Crítica: A Vilã

cinema

Ak-Nyeo, Coréia do Sul, 129min. Direção: Byung-gil Jung. Roteiro: Byeong-sik Jung e Byung-gil Jung. Elenco: Ok-bin Kim, Ha-kyun Shin, Jun Sung, Seo-hyeong Kim, Eun-ji Jo, Ye-ji Min.

É cada vez mais notável o fenômeno de crescente popularização da cultura sul-coreana em todas as partes do mundo – há até um nome específico: hallyu. Além da música tão característica do país asiático, os doramas, ou dramas, novelas de normalmente pequena duração, são televisionados não apenas pela Ásia, mas pelo globo todo. Suas características são, geralmente, amores impossíveis e arcos extremamente dramáticos – como seu próprio nome sugere.

A Vilã, longa dirigido por Byung-gil Jung, com roteiro co-escrito por este ao lado de Byeong-sik Jung, se estabelece como uma mescla entre tais elementos, tão comuns à teledramaturgia da Coréia do Sul, e uma violência quase que tarantinesca (algo curioso ao considerarmos que uma das principais referências do americano sejam justamente filmes asiáticos), de tal modo que, especialmente em sua sequência inicial, ninguém se surpreenderia ao ler as palavras “dirigido por Quentin Tarantino”: sangue que jorra de forma exagerada, espadas e lutas milimetricamente coreografadas estão todos ali.

A narrativa segue os passos de Sook-hee (Ok-bin Kim) uma jovem treinada desde a infância para matar. Após um passado difícil envolvendo seu mentor e o ex-marido, Joong-sang (Ha-kyun Shin), esta é convencida pela chefe da misteriosa organização para a qual trabalha (vivida por Seo-hyeong Kim) a viver uma vida normal e se tornar atriz de teatro, logo após se descobrir grávida. É aí que, ao se mudar para um prédio de apartamentos da região de Seul, ela acaba por conhecer o jovem Hyun-soo (Jun Sung) por quem, aos poucos, se apaixona.

E é impossível continuar qualquer análise do longa sem mencionar a qualidade de seu elenco – em especial sua protagonista, Ok-bin Kim, cuja atuação beira o impecável, e Seo-hyeong Kim, que vive a implacável chefe da agência, Kwon: a primeira, apenas com seu tom de voz e olhar consegue, muitas vezes, expressar sentimentos ou emoções com pequenas sutilezas, sem jamais cair no erro do overacting; a segunda cria a frieza necessária à sua personagem com maestria ao jamais expressar, sequer minimamente, o que possa estar cruzando sua mente – algo que, sem dúvidas, contribui para sua aura de mistério, que a torna uma antagonista infinitamente mais interessante.




E é justamente estabelecer este contraste um dos principais méritos da belíssima fotografia de Jung-hun Park, que aposta em construir o universo da vida pessoal de Sook-hee, por exemplo, em uma paleta de cores muito mais clara e vívida que aquela empregada à chefe Kwon; esta, aliás, em um de seus primeiros momentos na tela, aparece quase que apenas como uma silhueta, revelando sua essência não somente fria e obscura, mas refletindo, visualmente, o fato de que, acertadamente, a narrativa pouco nos revela sobre quem seja.

Neste sentido, o roteiro opta por nos manter, em partes, no escuro em relação à natureza da tal agência ou quais seriam os motivos pelos quais certos alvos precisam ser eliminados – algo que, em certos momentos, se torna incômodo ao espectador, mas que se deve ao fato de que nem mesmo a protagonista conhece todos os segredos da organização e de que enxergamos os eventos pelos olhos desta: isto se torna especialmente óbvio levando em consideração a primeira sequência do longa em que o diretor opta pelo uso de uma câmera subjetiva que nos faz enxergar uma intricada luta pelos olhos da própria Sook-hee.

Sobre este ponto, fica impossível não citar a riquíssima decupagem de Byung-gil Jung, que faz uso de ângulos incomuns (sempre com objetivos orgânicos justificados pela própria narrativa), câmeras subjetivas e movimentos bem empregados, a exemplo de um plano em que, conforme as viaturas de polícia se aproximam da personagem principal, o ângulo da câmera sobe, revelando-a cada vez menor e mais vulnerável.

A Vilã é, para concluir, uma obra rica, narrativa e visualmente, além de uma visita à bela capital sul-coreana, Seul, através das lentes de Jung-hun Park. A este respeito, aliás, cabem cumprimentos à Paris Filmes por seu esforço e investimento ao lançar no Brasil obras que fogem do circuito comercial hollywoodiano – algo do qual as salas brasileiras se encontram sempre tão carentes.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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