Claudio Ritser: Esquerda, cadê seu realismo analítico?

Os tempos difíceis estão apenas começando, pois a ofensiva da direita está implementando seu projeto político com toda a força no Brasil, no entanto, a ofensiva da direita é um fato em várias partes do mundo também. Sinal de barbárie política ao redor do globo.

Neste contexto político, de conjuntura de ofensiva da direita e consequentemente de enfraquecimento da esquerda, de seu pensamento e de seu projeto político, é que se faz cada vez mais urgente uma esquerda lúcida, coerente, não demagoga, reflexiva e teoricamente fundada no realismo analítico, para não se perder politicamente e não cair em oportunismos. Daí a urgência de se perguntar: Esquerda, cadê seu realismo analítico?

Entendo que o realismo analítico de parte da esquerda deve partir de bases concretas e não daquilo que se pensa e/ou daquilo que se quer. Dessa forma, a esquerda precisa urgentemente encarar a realidade como ela é, para não se iludir e não cair em contradições políticas explicita e até em oportunismos.




Vejamos, por exemplo: Fui contra e continuo entendendo as manifestações de 2013 como de caráter conservadora, de direita. E entendo que a esquerda, assim como o PT e o governo Dilma erraram em apoiá-los. Tais manifestações criaram a base social que a direita precisava para dar o golpe de Estado, via conspiração parlamentar, para destituir a presidenta eleita Dilma Vana Rousseff. Da mesma forma, fui e continuo sendo totalmente contra o golpe parlamentar, disfarçadamente chamado, nesse caso, de impeachment. Ser contra o golpe que destituiu a presidenta Dilma e ser contra as manifestações que criaram a base social para tal golpe, é uma lógica analítica de base concreta. Também fui contra a política de austeridade que Dilma começou a implementar, principalmente e, sobretudo desde após a sua reeleição em 2014 e sou completamente contra o governo golpista de Michel Temer e de toda a sua política, inclusive sua política de corte de gastos, que, lembrando, eu já condenava no governo Dilma. Novamente, minhas posições políticas se dão dentro de uma lógica analítica de base concreta.

Penso que o campo da esquerda precisa se conscientizar de seu tamanho político e social, que reflete no campo institucional, através das eleições. A esquerda, do ponto de vista ideológico, nunca foi hegemônica na sociedade brasileira, e nunca sequer chegou a ter paridade com a direita. Nosso tamanho na sociedade é de cerca de 20% da população. Não sendo novidade que a representação política do campo da esquerda, ou daqueles que se dizem de esquerda, no Congresso Nacional, também é de 20%, aproximadamente.

Durante o ano de 2015 e neste ano, 2016, ouvia-se a frase “Não vai ter golpe”. Mas, o fato é que houve o golpe. E como ficam os que gritaram “Não vai ter golpe”? Mentiram ou acharam mesmo que tinham condições de impedir um golpe de Estado? A frase “Não vai ter golpe” é simples, mas politicamente, muito significativa. Mostra o tamanho da ilusão em que a esquerda está imersa. Ou melhor, mostra o tamanho da ilusão em que a própria esquerda se imergiu. Até hoje, dentro do campo da esquerda, e dentro do Partido dos Trabalhadores também, há quem defenda as manifestações de 2013, ou que não enxergue os resultados práticos que tais manifestações produziram na prática.

Precisamos lutar e tentar reagir aos retrocessos político, econômico e social que a ofensiva da direita está implementando, mas não podemos deixar de refletir, de estudar e também não podemos nos iludir e dizer que a sociedade não quer a implementação desta política de retrocessos. Foi a sociedade que permitiu o golpe parlamentar e é a sociedade que está permitindo a implementação desta política. Portanto, não podemos falar que a sociedade é contra. Podemos dizer, e é verdade, que uma pequena parte da sociedade, no qual me incluo, é contra essas políticas.

Também se faz urgente ao campo da esquerda, além de se conscientizar de seu tamanho, é entender o realismo do poder de governo, ou o realismo da execução do poder institucional.

O realismo do poder de governo, ou o realismo da execução do poder institucional é o fato de quem está no governo exercer seu poder institucional para implementar sua agenda política, seja ela qual for.

Dois exemplos recentes: O massacre dos servidores públicos estaduais, majoritariamente formado por profissionais da Educação, em que o governador Beto Richa (PSDB-PR), em 29/04/2015, constitucionalmente o chefe da força policial estadual, determinou que a Polícia Militar atacasse impiedosamente servidores e indivíduos simpatizantes e politicamente solidários a causa dos servidores, para que estes não impedissem a votação de matéria, pelos parlamentares estaduais, que prejudicasse os servidores públicos estaduais. O massacre aconteceu e a matéria foi votada, no mesmo dia e horário do massacre, pelos deputados e deputadas da base aliada de Richa.

O segundo exemplo foi o ataque brutal da força policial contra indivíduos dos movimentos sociais e sindicais contra a votação, em primeiro turno, da Proposta de Emenda a Constituição (PEC) 55, no Senado Federal, em 29/11/2016. O ataque brutal aconteceu e a votação e aprovação da PEC 55, que prevê um teto para os gastos públicos e é chamada de “PEC da Morte” pelos senadores e senadoras, também.

Podemos e devemos criticar o conteúdo da proposta, mas, em meu entender, não o exercício do realismo da execução do poder institucional. Quem está no governo, se através de eleições ou golpes, é porque tem de certa forma, o apoio da maioria da população. Esse é o fato. Então, com apoio da base social, da base parlamentar ideológica, do judiciário e da grande mídia, quem está no governo vai exercer sem dúvida nenhum seu poder institucional para implementar sua agenda política, seja ela qual for. Só assim não o faz quem tem consciência de que lhe faltaria apoio em um ou mais bases, seja a social, a parlamentar ideológica, do judiciário ou da grande mídia. Podemos concordar ou não, mas a realidade, nua e crua, é essa.




Entendo e defendi que o governo Dilma também exercesse seu realismo da execução do poder institucional diante dos ataques da direita, durante as manifestações de 2013, no entanto, tenho consciência de que lhe faltaria apoio social, parlamentar, no judiciário e na grande mídia. Até porque as manifestações de 2013 eram a grande cartada da direita brasileira para criarem uma base social contra a esquerda, contra o PT e contra os governos Lula e Dilma. Tiveram êxito. Só parte da esquerda não enxergou e continua não enxergando a função prática das manifestações de 2013 para os objetivos políticos da direita. Ela, à direita, agradece.

Após o fato de ontem, 29/11/2016, na frente do Congresso Nacional, do ataque brutal da força policial, muitos dos que se dizem de esquerda, começaram, nas redes sociais, a comparar as manifestações de 2013, que não tiveram repressão por parte do governo federal, leia-se: governo Dilma (PT), com o brutal ataque sofrido por aqueles e aquelas que estavam lutando pela não aprovação da PEC 55 pelos senadores e senadoras. É um gigante erro político que tenta anular de quem é governo, o poder de exercer seu poder institucional para implementar sua agenda política, seja ela qual for. E a minoria, do qual fazermos parte, como campo de esquerda, ao tentarmos, ao ousarmos prejudicar a implementação desta agenda política de direita, com certeza sofreremos mais repressão. E a repressão terá apoio nos setores mencionados, ou na maioria dos setores. Diferente, se fossemos exercer o realismo do poder constitucional no governo Dilma, por exemplo, é claro que não encontraríamos apoio, nem mesmo nas forças policiais, mas porque são de direita. Mas é preciso deixar claro as diferenças. Governos de esquerda, com maioria política ideológica na sociedade, no parlamento, no judiciário e na grande mídia, com certeza também não irá permitir que a implantação da agenda política seja prejudicada. Por isso, é um erro político fazer tais comparações.

Precisamos, enquanto membros do campo político de esquerda, entender que, golpes de Estado, como presenciamos neste ano, via conspiração parlamentar, só acontece quando há unidade política ideológica entre os Poderes da República e da grande mídia, como a voz dos setores econômicos e com apoio social. Portanto, não há nada que enfraqueça o projeto político dos golpistas. Pode haver, e há, com certeza, disputa interna dentro do campo golpista, e nisso, indivíduos podem cair politicamente, mas a política será implementada conforme a vontade das elites econômicas, políticas e sociais. Ou seja, as pessoas podem mudar, mas a política permanecerá.

O fato de eu entender que estamos praticamente em um Estado de exceção dá-se porque as garantias constitucionais, tanto individuais, quanto coletivas, estão sendo destruídos violentamente pela política que a direita está implementando, inclusive e, sobretudo, através das ações praticadas por indivíduos e por coletivos (como, por exemplo, os que decidiram, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que a Lava Jato e o juiz Sérgio Moro não precisam seguir o regramento processual criminal estabelecido), dos que pertencem ao sistema de justiça. E não, necessariamente, a violência praticada no exercício real do poder de governo para implementar a agenda política estabelecida pelo grupo no governo. E também conforme eu disse acima, repito novamente: podemos concordar ou não, mas a realidade, nua e crua, é essa.

Tempo para o estudo, para a reflexão, para os debates e elaborações são mais que necessários, são urgentes. Uma esquerda com mais lucidez política, com mais posicionamentos e discursos com base na análise concreta dos fatos e menos demagoga e oportunista, é fundamental.

Claudio Ritser, autor do livro “Política sem ilusão: das alianças nos governos Lula e Dilma à crise política e impeachment” (Multifoco, 2016).


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