Início Colunas “No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa”

“No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa”

Me sinto desanimado. A situação aqui na empresa que trabalho é desanimadora. A situação no país é desanimadora. Nada parece estar melhorando, nada parece sequer estar no caminho que poderia fazer melhorar. Só piora, dia após dia, golpe após golpe.

Ouço no rádio que empresários estão otimistas. Otimistas com o quê? Seria a reforma da previdência? Em que ela possivelmente melhora sua atividade? Sustentarão eles seus empregados mais antigos, já passados dos 55 anos e até os 65 anos, nos seus empregos? Hoje já os substituem muito antes disso por rapaziada nova, porque mudariam essa prática? Onde trabalharão essas pessoas por mais 10 anos? E se não trabalharem, quem dará conta delas? Sobreviverão com 400 reais a partir dos 60 anos? Falam em que a Previdência vai economizar um trilhão, mas isso é obviamente uma mentira – a apregoada reforma só altera a destinação dos recursos – em vez desse trilhão ser distribuído aos mais pobres e deles retornar imediatamente ao mercado via consumo, será acumulado pelos donos do capital via mercado financeiro – financiamento da dívida pública.

Seria com a redução de direitos trabalhistas? Desde quando pagar menos a empregados fortalece o mercado? Apenas concentra renda, mais ainda, nos donos e acionistas. Ninguém, absolutamente ninguém, contrata duas secretárias para o trabalho de uma só porque agora pode pagar metade a cada. Ninguém contrata dois empregados para o mesmo posto de turno numa linha de produção porque o salário agora permite. Empregos são gerados por crescimento de atividade econômica, e não pela precarização da relação de trabalho. Mas como estimular o crescimento da atividade econômica retirando renda daqueles que compram os produtos fabricados? Que capitalismo é esse que prescinde de consumidores?

Estamos indo rapidamente para o buraco. Não é novidade, não é acidente, não é imprevisto. É projeto, e é óbvio. É fácil ver desde já o resultado disso tudo, pois já foi testado antes em outros lugares (e mesmo aqui) e sempre deu errado. Já somos uma sociedade desigual, seremos ainda mais. Um amigo diz que nos tornaremos outra Nigéria, um país riquíssimo em recursos, pessimamente administrado e afogado em violência. Estamos claramente a caminho. Já temos quase um milhão de aprisionados, a terceira maior população carcerária do mundo e a violência só aumenta. Nossos muros terão que ser cada vez mais altos, alarmes cada vez mais sofisticados, segurança privada, serviços de vigilância armada 24 horas cada vez mais necessários. Do lado de fora dos muros, o horror, o populacho, o crime. Do lado de dentro, aprisionados em segurança máxima e conforto máximo, os belgas do andar de cima.

Dia desses o grande jornalista Ricardo Boechat faleceu em um acidente. E eu em um momento cheguei a pensar – que sorte a dele, não vai viver para ver no que este país está se tornando.

Por Francisco Izquierdo, um petroleiro.

Título do texto: frase de Luis Fernando Veríssimo 


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