Assessores de Capez pediram dinheiro para agilizar um contrato de venda de suco de laranja para escolas estaduais, afirma delator

Paula Paiva Paulo – G1:

Marcel Ferreira Júlio, apontado pela polícia e promotores como o principal lobista da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), afirmou na manhã desta terça-feira  (11) que Jeter Rodrigues e José Merivaldo dos Santos, ex-assessores do presidente da Assembleia Legislativa, Fernando Capez (PSDB), pediram dinheiro para a Coaf.




Marcel Júlio é apontado pela polícia e promotores como o principal lobista da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), de Bebedouro. Procurado durante três meses pela polícia, ele só se entregou depois que o pai dele, Leonel Júlio, foi preso, também por envolvimento na fraude da merenda.

Marcel falou sobre os assessores de Capez na saída da reunião da CPI da Merenda desta terça. Nem a imprensa, nem os estudantes puderam acompanhar o depoimento do lobista, que pediu uma sessão reservada.

No entanto, mesmo nesta sessão, o advogado do lobista apresentou uma orientação do procurador geral de que ele não deveria falar. Inicialmente, ele se recusou a responder as perguntas dos deputados, mas começou a ser questionado por Alencar Santana Braga (PT).

“O pouco que o Marcel falou, talvez por dois minutos, conseguimos extrair dele coisas importantes. Primeiro, que os autores, os gênios do esquema eram o Jeter e o Merivaldo. Ele falou textualmente. E disse que o Jeter o ameaçava se ele não tivesse recebimento de propina, que o contrato com o estado poderia ser prejudicado”, disse Alencar.

Nesta segunda-feira (10), o SPTV revelou principal delação premiada da investigação sobre a máfia da merenda. No depoimento, Marcel revelou que Capez pediu dinheiro para agilizar um contrato de venda de suco de laranja para escolas estaduais. Capez negou envolvimento.

Nesta terça, aos jornalistas, Marcel disse que Capez não pediu dinheiro para ele, e que citou o nome do deputado por causa dos seus assessores.

O documento de delação tem 23 páginas. Marcel conta que em 2014 ele e o pai foram procurados pelo presidente da Coaf, Cássio Chebabi. A cooperativa tinha vencido uma concorrência pra vender  suco de laranja para as escolas estaduais. Mas a cooperativa não era chamada pela secretaria da educação pra assinar o contrato.

A declaração de Marcel à CPI nesta terça é diferente da sua delação premiada de abril, na qual ele fala que Capez pediu dinheiro para agilizar o contrato de suco de laranja com as escolas estaduais.

Os deputados da oposição acusaram os deputados da base do governo de não querer fazer perguntas para o lobista. Barros Munhoz (PSDB) nega. “Como ele não quis falar, não tem o que fazer. A não ser todos nós, não só os membros da base, concordarem que ele devia assumir a responsabilidade por isso, e nós irmos embora”.

Nesta terça, a CPI disse que recebeu do Tribunal de Justiça uma nova delação de Marcel, prestada em setembro. Após a análise do documento, tanto deputados da base como da oposição falam em reconvocar pessoas que já depuseram, assim como em fazer acareações. Uma acareação possível é entre Jeter e Marcel, que tiveram divergências nos depoimentos.

‘DOCUMENTO SUMIU’

A primeira pessoa a ser ouvida nesta terça foi Dione Moraes Pavan, que fazia parte da Coordenadoria de Infraestrutura e Serviços Escolares, da Secretaria da Educação. Ela foi exonerada em setembro e disse que não sabe porque foi demitida.

Dione perdeu um documento sobre o reequilíbrio fiscal da Coaf. Ao ser questionada sobre o documento, disse que ele “sumiu”. “A sala é aberta. O documento estava em cima da minha mesa. Trabalhando 20 pessoas na minha sala. E o documento sumiu”.

Ela negou conhecer ou visitar a Coaf em Bebedouro. “Único relacionamento que eu tive com a Coaf foi receber documentação e amostras de produtos”.

Os deputados acusaram a deputada de mentir no depoimento. “Você não deveria proteger alguém. Ninguém vai te proteger. Você já foi demitida”, disse o deputado José Zico Prado (PT).

Dione foi exonerada de um cargo comissionado, mas continua trabalhando na Secretaria da Educação, concursada no cargo de auxiliar administrativa.