‘Atores’ do Golpe de 2016 serão eternizados nos cinemas

Quatro cineastas adiantam seus filmes sobre o impeachment e a crise política brasileira.

A jovem democracia brasileira ainda engatinha, como se costuma dizer, mas já viveu traumas importantes dos quais pouco se fala no cinema. O mais patente deles talvez seja a ditadura militar (1964-1985), que apesar de ter transfigurado o país, deixando rastros de sangue, é ainda digerido pelos cineastas nacionais – sem que nenhum deles tenha feito um filme obrigatório sobre o tema, dos que levam o carimbo de clássicos.

Um grupo de realizadores ativos e inquietos decidiu que essa não seria a sina dos brasileiros nesse momento, em que o Brasil vive seu segundo processo de impeachment e se vê imerso em uma crise de dimensões muito além da política. Por isso, decidiram – cada um por si – agarrar uma câmera e rumar a Brasília na esperança de capturar a História enquanto ela acontece. Ainda que ninguém se preocupe em sair de lá com um clássico.



Meses antes de o impeachment ganhar forma, o documentarista carioca Douglas Duarte tinha planejado fazer um filme que retratasse o Congresso Nacional. Mesmo ele, em cuja mesa de jantar sempre se falou de política, não entendia a matéria da qual está feito aquele grupo de parlamentares a legislar nos bastidores do poder – e que crescia em importância política à medida que Dilma Rousseff a perdia como chefe do Executivo. Excelentíssimos, que nasceu para atender uma inquietação que é de muitos, terminou crescendo até virar um documentário sobre a crise política e o impeachment quando Douglas já se encontrava na capital, no olho de um furacão que passou a girar cada vez mais rápido.

“No começo, a ideia era acompanhar não líderes, e sim corpos políticos. Queria olhar para nossos parlamentares quando estivessem com a guarda baixa, ver como se movimentam, como coçam a cabeça… Fazer, enfim, uma etnografia do Congresso. Mas o filme terminou sendo sequestrado pelo tema do impeachment. Eu tinha duas opções: enfiar a viola no saco e voltar para casa ou aproveitar esse momento extraordinário. Foi o que eu fiz”, conta o realizador que debutou em documentários de longa-metragem em 2007 com Personal Che, uma exploração do mito ao redor do guerrilheiro argentino. No ano passado, ele lançou Sete visitas, que investiga, entre outras coisas, os mecanismos do documentário de entrevistas.

Para a brasiliense Maria Augusta Ramos, que também prepara um documentário sobre a crise, a decisão foi ainda mais repentina. Seu projeto partiu do zero, cerca de duas semanas antes da fatídica votação do impeachment na Câmara, com os deputados votando por suas mães, seus filhos e outros parentes, quando ela se deu conta do “momento urgente e traumático” e de que era preciso entender o que se passava – e ainda passa – no país. “Meu cinema trata da observação da realidade e parte de questões que me instigam e despertam uma série de sentimentos. É responsabilidade de toda a sociedade entender como chegamos a esse momento, e meu filme tenta contribuir com isso”, diz a cineasta radicada no Rio e formada na Holanda, aclamada sobretudo por Justiça(2004) – o primeiro de uma trilogia de filmes sobre o poder judiciário no Brasil.

Maria, que há menos de um mês estreou em salas Futuro Junho (2015), sai de um documentário sobre o ambiente do Brasil às portas da Copa do Mundo de 2014 e mergulha no conturbado cenário político que deve culminar na saída definitiva de Dilma Rousseff no fim de agosto. Se no primeiro, ela tinha personagens definidos (um metalúrgico, um motoboy, um analista financeiro e um metroviário, todos de São Paulo) para tecer um clima tenso à beira de um possível apocalipse, no atual projeto (ainda sem nome) ela caminha sem guias pelas ruas e pelas instituições políticas de Brasília – e com uma sensação de caos mais concreta e iminente.

NO RASTRO DE DILMA

Outros dois filmes em progresso – esses, mais próximos do personagem mais central do drama, a presidenta afastada Dilma Rousseff – estão nas mãos de celebradas realizadoras, a paulista Anna Muylaert e a mineira Petra Costa.

Anna, diretora do bem-sucedido Que horas ela volta? e que lançou agora Mãe só há uma (ambos longas de ficção), é desta vez roteirista e produtora de um documentário que será dirigido por Lo Politi ­­– reconhecida diretora de publicidade e que trabalhou com o marqueteiro João Santana na campanha de Dilma. As duas têm acompanhado a presidenta em viagens e compromissos e conversado com aliados e assessores da petista.

O que a dupla quer com o filme é registrar o que serão possivelmente os últimos dias de Dilma no Governo, retirada da presidência e colocada à espera na rotina do Palácio da Alvorada, até a decisão final do Congresso. Ainda sem nome, o projeto foi apelidado por senadores e deputados de Será que ela volta?, pergunta pertinente que ainda por cima homenageia o longa de Anna.

Depois de mergulhar no universo da intimidade em seus documentários anteriores, Elena, uma abordagem poética da depressão com base no suicídio da irmã, e O olmo e a gaivota, sobre a travessia emocional de uma mulher e de um casal diante da chegada de um filho, Petra Costa decidiu se lançar ao mar aberto da política.

Desde o começo de março, ela acompanha deputados, senadores e outros atores políticos, buscando estabelecer com entrevistas e outros registros mais distantes os “acontecimentos históricos” e “cenários paralelos” que culminam na crise atual. “Meu objetivo é investigar como chegamos a esse ambiente de hoje, tão polarizado, em que o país está virando do avesso. É como se descobríssemos que nossa democracia é feita de uma estrutura muito fina, que estava sendo corroída por ratos”, diz a documentarista.

Douglas ainda não prevê, diante de um sofrimento político e econômico que se estende e não para de surpreender o país por suas reviravoltas, onde finalizará seu filme. Maria Augusta, Anna e Petra pretendem desligar a câmera quando o Senado emitir seu juízo final sobre o destino de Dilma, que, ao que tudo indica, sofrerá o segundo impeachment da democracia brasileira – de maneira, porém, polêmica e contraditória, distante do que aconteceu em 1992 com Fernando Collor.

No que todos eles concordam é que um filme sobre a crise, ainda que impossível de ser isento, não deve ser partidário nem precisa emitir opiniões. De tão complexa, a realidade brasileira está para ser decifrada. Afinal, as perguntas agonizam a todos e, por hora, ninguém tem respostas.

(Camila Moraes – El País)


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