Claudio Ritser: Na política não há foro íntimo

O casamento da deputada estadual do Paraná, Maria Victória, do Partido Progressista (PP), realizado em 14/07/2017, ganhou repercussão nacional por ter sido realizado sob protesto intenso e com uma enxurrada de ovos, nos noivos, convidados e seguranças contratados pela família.




A deputada Maria Victória é da base do governador Beto Richa (PSDB), é filha do atual ministro da Saúde do governo golpista de Michel Temer e sua mãe, é a vice-governadora do Paraná, Cida Borghetti (PP).

Victória foi candidata a prefeita de Curitiba nas eleições de 2016, mas não foi ao segundo turno. Maria Victória é uma das “três dezenas de deputados” que entraram na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), em 2015, “escondidos dentro de um ônibus” da tropa de Choque, da Polícia Militar (PM).

O motivo que fez com que os deputados se colocassem nessa situação é que estava em discussão e para aprovação dos parlamentares, um duro ajuste fiscal proposto pelo governador Beto Richa, em 2015, e uma fração pequena da população, de servidores públicos do estado, principalmente os da área da educação, protestavam intensamente,ocupando a Alep e o governo montando uma operação de guerra, para que a Polícia Militar tratasse os manifestantes, como inimigos do Estado, com bombas jogadas por helicópteros, tiros e muitos feridos no Centro Cívico, bairro onde se encontra a sede do governo estadual, da Assembleia Legislativa e Judiciário.

Este cenário fez com que a maioria absoluta dos deputados e deputadas resolvessem entrar na Assembleia Legislativa em um “camburão” da PM e votassem o tão esperado projeto de ajuste fiscal de Beto Richa.




Enquanto os deputados votavam, fora da Assembleia Legislativa havia cenas de massacre do governo do Estado, através da Polícia Militar, contra servidores públicos.

Ao mencionar o fato acima, faço com a intenção de deixar claro que a direita, para atingir seus objetivos políticos, não se furta, de jeito nenhum, em usar a força bruta do Estado para atingir e realizar outra violência, de igual, ou pior proporção, através de aprovações de projetos de lei que açoitam violentamente cada indivíduo, limitando e impedindo-o de tentar uma condição de vida, e/ou de trabalho, um pouco mais digna.

E o contexto em que houve tal massacre e tal votação, foi em 2015, período político em que a direita estava se radicalizando cada vez mais, nacionalmente para tomar na força bruta, através de um golpe de Estado, o comando do governo federal novamente, e nos estados com aprovações de leis e de projetos de ajustes fiscais que esfolam os servidores e o conjunto da população.

A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional do limite dos gastos públicos, a aprovação da reforma trabalhista e a reforma da Previdência Social que o mercado tão almeja, são exemplos da atuação da direita, de forma muito violenta, na vida de cada indivíduo.




Tais atos de imensa violência na vida dos indivíduos, pode e acarretar momentos de indignação e revolta, principalmente em uma pequena fração da população, que tende a reagir à violência do opressor.

A reação do oprimido, assim como a violência do opressor, são atos políticos. E na política, não há foro íntimo.

O protesto no casamento da Maria Victória, não se deu porque os manifestantes que lá estavam, e os que não puderam estar presentes por diversos motivos – como foi o meu caso, são loucos raivosos que foram perturbar um simples casamento, mas estavam lá porque Maria Victória é uma parlamentar, é filha de políticos que já ocuparam vários cargos, eleitos ou por indicação, e representa uma política de direita, que retira direitos, que aumenta as desigualdades sociais, e limita as oportunidades de se ter uma vida digna.

A reação dos oprimidos foi em um casamento, mas pode ser também, para se ter coerência, em um funeral, pois na política não há foro íntimo. Ainda mais em um momento de radicalização política em um contexto como o qual estamos vivendo, de golpe de Estado.

Claudio Ritser, autor do livro “Política sem ilusão: das alianças nos governos Lula e Dilma à crise política e impeachment” (Multifoco, 2016).