Crítica: A Forma da Água

cinema

The Shape Of Water, EUA, 123min. Direção: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo Del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy, Stewart Arnott, Nigel Bennett.

Aquele que é considerado por muitos como favorito ao prêmio mais importante do Oscar, A Forma da Água, é um filme sobre a paixão entre uma criatura aquática criada em um laboratório norte-americano na década de 1960 e uma humana. E embora esta afirmação sobre o longa roteirizado e dirigido por Guillermo Del Toro seja, sim, verdadeira, ela passa longe de descrever a complexidade da obra já que, muito mais que isso, A Forma da Água é uma trama sobre amor, relações humanas, o instinto selvagem e, acima de tudo, uma belíssima carta de amor à Sétima Arte com suas referências e homenagens, sejam estas narrativas ou visuais.

Tendo bebido de várias fontes, se torna evidente que Guillermo Del Toro trouxe suas inspirações de clássicos como o conto original A Bela e a Fera, escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot em 1740, ou até mesmo A Criatura da Lagoa Negra, longa de 1954 dirigido por Zack Arnold e, a partir daqui, nos leva à sua versão de um conto de fadas no qual o amor nasce entre dois diferentes, em sua forma mais pura e selvagem. E ele nasce dentro do coração de Elisa (Hawkins), uma simples funcionária da limpeza em tal laboratório. Muda, ela depende da linguagem de sinais para se comunicar com todos à sua volta já que é capaz de ouvir – sua mudez é consequência de uma violência sofrida muitos anos antes; e é curioso, inclusive, como sua cicatriz na lateral do pescoço remete justamente às guelras e à dependência física da água, um detalhe que torna sua construção ainda mais rica.

E se o roteiro de Del Toro já contribui para tal, é a atuação da brilhante Sally Hawkins que lhe confere um grau de doçura e uma aura sonhadora capazes de encantar o espectador de forma contínua a cada uma de suas conquistas ou descobertas. Sem o recurso da voz, Hawkins consegue, constantemente, apenas através de seu olhar e gestos, expressar o que sente – e embora haja o recurso das legendas atreladas a seus gestos, este é jamais utilizado de forma excessiva ou cansativa. Além disso, há uma cena em especial na qual, quando um grau maior de obviedade se faz necessário, o diretor opta por uma solução elegantíssima: fazer com que Giles (Jenkins) fale em voz alta palavra por palavra o que Elisa lhe diz, simplesmente porque esta quer garantir que o amigo entendeu todas – e assim, também, o espectador.

E, num primeiro momento, temos o deleite de conhecermos a relação de amizade entre ela e Giles, pautada mais uma vez na doçura e companheirismo, ilustrados por situações como aquela em que o homem demonstra a maior paciência do mundo dando-lhe diferentes tortas para provar quando percebemos que sua geladeira já estava lotada delas ou quando simplesmente se torna seu fiel companheiro de aventuras embarcando com ela no salvamento do anfíbio. Mas não é apenas Giles, já que Elisa ainda conta com a amizade sincera de Zelda, vivida brilhantemente por Octavia Spencer, que definitivamente é uma das melhores comediantes de sua geração e, justamente por esta razão, protagoniza vários momentos de alívio cômico no longa – algo que remete às histórias de fantasia e animações da Disney, o que faz total sentido considerando a quantidade de referencias cinematográficas inseridas na obra por Guillermo Del Toro.




O que nos leva às dezenas delas, que acabam por transformar A Forma da Água em uma homenagem ao próprio Cinema: dos momentos em que Elisa tenta sapatear nos corredores logo após assistir A Mascote do Regimento, de 1935, onde a pequena Shirley Temple dança ao lado de Lionel Barrymore e outros musicais que vemos em um ou outro momento, como Uma Noite no Rio, estrelado por Carmen Miranda, e Coney Island, de Walter Lang. Ainda, interpretando uma personagem muda, é emblemático que as referências utilizadas por Sally Hawkins, por sugestão do próprio Del Toro, tenham sido os filmes de Charles Chaplin, Buster Keaton e Oliver Hardy. Mas, mais que isso, em sua fantasia apaixonada, Elisa se vê dançando com o anfíbio em uma cena do clássico Nas Águas da Esquadra, de 1936, numa bela sequência cuja fotografia em preto e branco é uma verdadeira declaração de amor à história do Cinema e, especialmente, tudo aquilo que inspirou pessoalmente Guillermo Del Toro.

O que nos leva à magistral fotografia assinada por Dan Laustsen, que também produz referências óbvias ao gênero noir com seus jogos de sombra e luz e fumaça. Mas é juntamente com o brilhante design de produção criado por Paul D. Austerberry que a magia acontece: Del Toro brinca com as cores, criando um universo onde quase tudo remete ao azul-esverdeado numa clara referência à própria água. Austerberry e Laustsen, porém, criam várias rimas com a cor vermelha que, em A Forma da Água, aparece ligada a duas questões bem específicas: ao Cinema e aos próprios sentimentos vividos pela personagem Elisa – no primeiro caso, observamos muito claramente o uso desta ligada à sala de cinema localizada no andar inferior ao local onde vive, suas portas, cortinas e diversas outras referências; mas, em relação à protagonista, Del Toro ainda cria uma primorosa rima visual e narrativa com os sapatos vermelhos (que, sim, podem também terem sido uma pequena homenagem intencional do diretor à Dorothy, de O Mágico de Oz) que Elisa observa, sonhadora, numa vitrine durante o primeiro ato e que passa a utilizar, representando todo aquele sentimento que almejava sentir já que, justamente após sua primeira noite de amor com o anfíbio, numa linda sequência que envolve um plano-detalhe de suas mãos e parte do rosto sendo capazes de controlar as gotas de água na janela do ônibus, seguido de um rack focus que acaba por servir de raccord para outro plano-detalhe de seus pés – agora com os sapatos.

E, sobre a criatura anfíbia vivida brilhantemente por Doug Jones, é sensacional que o roteiro não perca tempo tentando explicar sua origem, natureza ou poderes – algo que tiraria o foco da relação de amor vivida por esta e Eliza. E, neste sentido, a narrativa criada por Del Toro ainda explora o conceito das relações humanas e o fato de que o amor sempre pode nascer, mesmo sem dezenas de explicações. Elisa muito provavelmente conseguiu provar o sentimento de forma muito mais fácil com uma criatura da água simplesmente porque talvez nunca se sentiu totalmente encaixada na sociedade humana. E o fato do homem anfíbio chegar a matar um dos gatos de Giles demonstra apenas um conceito que já foi explicado por Jean-Jacques Rousseau no século XVIII: o próprio conceito de bem e mal é totalmente humano – criaturas selvagens não vêem maldade no ato da morte, especialmente dentro de uma cadeia alimentar. O amor sentido entre os dois é, portanto, selvagem, em toda sua profundidade.

E, assim como sua introdução sugere, A Forma da Água é um conto de fadas moderno. Mas é, também, uma história sensível e humana – mesmo que não seja vivida apenas entre humanos.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

twitter instagram Letterboxd