A diferença é que o PSDB paga para calar: Valério relata medo e desvios envolvendo tucanos mineiros

Interrogado nesta sexta-feira (7) como réu em um processo do chamado mensalão mineiro, o empresário Marcos Valério confirmou à juiza Lucimeire Rocha, da 9ª Vara Criminal de Belo Horizonte, que recursos foram desviados dos cofres estaduais para a campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo em 1998.

Em seu depoimento, o empresário – já condenado por participação no mensalão do PT – passou todo o tempo tentando convencer a Justiça a considerar informações de seu acordo de delação premiada que tentou primeiro com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e, agora, busca com a Polícia Federal.



Marcos Valério afirmou que foi usado para pagar chantagem a Cláudio Mourão (tesoureiro da campanha de Azeredo em 1998). “O que o Cláudio ia apresentar acabava com a história do PSDB em Minas. Por isso ele recebeu a grana (para ficar em silêncio)”, disse Valério durante a audiência.

“Cláudio Mourão não ia revelar o empréstimo para o Banco Rural ou os patrocínios (para eventos esportivos). O que ele ia revelar era muito pior. Eu? Medo? Nenhum. O medo era do PSDB, do Eduardo (Azeredo), do Aécio (Neves)”, disse Valério. “Só se salvaram porque pagamos R$ 700 mil e depois o PSDB pagou mais para calar a boca dele”.

Atualmente preso na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, Valério afirmou que muitas pessoas não queriam que ele fizesse uma delação: “Muita gente trabalhou para que eu não fizesse. ‘N’ manobras foram feitas”.

EVENTOS

Mesmo sem dar detalhes sobre o caso, alegando que não pode apresentar fatos novos sem que a delação seja aceita, Valério fez referência às acusações de que estatais mineiras receberam pagamentos ilegais para patrocinar eventos esportivos que teriam sido usados para irrigar a campanha de Azeredo, já condenado a mais de 20 anos de prisão em primeira instância.

“Não vou ser bode expiatório de ninguém mais. Faltava o nexo causal, e isso eu dei para a PF. Vou ter que falar de quem foi a bênção e não foi do (ex-senador) Clésio Andrade. E tem história cabulosa do por que a Cemig resolveu patrocinar os eventos. A senhora juíza vai ficar escandalizada. Do outro lado (do PSDB), sabiam que o lucro era todo para eles”.



Por diversas vezes Valério reclamou que o MP não quis que ele apresentasse fatos novos no processo. “O lucro dos eventos, dinheiro vivo, foi tudo entregue pra campanha à reeleição do Azeredo”, falou. “Isso é para todo mundo do governo (da época) sair preso”, continuou, afirmando que não teve participação nos casos de peculato, ou seja, no desvio de dinheiro público.

“Uma coisa é o mensalão do PT, que eu já fui condenado, outra é eu não ter intimidade com ninguém do governo e colocarem tudo nas minhas costas”, reclamou, dizendo que figuras importantes não estão no processo.

ESFORÇO

No início da audiência, a defesa de Marcos Valério tentou adiar o depoimento em função de delação em negociação com a PF. As defesas de Ramon Hollerbach e Cristiano Paz, outros dois ouvidos nesta sexta-feira (7), também pediram o adiamento, alegando que os acusados tinham direito de ter ciência do conteúdo do acordo de Valério antes de serem ouvidos.

A juíza Lucimeire Rocha, porém, deu prosseguimento à audiência. Segundo ela, o MP já demonstrou não ter interesse na colaboração, por acreditar que não há elementos probatórios suficientes.

Segundo o promotor Leonardo Barbabela, 80% a 90% dos fatos dos quais Valério teria conhecimento são de competência federal. “A PF não tem poder de negociar pena com Judiciário. Não se justifica prolongar mais esse processo sob argumento de que a PF tem interesse em delação. O MPMG, que é o titular dessa ação, não tem”, disse.

Em seus depoimentos, Valério e seus dois ex-sócios se contradisseram sobre as verbas dos eventos esportivos. Segundo Valério, houve mais de R$ 5 milhões de lucro nos eventos, que teriam sido repassados à campanha de Azeredo. Já Paz e Hollerbach disseram que o retorno ficou aquém das estimativas.

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