Claudio Ritser: Alianças políticas no contexto de golpe de Estado

De 1990, que foi quando o primeiro presidente brasileiro após a ditadura civil militar de 1964 tomou posse e passou a exercer seu mandato, até 31 de agosto de 2016, quando foi consumada a destituição definitiva da presidenta eleita Dilma Rousseff, do cargo de presidenta da República, através de um processo de impeachment sem base jurídica consistente, nós estávamos vivendo em um momento denominado de “redemocratização”, no qual havia eleições e seus resultados eram respeitados, salvo quando havia denúncias, provas e vontade política para que a lei fosse cumprida e então se cassasse o mandato.




Principalmente e, sobretudo, nos estados e municípios.

Nesse momento político e social denominado de “redemocratização” houve eleições nacionais em 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, nesta última eleição, quando o campo político da direita, nos partidos políticos e na classe burguesa, já estava em condições de fazer um enfrentamento de forças, passou a questionar o resultado eleitoral e a trabalhar, incansavelmente, para desestabilizar o governo Dilma até conseguir derrubá-lo.

Durante esse momento político social da redemocratização, foi nascendo e se fortalecendo no interior do Partido dos Trabalhadores a necessidade de se ampliar as alianças políticas e consequentemente a promover alterações de seu programa, com o objetivo de ampliar seus índices de votos e passar a apresentar uma candidatura, de Lula, que realmente fosse viável e em condições reais de vitória eleitoral.

Dessa movimentação política dentro do PT é que surgiu e foi selada a aliança com José de Alencar e com um segmento da burguesia interna, interessada em uma política que impulsionasse o mercado interno e eles, pudessem lucrar com as vendas e serviços.




Foi essa nova política de alianças, muito criticada por setores do próprio partido e no seio do campo da esquerda, que possibilitou que fossem criados e ou impulsionados programas sociais e políticas públicas que objetivavam a inclusão de milhões de indivíduos que estavam à margem do Estado e das oportunidades, políticas públicas que criaram a expectativa de se melhorar de vida.

Nem que fosse um pouco, mas, mesmo assim, seria uma melhora de vida ou uma expectativa de melhora de vida.

É fato, porém, que tal política de alianças ocasionou uma limitação, ou melhor, proporcionou um freio em determinados setores, vindo até a existir um certo retrocesso em determinados casos, no entanto, essa limitação ou esse freio e/ou retrocessos em determinados setores, apenas expõem o tamanho institucional da esquerda, que é a consequência do tamanho da esquerda na sociedade brasileira. (Ver Apêndice II do livro Política sem ilusão, 2016).

Nesse contexto de redemocratização, no qual o objetivo era disputar eleições com reais condições de ganhar, e consequentemente ter condições de governar, diante do tamanho da esquerda na sociedade e consequentemente no âmbito institucional, a política de alianças do PT e dos governos Lula e Dilma foram assertivos, em meu entender. Entendimento que expressei nos textos Tática para o hoje e governo Dilma: hiato no lulismo?, da obra Política sem ilusão.



A imensa diferença de 1994 até 2014, é que os eleitos nos pleitos governaram de acordo com a vontade soberana do eleitor, dentro do contexto político e social da redemocratização, e somente tinham mandatos cassados aqueles eleitos (governadores e prefeitos) em que havia vontade política por parte das instituições responsáveis e provas consistentes de uma ou mais práticas ilícitas.

A partir da eleição de 2014, mudou o cenário em que o vencedor do pleito tinha garantido seu mandato, e o campo da direita, que envolve os partidos políticos, entidades de classe e a classe burguesa, com seus capitalistas e seus aspones, sentindo-se seguros com o apoio de parte significativa da população, partiram para cima do Partido dos Trabalhadores e do governo Dilma, e, sobretudo, contra Luiz Inácio Lula da Silva, com a participação das instituições do Estado, com a finalidade de destituírem a presidenta Dilma Vana Rousseff da presidência da República e consequentemente de afastarem o PT do governo federal.

A destituição de Dilma, sem comprovação de dolo por parte dela, foi e está sendo uma violenta ruptura constitucional.

Um golpe de Estado dado pela direita para implementar o neoliberalismo econômico radical.

Dentro desse contexto de golpe de Estado, no qual já manifestei meu entendimento anterior, ver textos de minha autoria aqui mesmo no Sampa News, de que golpes de Estado se dão para mudar a política em vigor e implementar outra, completamente diferente, e que a classe social que dá um golpe de Estado, dá um golpe para permanecer no poder por um determinado tempo, entendo que o Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança, Lula, poderiam ao menos levar em consideração esse fato – de golpe de Estado –, que está promovendo um desmonte do Estado e um retrocesso gigantesco com perca de direitos e de garantias sociais que visa o enfraquecimento da classe trabalhadora e a diminuição do Estado para que este não tenha condições, ou condições mínimas de promover políticas públicas de inclusão e de fomento ao mercado interno.



Uma futura e improvável vitória da esquerda, nesse contexto e no curto prazo, não teria condições políticas e administrativas, para reverter toda a política neoliberalizante na economia, mas apenas iria fazer um governo mais do mesmo, haja visto que a conjuntura política é prol campo da direita e conjuntura política não se muda da noite para o dia.

O mais assertivo, nesse contexto, seria ter um discurso a médio e longo prazo, objetivando colocar o Partido dos Trabalhadores como um partido político da classe trabalhadora, que luta contra o golpe e contra os golpistas, que não iria fazer alianças políticas apenas pensando em ganhar eleições, mas objetivando fortalecer a imagem do partido e fortalecendo-o para quando o golpe já estiver se desgastando no médio prazo.

Uma candidatura do Partido dos Trabalhadores, nesse contexto, que visa apenas à questão eleitoral, como parece ser a intenção e objetivos políticos de Lula, no curto prazo, podem prejudicar a imagem do PT como um partido de classe com objetivos que visam enfrentar e destruir o golpe de Estado.

Sendo que eleições não objetivam destruir golpes de Estado e nem suas políticas, mas apenas procuram normalizar o golpe e suas práticas.

O momento atual exige que se fortaleça a identidade entre o PT e a classe trabalhadora, e vice-versa, e para isso, é preciso que haja um discurso duro contra o golpe de Estado e contra todos os golpistas.

E a coerência exigiria também que parlamentares federais e governadores eleitos pelo PT não se reunissem com Temer e nem com ninguém representando o golpismo.

Uma postura forte, para um momento e para uma conjuntura de golpe de Estado, se exige uma tática política clara e de longo prazo, fortalecendo a imagem para batalhas futuras, no médio e longo prazo.

Claudio Ritser, filiado ao PT de Curitiba e autor do livro “Política sem ilusão: das alianças nos governos Lula e Dilma à crise política e impeachment”, (Multifoco, 2016).