e descobre que, mais de uma década depois de ter estudado piano, ela ainda consegue tocar Debussy.

Nesta altura do campeonato, preciso confessar que o único pensamento a cruzar minha mente enquanto assistia Além da Morte era o de que realmente espero que o roteiro não seja nem sequer ligeiramente inspirado em pessoas reais, pelo simples fato de que, se existem estudantes de medicina com tamanho grau de imbecilidade, estamos totalmente ferrados em caso de necessidade: os “superpoderes” adquiridos pela protagonista parecem ser o suficiente para que os outros resolvam também passar pela experiência de se matar e voltar à vida por pura diversão.




E é aí que todos os membros do grupo passam a ser assombrados pelos fantasmas de seus passados e pelos erros que já cometeram em relação a outras pessoas, o que faz com que se desencadeie uma nova leva de problemas narrativos: não apenas o longa não parece ter a menor ideia de onde pretende ir, se perdendo entre gêneros em um misto patético de drama com terror e até romance (juntamente com comédia involuntária, diga-se de passagem), como perde quase toda a profundidade (não que houvesse muita) do argumento original, que flerta com questões religiosas, praticamente como se, quando tivessem quase passado pelos portões da morte, tivessem trazido consigo parte dos julgamentos de moral religiosa ligados a seus pecados.

Mas, não, ao invés disso, o roteiro decide por transformar boa parte do segundo ato da narrativa em um projeto de terror B com direito a todos os piores clichês do gênero possíveis: temos a criança assustadora com os cabelos no rosto (em uma patética referência a O Chamado), os rádios que ligam sozinhos, os corredores escuros com musiquinhas infantis descontextualizadas e também o celular da defunta que realiza ligações nas alucinações de Marlo.

Marlo, aliás, protagoniza aquele que é possivelmente o pior arco de todo o longa: culpada por ter matado um paciente ao administrar uma medicação errada (outro absurdo médico, por sinal, já que internos jamais teriam acesso a qualquer tipo de droga sem antes terem suas decisões aprovadas por um médico formado ou professor) e alterado o prontuário e o relatório de autópsia deste, a moça decide se abrir com Ray que, segundos depois de saber que a colega foi responsável por uma morte, decide beijá-la, em mais uma sequência que faz tanto sentido quanto porcos voadores.

Assim como o original, que contava com nomes como Julia Roberts e Kevin Bacon, Além da Morte traz um elenco de peso – o que, definitivamente, não resolve seus absurdos problemas de roteiro.

No fim das contas, pode servir como um divertido drinking game para profissionais da área de saúde: a cada absurdo, um gole. Só não esqueçam de deixar o 192 na discagem rápida. O risco de coma alcóolico é grande.

Agradecimentos especiais à Dra. Tassiani por esclarecimentos e informações médicas utilizados no texto.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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